“Melhor bons sonhadores do que realistas preguiçosos: melhor ser Dom Quixote que Sancho Pança!”, afirma Papa Francisco aos jovens

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17 Setembro 2018

“Estou contente de me encontrar com vocês no final deste dia!”. A visita siciliana foi longa, mas Francisco se demonstrou radiante com os mais de cem mil rapazes e moças que estavam esperando por ele na Praça Politeama de Palermo. “Foi um dia cansativo, mas bonito. Muito obrigado palermitanos!”, começou o Papa. Música e canções, aplausos e corações, balões e cartazes preenchiam o espaço do último encontro desta visita pastoral à capital siciliana.

A reportagem é de Salvatore Cernuzio, publicada por Vatican Insider, 15-09-2018. A tradução é de Graziela Wolfart.

Em um grande palco com a gigantesca fotografia do Papa e a imagem do beato Pino Puglisi como tela de fundo, duas moças e um rapaz (Emmanuel de Morreale, Gaia de Caltanisetta e Francesca de Palermo) fizeram três perguntas ao Papa, que, como normalmente acontece nestes encontros com os jovens, deixou de lado o discurso preparado para se dirigir a todos eles espontaneamente, apoiando-se somente em alguns apontamentos que havia anotado em um caderninho branco.

Papa Francisco (Foto: Portal da Santa Sé)

O discurso do Papa foi uma injeção de confiança para todos os jovens, marcada por convites e conselhos para serem homens e mulheres “verdadeiros”, homens e mulheres “de esperança”, que constroem o futuro, que sonham alto, que não têm medo de denunciar “a exploração” e os crimes, que se apaixonam pela legalidade. E com a certeza de que “tudo pode mudar”.

“A esperança surgirá em Palermo, na Sicília, na Itália, na Igreja, a partir de vocês”, afirmou Bergoglio. “Vocês têm no coração e nas mãos a possibilidade de fazer com que nasça e cresça a esperança”. E então, com uma responsabilidade tão grande, não é possível que fiquem sentados no sofá, não é possível que sejam fracos; é preciso escutar a voz do Senhor: “Onde? Vocês têm o número de telefone do Senhor para falarem com Ele?”.

Não se escuta Deus levando uma “vida cômoda”. “Asseguro-te que escutarás qualquer coisa menos o Senhor”, insistiu o Papa. “A palavra de Deus é dinâmica. Se descobre Deus caminhando… Deus detesta a preguiça e ama a ação, entrando bem no coração e na cabeça. Os preguiçosos não poderão ouvir a voz do Senhor. Entendido?”. Trata-se de “mover o coração”, porque (o Papa repetiu mais uma vez) “é feio ver um jovem aposentado aos 22 anos, que envelheceu rápido demais”.

Também é horrível ver jovens “fechados em si mesmos” ou que se refugiam nas redes sociais, na televisão ou, pior, “em frente ao espelho”. “Este é um perigo… Não busquem Deus em sua casa, fechados em vocês mesmos, pensando no passado ou vagando com o pensamento em um futuro desconhecido”. Não, “Deus fala na relação”. Então, “compartilhem experiências fortes, formem grupos, passeiem, façam amigos, constituam a Igreja assim”, animou o Papa. “O Evangelho é escola de vida, e a vida”, afirmou o Papa Francisco, “se vive, não se explica”.

“Jesus – insistiu – sempre chama a não se conformar com ver o horizonte da praia! Jesus não quer que fiquem no banco, Ele convida para que saiam a campo. Não quer vocês nos bastidores, espiando os outros, ou na bancada comentando, mas no palco. Ponha-te em jogo! Tens medo de fazer papel de ridículo? Faça, paciência, todos nós fazemos muitas bobagens. Quebrar a cara não é o drama da vida. O drama da vida é não se expor, esse é o drama, não dar [chance] à vida! Melhor cavalgar os sonhos bonitos com alguma bobagem do que se converter em aposentado de vida tranquila, covardes. Melhor bons sonhadores do que realistas preguiçosos: melhor ser Dom Quixote do que Sancho Pança!”.

Francisco exortou a sonhar “grande” e “em direção ao grande” e a não “se conformar com as próprias necessidades do momento”. “Necessitamos homens e mulheres verdadeiros, não os que aparentam ser”. Homens e mulheres que “denunciam os crimes e a exploração. Não tenham medo de denunciar, de gritar. Necessitamos homens e mulheres que vivam relações livres e libertadoras, que amam os mais frágeis e se apaixonam pela legalidade, espelho de honestidade interior”.

[Digam] Não “ao gatopardismo [“chover no molhado”, mudar para que, na prática, nada mude] generalizado”. Não a “pinceladas de verniz” com as quais se pinta a vida; sim, pelo contrário, ao compromisso, à luta, aos sonhos, ao “jogar-se à vida com um ideal”. “Vocês são chamados a ser ‘alvoradas de esperança’”, disse o Papa aos jovens. Para serem, “é preciso se levantar a cada manhã com coração jovem, cheio de esperança, lutando para não se sentirem velhos, para não ceder à lógica do irremediável, que é uma lógica perversa: isto não funciona, não muda, tudo está perdido, é o pessimismo segundo o qual não há salvação para esta terra. Não!”.

Não há espaço para o “fatalismo” nem para o “pessimismo”, muito menos para a “resignação”. Os jovens, insistiu o Pontífice, podem “gerar uma nova civilização, acolhedora, fraternal, uma civilização do amor”. E “tudo pode mudar”. Também esta crise que o mundo vive em diferentes formas (guerras, problemas financeiros, desemprego), esta crise “que faz bailar a incerteza”, pode ser superada. O importante é não perder nem a esperança nem os valores.

Também é importante se colocar a serviço dos outros: “Servir, fazer algo pelos outros, sempre para os outros, não centrado em ti mesmo. “Eu, comigo para mim”. No final acaba como o vinagre, tão feio”.

Aos jovens de Palermo o Papa recordou a identidade do povo siciliano, mosaico de culturas, línguas, pessoas, tradições. “Vocês são um povo do encontro”, afirmou. Esta “é uma mensagem de fé”. “Favoreçam os encontros, porque o mundo de hoje é um mundo de enfrentamentos, de guerras, no qual as pessoas não se entendem”. Os jovens, disse o Papa Bergoglio, devem ser solidários com os outros, porque um “cristão que não é solidário não é cristão”. E isso é preciso ter em conta neste momento, em que “há carência de amor”.

“Somos bons fazendo distinções, inclusive justas e finas, mas para viver não se pode somente distinguir, muitas vezes para se justificar; é preciso se envolver, doar-se pelos outros. Digo isso em dialeto? É preciso sujar as mãos”. E, continuou, se os jovens se sentem tristes, amargurados, é um “termômetro” para entender “que a temperatura da acolhida, do serviço aos outros está muito baixa”.

O Papa concluiu exortando novamente os jovens a falarem com os mais velhos, com os idosos: “Falem de sua esperança, do futuro, vocês são a esperança. Falei do presente, mas lhes pergunto: neste tempo de crise, vocês têm raízes? Que cada um responda em seu coração. Quais são minhas raízes? Ou eu as perdi? Sou um jovem com raízes ou já sou um jovem desarraigado? Primeiro falei do jovem no sofá, aposentado, do jovem quieto que não se põe a caminho. Agora te pergunto: és jovem com raízes? E falei desta terra de tantas culturas… Estás arraigado na cultura deste povo, das famílias, ou estás um pouco no ar, sem raízes ou (me perdoem a palavra) um pouco gasoso? Sem fundamentos, sem raízes? “Padre, onde posso encontrar as raízes? Pois em sua cultura, encontrarão tantas raízes; no diálogo com os outros e, sobretudo, e isto quero destacar, falem com os velhos, falem com os velhos. Escutem os velhos. “Oh, padre, eles sempre dizem a mesma coisa. Escutem. Discutam com os idosos, porque se discutes com eles falarão mais. São eles que te darão as raízes”.

“Sem raízes – insistiu o Pontífice argentino – tudo está perdido, não se pode ir e criar esperança sem raízes. Um poeta dizia que o que a árvore tem de florida vem do que está enterrado. E se alguém pensa que os velhos são chatos, eu lhes aconselho: estejam com eles, deixem que falem, discutam com eles, e eles começarão a dizer coisas interessantes que lhes darão força para seguir adiante. Peguem deles a força, a pertença. Um jovem que não tem [sentimento de] pertença em uma sociedade, em uma família, em uma cultura, é um jovem sem identidade, sem rosto. Em tempo de crise temos que sonhar, temos que nos pôr a caminho, devemos servir os outros, ser acolhedores, ser jovens de encontro, devemos ser jovens com a esperança nas mãos, com o futuro nas mãos, devemos ser jovens que tiram das raízes a capacidade de florescer esperança no futuro. Por favor, não sejam desarraigados, gasosos, porque sem raízes não terão pertença nem identidade”.

“Gosto de vê-los aqui na Igreja – concluiu Francisco –, alegres portadores de esperança, da esperança de Jesus que supera o pecado. Eu não vou dizer que vocês são santos, não, vocês são pecadores como eu, mas é Jesus que nos dá a força para vencer o pecado, nos dá a esperança. Sonhemos e vivamos a cultura da esperança, a cultura da alegria, a cultura da pertença a um povo, a uma família, a cultura que sabe pegar das raízes a força para florescer e dar fruto. Muito obrigado por terem escutado, pela paciência… vocês estão de pé. Perdão porque falei sentado, mas me doíam os tornozelos a estas horas. Lembrem: raízes, o presente nas mãos e trabalhar pela esperança no futuro, para ter a pertença e a identidade”.

Antes de se despedir, o Papa ministrou uma bênção particular a todos os presentes com a seguinte oração: “Agora quero lhes dar a bênção. Eu sei que entre vocês há jovens cristãos de outras tradições religiosas e também agnósticos, e darei a bênção para todos; pedirei a Deus que abençoe a semente da inquietude que habita em vocês. Senhor Deus, olhe para estes jovens; tu os conheces, cada um, sabes o que pensam, sabes que desejam ir para frente, fazer um mundo melhor; Senhor, faça-os buscadores do bem, da felicidade, faça-os construtores no caminho, no encontro com os outros, audazes no servir, humildes no buscar as raízes e possam para dar frutos, ter identidade e pertença. Senhor Deus, acompanha todos estes jovens no caminho e abençoe-os”.

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