Papa Francisco critica o capitalismo e emite um alerta

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09 Setembro 2018

A doutrina social do Papa Francisco é uma forma de aviso sobre as calamidades da desigualdade econômica e da mudança climática, disse o cardeal Joseph Tobin, de New Jersey, e o famoso economista Jeffrey Sachs, em um seminário no campus Lincoln Center da Universidade de Fordham.

A reportagem é de Peter Feuerherd, publicada por National Catholic Reporter, 06-09-2018. A tradução é de Victor D. Thiesen

"A gangrena do sistema não pode ser assim para sempre", disse Tobin, citando as observações do Papa - via vídeo - para o Encontro Mundial de Movimentos Populares de 2017, realizado em Modesto na Califórnia.

Sachs, diretor do Centro de Desenvolvimento Sustentável de Columbia, concordou que as declarações - às vezes sarcásticas - do Papa sobre o capitalismo são um contrapeso necessário ao excesso de confiança dos EUA de que o capitalismo irrestrito pode fornecer um caminho para sair da crise da mudança climática e da desigualdade econômica.

Sachs descreveu a encíclica de Francisco sobre o meio ambiente, "’Laudato Si’, sobre Cuidar do Nosso Lar Comum", como "uma das grandes mensagens de nosso tempo".

Mas antes que a crítica do capitalismo e do ensino social da Igreja pudesse ser discutida, o contínuo ataque sobre questões de abuso sexual que afligem a Igreja foi abordado.

David Gibson, diretor do Centro Fordham de Religião e Cultura, que patrocinou o evento que atraiu uma multidão para um auditório com 400 lugares, observou que a Igreja precisa enfrentar a crise dos abusos sexuais.

“Mas isso não impede a discussão sobre o ensino da justiça social católica”, disse Gibson.

Tobin descreveu a crise dos abusos sexuais como "o fruto amargo de uma cultura tóxica" e que os católicos têm o direito de ficar com raiva e de questionar: "Como foi permitido ficar assim?"

Tobin abordou o impacto de Francisco no ensino social da Igreja e encontrou resistência. Ele observou que certa vez ouviu um bispo americano - em uma entrevista de rádio - explicar a crítica do Papa ao capitalismo no quarto capítulo de sua exortação apostólica Evangelii Gaudium.

"O Papa criticou os Estados Unidos? Ele é um socialista?" perguntou o entrevistador de rádio.

O bispo não identificado disse não se preocupar, pois é assim que os latino-americanos falam.

Embora o tom possa ter sido de desprezo, a análise do bispo tem uma certa verdade, disse Tobin, que liderou a congregação para a vida religiosa e se tornou conhecido como um forte defensor de Francisco em Roma.

"A retórica de Francisco pode ser franca. Mas sendo ele da Argentina, viu o jogo ser jogado por muito tempo no qual a desigualdade se torna parte da ordem estabelecida”, disse Tobin.

Francisco acredita, como seus predecessores, que a Igreja deve ter voz na definição da ordem econômica mundial. O Sínodo dos Bispos do Mundo de 1971 convocou a Igreja a agir em nome da justiça. O Papa Bento XVI, em sua encíclica de 2009, Caritas in Veritate, descreveu a caridade como o valor que inspira a justiça social.

Francisco liga os dois aspectos, disse Tobin, vendo uma crítica necessária do capitalismo e sua resultante desigualdade econômica como parte dos esforços da Igreja na evangelização, se tornando uma voz para os pobres no mundo inteiro.

O Papa se concentra em ver as questões de justiça social das periferias, através dos olhos daqueles deixados para trás pela economia mundial. A periferia, disse Tobin, muitas vezes é ignorada.

"São pessoas que deixamos de cuidar", disse Tobin.

Enquanto o cardeal elogiava a visão do Papa, Sachs foi efusivo.

Segundo ele, Francisco é um dos poucos líderes mundiais que entende a profundidade das crises que o planeta enfrenta e está disposto a enfrentá-las. "Temos que ouvir e entender muito claramente", disse Sachs sobre as advertências do Papa ao meio ambiente.

Sachs, participante regular das conferências do Vaticano sobre preocupações globais, disse que a visão do Papa é complicada na para muitos que estudam uma análise anglo-americana do capitalismo irrestrito. Para ele, a visão predominantemente protestante surgiu da fundação da nação, no início de uma nova ordem econômica.

"O nascimento do capitalismo global não foi bom. Foi implacável em seu nascimento", disse Sachs sobre os poderes coloniais europeus tomarem conta dos povos nativos, impondo a escravidão e arriscando tudo pela ganância.

O capitalismo global, disse Sachs, continha uma energia incrível, que inspirou os conquistadores europeus. Isso desencadeou vícios - como a fome de açúcar - que reforçaram o sistema de escravos das plantações nas Américas.

Cabe aos Papas, desde a encíclica social do Papa Leão XIII de 1891, Rerum Novarum, alertar contra os excessos do capitalismo, uma tradição que Francisco continuou em linguagem mais direta.

Francisco está alertando que o atual sistema capitalista no mundo oprime os pobres e ameaça a vida do planeta, incluindo os esforços do governo Trump para subverter os acordos de Paris sobre as mudanças climáticas. É um desafio moral, disse Sachs, que muitas vezes não consegue se conectar com economistas que não apreciam os desafios éticos da profissão. Como economista, Sachs disse que nunca foi formalmente educado com a disciplina de ética - uma falta que permeia os praticantes de seu ofício.

O Papa está alertando o mundo de que o capitalismo global está "nos colocando em profundo risco", disse Sachs. Como resultado, Francisco surgiu "como a pessoa mais importante do planeta".

Isso tudo pode ser levado em consideração, exceto por questões internas da Igreja, reconheceu Tobin, em resposta a uma pergunta levantada pela moderadora do painel e jornalista do Washington Post, Christine Emba.

O resultado da crise dos abusos sexuais afeta o poder da Igreja em falar sobre questões sociais, disse o cardeal. "Já alegamos ser perfeitos? Não podemos fazer isso agora", disse Sachs.

A Emba ainda perguntou o que uma pessoa comum pode fazer a respeito de questões globais avassaladoras. Tobin sugeriu um simples ato de solidariedade: “Convide uma família de imigrantes para jantar. Abordar as grandes questões do planeta. Pode começar com um simples ato de ajudar nas periferias com o espírito de Francisco”, completou Tobin.

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