Yuval Noah Harari, autor de ‘Sapiens’, investiga o presente em '21 Lições Para o Século 21'

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21 Agosto 2018

Depois de contar a história da humanidade, em 'Sapiens', e escrever sobre o futuro, em 'Homo Deus', o best-seller Yuval Noah Harari reúne, em seu novo livro, todas as questões que inquietam o homem hoje.

A entrevista é de Maria Fernanda Rodrigues, publicada por O Estado de S. Paulo, 18-08-2018.

O historiador israelense Yuval Noah Harari ficou conhecido no mundo todo quando contou a história da humanidade em pouco mais de 400 páginas. Sapiens (L&PM), de 2015 e best-seller internacional, é, ainda hoje, a não ficção mais vendida no ano no Brasil. Depois, em 2016, veio Homo Deus – Uma Breve História do Amanhã (Companhia das Letras), também sucesso de público. Agora, aos 42 anos, aproveitando a boa maré, o grande número de leitores e o ainda maior número de pessoas tentando entender o que acontece no mundo, ele junta todos os temas inquietantes do presente em 21 Lições Para o Século 21 (Companhia das Letras), que chega às livrarias dia 30.

A obra reúne artigos já publicados e palestras do autor sobre trabalho, liberdade e vigilância, nacionalismo, religião, imigração, educação, guerras, política, fake news, clima, etc. “O livro procura usar as perspectivas e lições de longo prazo dos primeiros dois livros para dar clareza aos debates políticos atuais”, conta Harari nesta entrevista por e-mail em que fala, ainda, sobre a urgência de as pessoas assumirem sua responsabilidade – no debate e na ação.

“O que está ocorrendo de fato agora? A que devemos prestar atenção? Bilhões de pessoas não podem nem se dar o luxo de investigar essas questões porque têm coisas mais urgentes para fazer: trabalhar, cuidar dos filhos ou dos pais. Infelizmente, a história não faz concessões. Se o futuro da humanidade é decidido sem a sua presença, porque você está muito ocupado alimentando suas crianças, você e elas não estarão isentos das consequências”, diz.

Eis a entrevista.

O senhor escreve sobre o retorno a um passado idealizado como um meio de escapar de uma realidade cruel. O quão paralisante é essa atitude diante da necessidade de transformação desta realidade? Como podemos libertar a História de sua idealização e devolver a ela a capacidade de nos ensinar a criar uma realidade nova e diferente?

Muitos políticos estão utilizando uma versão idealizada da História para nos vender fantasias nostálgicas sobre o passado. Prometem um retorno a uma era de ouro perdida. Como historiador, fico alarmado. Essas fantasias são mentiras: jamais poderíamos voltar ao passado e, mesmo que fosse possível, não iríamos gostar muito dele. Outro problema dessas fantasias é que elas interpretam mal o verdadeiro objetivo do conhecimento da História. Precisamos conhecê-la não para voltarmos ao passado, mas para nos libertarmos dele. O passado nos controla por meio das várias histórias que as pessoas inventaram e nas quais acreditaram por séculos. E, ao contrário do que diz o senso comum, não há nada natural no caso do nacionalismo. Ele não está enraizado na biologia ou psicologia humana.

Estamos vivendo um momento de anomia e presenciando mudanças de valores, crenças e certezas. Não é a primeira vez que a humanidade passa por isso. Qual é a principal marca deste início de século que o torna diferente, por exemplo, do final do século 19?

A grande diferença é que, pela primeira vez na História, a própria humanidade está em vias de mudar. Durante a Revolução Industrial no século 19, a humanidade entrou num período de mudanças rápidas e de crises devido ao seu poder de mudar o mundo fora de nós. Os humanos derrubaram florestas, construíram hidrelétricas e cidades imensas. Mas a humanidade não conseguiu mudar o mundo dentro dela – e não podia manipular corpos e cérebros. Na verdade, mesmo hoje ainda temos os corpos e cérebros que tínhamos na Idade da Pedra. É por isso que livros como a Bíblia ainda nos falam. Foram escritos por pessoas como nós e tratam de problemas morais e psicológicos que ainda compartilhamos. Nas próximas décadas, porém, vamos adquirir a capacidade de mudar a realidade dentro de nós. Aprenderemos como manipular e fabricar corpos, cérebros e mentes. Isso representará o maior desafio para nossos valores e crenças que jamais enfrentamos antes.

O senhor também fala da necessidade de desenvolvermos novos modelos políticos. Por onde começar?

Temos de começar pensando em nível global e desenvolvendo um sistema político mais global. Não significa estabelecer um governo global – esta é uma visão duvidosa e irrealista. A política nacional e mesmo a municipal deveriam dar um peso muito maior aos problemas globais. Portanto, na hora de votar, devemos levar mais em conta a política do candidato com relação aos problemas que dizem respeito a todos do que seu enfoque nos assuntos locais.

A internet sugere um mundo sem limites, mas, no final, ela ajuda a reforçar os pequenos mundos em que vivemos – confinados à nossa vida e às nossas crenças. Além disso, estamos ocupados com nossos problemas cotidianos – ou perdendo tempo nas redes sociais. Como mostrar às pessoas que participar do debate é fundamental para viver em sociedade?

Precisamos lembrá-las de que suas vidas são moldadas pelo debate global mesmo que elas não participem dele. Um bom exemplo é o do mercado de trabalho. Mesmo que você não se interesse por política e ciência almeja um emprego, não? Mas em 2050 muitos empregos desaparecerão porque os computadores serão melhores do que os humanos na confecção de roupas, condução de caminhões, diagnóstico de doenças e mesmo no ensino da História. Novos tipos de emprego surgirão, mas você terá de ter as habilidades e a flexibilidade mental para mudar de profissão.

Em 1920, um trabalhador rural demitido por causa da mecanização da agricultura conseguia encontrar trabalho em uma fábrica de produção de tratores. Em 1980, um trabalhador de fábrica que perdia seu emprego poderia trabalhar como caixa de um supermercado. Essas mudanças de função eram possíveis porque elas não exigiam muita qualificação.

Mas, em 2050, um caixa de mercado e um operário da indústria têxtil que perderem seu emprego para uma Inteligência Artificial não terão para onde ir porque os novos empregos exigirão um alto nível de competência, criatividade e iniciativa. O problema será especialmente grave nos países em desenvolvimento cuja economia depende de empregos menos qualificados.

Estamos treinando os jovens nas favelas para serem designers de jogos de realidade virtual? Se não, o que eles farão para viver em 2050? Assim, em 2050, veremos a criação de uma nova e enorme classe: a dos inúteis. Bilhões de pessoas que não serão só desempregadas, mas “não empregáveis”. Não temos nenhum modelo econômico para essa situação e lidar com essa classe será talvez o maior problema econômico e político do século 21.

Além disso, à medida que os algoritmos tiram os humanos do mercado de trabalho, não apenas a riqueza, mas também o poder político ficará concentrado nas mãos de uma pequena elite que detém esses algoritmos poderosos, criando, assim, uma desigualdade sem precedentes. Hoje, por exemplo, milhões de motoristas de táxi, ônibus e caminhão têm uma influência política significante, que pode resultar em greves. No futuro, todo esse poder econômico e político será monopolizado por alguns milionários donos das empresas que têm a posse dos algoritmos que fazem com que todos esses veículos rodem de forma autônoma. E quando as pessoas perdem seu valor econômico e seu poder político, os governos podem parar de investir na sua saúde e educação e elas serão totalmente abandonadas pelo sistema. Isso deve preocupar a todos nós.

Assista à apresentação da obra Homo Deus. Uma breve história do amanhã, por Lucas Henrique da Luz e Gilberto Antonio Faggion, no IHU

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