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17 Agosto 2018

Quem é e o que significa Cabo Daciolo? Seria um candidato à presidência da República ou a profeta?

“Em determinados segmentos sociais, o cabo cumpre um papel fundamental, espécie de voz crítica que fala as verdades que poucos conhecem e muito menos estão dispostos a encarar. É um combinado, cuidadosamente distanciado no tempo e na cultura, de Antônio Conselheiro, profeta Gentileza e Enéas”.

O comentário é de Ricardo Lengruber, publicado por CartaCapital, 16-08-2018.

Eis o artigo.

A aparição do Cabo Daciolo no debate na Band surpreendeu a todos, por conta de sua maneira de falar, do repertório de seu pensamento e, claro, em consequência dos muitos memes e piadas na internet como reflexo de sua fé em boatos e teorias da conspiração.

O cabo do corpo de bombeiros Benevenuto Daciolo Fonseca dos Santos, de 42 anos, deputado federal eleito pelo PSOL do Rio (hoje no Patriota), foi pinçado à notoriedade em 2011, quando destacou-se entre as lideranças da greve da corporação no Rio de Janeiro.

Na ocasião, os grevistas ocuparam o quartel general e acamparam nas escadarias da Assembleia Legislativa. Daciolo chegou a ficar preso por nove dias no presídio de Bangu I. Foi eleito em 2014. Em maio de 2015, desligou-se do PSOL depois de ter proposto uma emenda para alterar o parágrafo primeiro da Constituição de "todo poder emana do povo" para "todo poder emana de Deus".

Ele não sabe bem o que é um “Estado laico”. E as vantagens que isso tem, inclusive para os fiéis das mais diferentes religiões. (Ou talvez saiba, e por isso deseja limitar a legislação).

As intervenções na tribuna da Câmara ou nos vídeos que compartilha em suas redes são basicamente pregação religiosa fundamentalista.

Como tem mandato, usa o Congresso e o palanque assegurado por seu partido como espaços de multiplicação de uma visão de mundo bem específica, mas que ganha adeptos exponencialmente, por mais incrível que possa parecer.

Não é de hoje que religião (inclusive a evangélica) e política se imiscuem no Brasil. Com diversos matizes e interesses, há décadas representantes das igrejas evangélicas, notadamente as neopentecostais, têm galgado espaços cada vez mais representativos nos poderes da República.

Juízes, promotores, deputados, governadores e prefeitos têm direta ou indiretamente mesclado ações direcionadas ao público evangélico e a partir de valores do seu ideário.

A cosmovisão evangélica brasileira é complexa e multifacetada - dos progressistas mais à esquerda do espectro político aos ultraconservadores e simpatizantes de ideias que esbarram no fascismo.

Mas se encontram todas num núcleo de propósitos bem definidos: evangelizar (que significa expandir a fé evangélica para o maior número de habitantes), converter (que tem a ver com criar laços de compromisso e ações de engajamento) e defender a reta doutrina (essa sanha por combater todo e qualquer rito ou ideologia que fuja dos fundamentos da ‘fé cristã’).

O cabo Daciolo surpreendeu por não ser conhecido nem esperado. Além disso, pelas declarações peremptórias. A sensação que se tem ao ouvi-lo é que se está diante de um profeta que fala em nome da divindade.

Ele não apresenta ideias, pontifica verdades, denuncia pecados, ameaça pecadores, profetiza cenários catastróficos.

Em determinados segmentos sociais, o cabo cumpre um papel fundamental, espécie de voz crítica que fala as verdades que poucos conhecem e muito menos estão dispostos a encarar. É um combinado, cuidadosamente distanciado no tempo e na cultura, de Antônio Conselheiro, profeta Gentileza e Enéas.

Há, porém, outros motivos de preocupação. Não com ele em si, mas com o que ele representa (a palavra exata é com o que ele ‘simboliza’). Daciolo é a voz de muita gente que sempre foi silenciada. Fala em nome de gente muito simples que não sabe como transformar os descaminhos desse País de privilégios e privilegiados.

Gente que se encontrou na vida quando deixou de beber, de jogar e de praticar os ‘pecados desse mundo’ e conseguiu equilibrar sua vida, suas finanças e sua família. Essa gente humilde, mas resistente e resiliente, o vê como um dos seus. Ele é um dos que que fala na linguagem e no imaginário do povo.

O candidato cumpre, na disputa eleitoral, um papel até então imprevisível. Ele, ao mesmo tempo, critica a esquerda ‘bolivariana’ (que soa como música para uma imensidão de brasileiros informada pelo Jornal Nacional) e os governantes que aí estão por sua ineficiência (coisa que agrada a turma que é contra tudo e todos e os oportunistas que entregam os anéis para salvar os dedos), denuncia esquemas conspiradores que querem acabar com a família e a pátria (sic) e, mais grave no atual cenário, faz Bolsonaro parecer equilibrado e propositivo.

Ele consegue o impossível: colocar Bolsonaro realmente no páreo. Daciolo não vai ganhar a eleição. Mas representa uma cosmovisão. Maior do que ele, porta-voz de uma multidão de silenciados. Não será surpresa, se um dia, essa cosmovisão governar de fato o Brasil.

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