A Primeira Guerra Mundial nas revistas dos jesuítas. Nacionalismo e diálogo entre os povos

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06 Agosto 2018

Como poderia ocorrer uma reconciliação após os traumas da guerra, sem colocar a justiça e a injustiça no mesmo nível ou sem, por conveniência, subdividir a responsabilidade igualmente entre as partes? É preciso partir da cruz de Cristo, que ensina a olhar na cara dos piores crimes e para chamar a injustiça de injustiça evitando, ao mesmo tempo, cair no abismo do ódio. A pergunta e a subsequente resposta abrem o ensaio de Klaus Schatz, que está publicado no número de agosto da La Civiltà Cattolica, dedicado à forma como as revistas jesuítas debateram a questão da Primeira Guerra Mundial entre nacionalismo e diálogo entre os povos.

A informação é publicada por L'Osservatore Romano, 2-3 de agosto 2018. A tradução é de Luisa Rabolini.

O autor lembra a reflexão de Jules Lebreton, em um artigo na revista dos jesuítas franceses “Etudes” que argumentava que nem o desespero em relação à unidade e à compreensão entre os povos, nem a deserção podem ser uma resposta válida para a tentativa de reconstruir o que um conflito dividiu e estraçalhou. Para os católicos de ambos os lados, aquele alemão e aquele francês, a eclosão da Primeira Guerra Mundial não foi de forma alguma a última consequência de um distanciamento de uma década, escreve Schatz: foi, em vez disso, percebido como "a dolorosa destruição de uma solidariedade internacional."

A Alemanha não é somente a Alemanha de "Lutero e Bismarck", observava Lebreton, destacando que agora "nos divide um muro de ferro e fogo, não podemos fazer-nos compreender pelos católicos além do Reno, e sabemos que a maioria deles não tem a mínima possibilidade de conhecer a verdade sobre a guerra, suas causas e as modalidades de sua condução".

Mas um dia, continuava Lebreton, os católicos alemães redescobrirão a sua união com os católicos da França e da Bélgica. Naquele dia, eles saberão apreciar ainda mais o fato de que foi oposta resistência à agressão que partiu de seu país. "Que então, como em julho do ano passado - esperava Lebreton – possamos nos encontrar em Lourdes, aos pés da Mãe comum, na adoração do mesmo Deus, na comunhão da mesma hóstia!"

Até a segunda metade de 1915 - lembra o autor do ensaio - a revista alemã «Stimmen der Zeit» deixou-se empolgar pelo entusiasmo nacional pela guerra. Para Peter Lippert, esse entusiasmo constitui a superação do egoísmo pequeno-burguês, enquanto Robert von-Rieneck Rostitz mostra estar fascinado pela ''elevação do espírito do povo" que levou à deflagração da guerra. Mesmo que seja condenado o ódio pelos inimigos - observa Schatz – isso acontece, quase sem exceção, apelando para o melhor sentimento nacional, o "verdadeiro alemão de bem", cuja honra de outra forma seria manchada pelos crimes de guerra: que, em geral, são considerados apenas a cargo do inimigo.

Se "Stimmen der Zeit" e "Etudes" foram, cada um à sua maneira, os porta-vozes do catolicismo nacional dos respectivos países, a revista italiana dos jesuítas, La Civiltà Cattolica, destaca-se – de acordo com Schatz - por uma rígida imparcialidade e pelo decorrente distanciamento de todo nacionalismo. A revista italiana se conserva coerentemente distante de qualquer forma purificadora da guerra ou mesmo da tese que atribuiria ao conflito a responsabilidade de um estímulo religioso: posições das quais, no começo, não estão isentos nem Stimmen der Zeit, nem Etudes. Por sua parte, La Civiltà Cattolica mostra-se muito cética em relação ao possível "despertar religioso" que a guerra teria provocado: coloca-se, em vez disso, na linha do que foi dito por Bento XV, para quem a guerra é um inútil massacre "e um "suicídio" para a Europa.

Schatz ressalta também que, com relação à tão debatida questão da "culpa de guerra", reduzir tudo à pergunta "Quem começou?" não leva a lugar algum. O verdadeiro culpado, ao contrário, é a moderna "estadolatria", a absolutização do Estado e a dissolução de todo seu vínculo transcendente e moral, do qual se tornaram responsáveis, cada uma a seu modo, todas as partes em conflito.

Enrico Rosa, diretor de La Civiltà Cattolica, a partir de 1915, escrevia que "no Papa, e apenas no Papa, está o princípio internacional de moralidade, de justiça, de ordem e de paz, que o mundo busca no presente, e em vão procura fora do Papa, para escapar dos imensos horrores e da barbárie furiosa e ameaçadora”. Nesse sentido - enfatiza Schatz - é clara a tomada de distância não apenas em relação do liberalismo tradicional, do socialismo e do novo nacionalismo, mas também de toda forma secular de pacifismo ou internacionalismo. Se, por um lado, afirma Schatz, o acusado principal não é uma nação específica, mas a emancipação da modernidade de Deus, pelo outro, nem mesmo as simpatias e antipatias são distribuídas equanimente entre as partes em conflito, mas de maneira transversal. Por isso, é certo que, se a invasão alemã da Bélgica é "uma agressão não justificada por qualquer consideração utilitarista”, o mesmo vale, em 1917, para a guerra submarina alemã e para o embargo britânico, que provoca "sofrimentos intermináveis" para a população alemã. Nem a Alemanha nem a Rússia usufruem de alguma simpatia especial, e muito menos a Inglaterra, que coloca na frente de tudo os próprios interesses comerciais: a vitória do militarismo alemão e aquela do mercantilismo britânico são, para Rosa, igualmente execráveis.

Mas o diretor da La Civiltà Cattolica não poupou nenhuma crítica até mesmo para as motivações do governo italiano, que tinha se deixado envolver na guerra ao lado da Entente pela onda de nacionalismo causada, principalmente, pelo “excêntrico” poeta Gabriele d'Annunzio.

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