México. AMLO, o adversário de um modelo de opressão

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03 Julho 2018

“Foi um domingo da cor mexicana: verde como o doce guacamole, onde não se notou que um homem havia vencido sua aposta nas urnas e com isso destroçou a sagrada ópera política de um sistema tão criminoso como corrupto. AMLO, como também chamam López Obrador, apresenta-se nesse momento como o vencedor da eleição mais importante da história do México”, escreve Eduardo Febbro, em artigo publicado por Página/12, 02-07-2018. A tradução é do Cepat.

Eis o artigo.

Foi um dia da cor do México: o verde intenso e sonhador das pimentas poblanos. Ponto de partida e término de uma história de quase um século, durante o qual um mesmo partido, o PRI, governou ao longo de 70 anos ininterruptos. Só houve uma transição de desencantos, entre 2000 e 2012 (PAN), até que o PRI, com Enrique Peña Nieto, voltou a governar até este domingo. Gerações e gerações de mexicanos só conheceram os descendentes do partido fundado em 1929 pelo ex-presidente Plutarco Elías Calles (1924-1928). Este domingo de comunhão entre famílias e longas sobremesas, abriu uma brecha na história mexicana. O México assumiu coletivamente o desafio de uma contrarrevolução democrática, pacífica e moral. Manuel López Obrador, o candidato do Morena, que venceu as eleições, sonhou-a. Seu povo a estampou, sem grosserias, nem queima de bandeiras, nem menosprezos raciais como fez o imperador da grosseria política que é Donald Trump.

AMLO, homem que se forjou no PRI e passou a fazer parte da esquerda no partido PRD, até que em 2012 fundou seu próprio movimento, Morena, tornou realidade nas urnas o que ele chamou de a quarta transformação do México, após a Independência, a Reforma e a Revolução. O giro foi enorme, à altura de um país que encarna como poucos o sonho da emancipação americana e lutou e luta por sua soberania e sua liberdade diante do vizinho norte-americano que, desde o século XIX, fere-o em sua pele e sua alma. Os Estados Unidos estrearam como império intervencionista com a primeira expedição colonial de sua história quando, entre 1846 e 1848, invadiu o território mexicano e acabou criando A República do Texas, um território que antes pertencia ao Estado mexicano.

Foi um domingo da cor mexicana: verde como o doce guacamole, onde não se notou que um homem havia vencido sua aposta nas urnas e com isso destroçou a sagrada ópera política de um sistema tão criminoso como corrupto. AMLO, como também chamam López Obrador, apresenta-se nesse momento como o vencedor da eleição mais importante da história do México. Além do novo presidente, elegeu-se um novo Chefe de Governo da capital e 16 Intendentes da Cidade do México, 9 governadores, 1850 presidentes municipais, em 24 estados, e 927 deputados, em 27 Congressos Estaduais (No Congresso, há 500 deputados e 128 senadores que poderão se reeleger).

Sua vitória tem o sabor da cômica retrospectiva dos estatutos originais do PRI. O dirigente que derrotou o dinossáurico partido simboliza e sintetiza as intenções que figuravam nos primeiros passos do PRI, no século XX, “uma disciplina de sustento à ordem legal” e “Instituições e reforma social”. O Morena e a coalizão Juntos faremos história (Morena - Partido do Trabalho- Encontro Social) conseguiram perfurar o muro do santuário protegido pelo PRI e o PAN, com uma contínua promessa de mudança, uma reforma social substancial e a restauração da “ordem legal”, por meio da erradicação da violência e a corrupção.

“Foi como o voo lento do pássaro que vai para outro ninho”, disse Ramón Sánchez, um coordenador do Morena na Colônia Buenos Aires, um setor pobre da capital. Por essas regiões de pobreza e trabalho de sol a sol, via-se um México aliviado, ainda na expectativa das confirmações oficiais. “Nunca pensei que este dia chegaria. Pensei que iriam matar AMLO antes”, disse Amalia, uma dessas jovens de 23 anos que constituem o avanço no voto ao Morena. Nos bairros mais ricos, Polanco e Lomas de Chapultepec, os burgueses caminham com os rostos assustados. Um jovem loiro perguntava pelas ruas de Polanco onde ficava o local para votação. Quando lhe indicaram, disse: “que horror, se López Obrador vencer, vou para a Suécia”. Essa classe dominante que defendeu seus privilégios e sua impunidade com pistolas e subornos possui uma máscara de terror. Os outros setores sociais oscilam entre o entusiasmo, a felicidade dos que respiram os fins de ciclo e a incerteza.

López Obrador foi o adversário radical desse modelo de opressão que perdurou durante décadas e décadas. Ascendeu-se como a bandeira da anticorrupção e o saneamento profundo, a partir do que chamou “uma Constituição moral”. Ao seu batalhão, soube somar a esquerda e os ultraconservadores evangélicos do Norte do país, uma peça chave para qualquer vitória no México. Voou sobre seu país como um pássaro sábio, enquanto os outros gastavam sua credibilidade lhe disparando suas muitas sombras. Entendeu o México, enquanto seus inimigos políticos desta eleição, Ricardo Anaya, PAN, e José Antonio Meade, PRI, não entendiam nem a si mesmos. O primeiro, um homem de berço centro liberal, fez arranjos com a esquerda do PRD e ficou sem sua ala direita. O segundo avançou com o crepúsculo do PRI sobre as costas. O partido do presidente Peña Nieto pagou suas incompetências com a maior desventura eleitoral no âmbito Legislativo e nos estados onde estava em jogo a mudança de Governador. “Não somos os vencedores deste processo”, admitiu muito cedo José Antonio Meade. Na capital, a candidata do Morena, Claudia Sheinbaum, arrasou o PRI e o PRD com diferenças que vão dos 20 aos 40 pontos.

Na disputa presidencial, as distâncias são similares. Amlove (outro de seus apelidos) já não é “a esperança”, mas o chefe. Os 20 pontos que ganhou de seus rivais são a tradução inapelável de um país que gritou basta. E fez isso com as cores e a modéstia silenciosa deste país onde se misturam com uma sabedoria inigualável todos os contrários: o picante da pimenta com o azedo do limão, a untuosidade soberana do chocolate com a ternura crocante do milho.

O novo modelo latino-americano nasceu na fronteira entre o império e nós. A contrarrevolução democrática do México vem iluminar, em um território devastado, um modelo apenas nascente. “Uma coisa é vencer, a outra é governar”, afirmam os meios de comunicação, afins ou não. Agora vem o inquietante como. O herdeiro do nacionalismo revolucionário ocupará o poder em um país onde na campanha eleitoral houve tantas alianças de cabeça para baixo (esquerda com liberais, Obrador com evangélicos, o PRI fraturado entre a velha guarda que optava à esquerda e seu candidato oficial, um liberal de direita) que o México despertará com os sinais alterados.

Apenas uma certeza: a revolução da mudança arrasou em todo o território. Talvez Andrés Manuel López Obrador seja para o México o que o ex-presidente socialista francês François Mitterrand foi para França quando venceu as eleições presidenciais, em 1981, com um programa de 100 pontos que nunca cumpriu verdadeiramente. No entanto, abriu o jogo de uma sociedade prisioneira de uma elite: surgiram dezenas de rádios novas, canais de televisão, jornais, revistas e, com ele, acendeu uma nova geração que modernizou a França. Isso e a derrota da corrupção e de um Estado conivente com o crime organizado, que semeia assassinatos de milhares e milhares de inocentes, já seria um México no paraíso. Ontem foi um domingo da cor e a sensibilidade do México: silencioso, profundo, secreto e sempre em pé.

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