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29 Junho 2018

"Ferida" e marcada por uma "cultura de abusos sexuais e dissimulação". Assim, claro, direto e sem concessões, o Papa Francisco declara e denuncia na carta escrita à Igreja do Chile tornada pública no final de maio passado. É o penúltimo dos atos realizados pelo sucessor de Pedro desde que, em sua visita a esta Igreja latino-americana, respondeu, de forma abrupta e pouco cordial, a um jornalista que lhe perguntava se tivesse algo a dizer sobre o bispo de Osorno, acusado de encobrimento dos abusos do padre F. Karadima.

O artigo é de Jesús Martínez Gordo, publicado por El Diario Vasco, e reproduzido por Settimana News, 28-06-2018. A tradução é de Luisa Rabolini.

O que foi dito até agora - afirmou naquela ocasião - é "apenas calúnia". Quando houver provas, reconsiderarei a questão. O cardeal de Boston, Sean O'Malley, chefe da luta contra a pedofilia, disse à imprensa que a resposta do papa não foi nem oportuna nem apropriada: suas palavras "brotaram da grande dor" pelas vítimas dos abusos sexuais.

Após aquela declaração, houve uma mudança de 180 graus na maneira de lidar com os abusos sexuais na Igreja chilena por Francisco. No avião, na viagem de volta, ele admitiu não ter dado uma resposta adequada ao jornalista, e pediu desculpas se tinha "ferido as vítimas dos abusos" e, uma vez em Roma, enviou para o Chile o arcebispo de Malta Charles J. Scicluna, e o sacerdote de Tortosa, oficial da Congregação para a Doutrina da Fé, Jordi Bertomeu, com a missão de "ouvir" aqueles que haviam manifestado o desejo de "fornecer elementos" de que estavam de posse "sobre a posição do bispo de Osorno, D. J. Barros”.

Em poucas semanas, novos dados foram coletados em um relatório de mais de 2.000 páginas entregue ao Papa que, poucos dias depois, reconheceu ter "cometido sérios erros de avaliação e percepção", devido à "falta de informações precisas e equilibradas"; pedia "perdão a todos aqueles" que tinha ofendido, esperando poder fazê-lo, em breve, pessoalmente a alguns deles; ele reconhecia que a confiança na Igreja chilena havia sido "comprometida por nossos erros e pecados" e convocava os bispos chilenos ao Vaticano "para consertar tanto quanto possível o escândalo e restabelecer a justiça".

Dito e feito. Pouco tempo depois, ele encontrou várias "vítimas dos abusos sexuais, abusos de poder e de consciência". Ele as ouviu sem fixar limites de tempo. A esse primeiro encontro, já no mês de junho, seguiu-se outro encontro com um segundo grupo ao qual se acrescentaram algumas pessoas que o haviam acompanhado nessa amarga jornada.

Entre os dois encontros, o Papa Francisco reuniu-se no Vaticano com os bispos chilenos que, depois de reconhecer ter causado dor por seus "graves erros e omissões”, apresentaram em massa - algo inédito na história da Igreja - suas renúncias para que o Papa pudesse decidir livremente "em relação a cada um" deles. À renúncia geral dos bispos seguia-se a carta à Igreja chilena que abre esta matéria e o envio de J. Scicluna e J. Bertomeu à diocese de Osorno com a tarefa de "fazer avançar o processo de reparação e de cura das vítimas dos abusos”.

A situação sofrida e os passos subsequentes são únicos e excepcionais. Como excepcional é a carta em que Francisco afirma que só ouvindo as vítimas e olhando "nos rostos a dar causada" evita-se a "perversão" da Igreja e se ativa uma "mística com os olhos abertos, que questiona e não causa adormecimento." Não tendo conseguido manter essa relação com as vítimas da violência, nem as tendo ouvido corretamente, distorcemos a realidade, ocultamos "elementos cruciais para um discernimento claro e saudável" e chegamos a "conclusões parciais". "Com vergonha, fazendo uma autocrítica, devo dizer que não soubemos escutar e não reagimos prontamente".

Neste "processo de revisão e purificação", o Papa declara que encontra dois fatos positivos: o primeiro, e mais importante, é "o esforço e perseverança de pessoas concretas que, mesmo contra toda esperança ou descrença, não se cansaram de olhar na cara a verdade": as vítimas e, com elas, quem "naquele momento acreditou nelas e as acompanhou". E o segundo: a evidência de que "uma Igreja com chagas não se coloca no centro, não acredita ser perfeita, não tenta esconder e camuflar seu mal". Portanto - conclui - emprega as forças que ainda lhe restam "para compreender e deixar-se comover pelas feridas do mundo de hoje", para torná-las suas de modo que, sofrendo, acompanhe e se organize para buscar a sua cura.

Há aqueles que criticam Francisco, em outros contextos, por uma alegada inclinação populista ou por sua ineficiência prática, igualmente suposta. Não acredito que, nesta ocasião, ele possa ser censurado por falta de autocrítica, de afastamento da dor das vítimas ou negligência em reparar a dor causada, na medida do possível. Nada menos.

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