O Vaticano II e a teologia do Papa Francisco. Uma resposta amigável a Massimo Borghesi

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19 Junho 2018

Massimo Borghesi não se irrita comigo, mas, precisamente, com o projeto do Vaticano II, que ele demonstra entender equivocadamente ou, pelo menos, subestimar.”

A opinião é do teólogo italiano Andrea Grillo, professor do Pontifício Ateneu Sant'Anselmo, em Roma, do Instituto Teológico Marchigiano, em Ancona, e do Instituto de Liturgia Pastoral da Abadia de Santa Giustina, em Pádua. O artigo foi publicado em Come Se Non, 17-06-2018. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

Depois da minha resenha ao seu livro sobre a “biografia intelectual de J. M. Bergoglio”, o Prof. Massimo Borghesi respondeu (aqui) com uma série de esclarecimentos.

Não quero replicar as afirmações individuais. Levantei críticas, e Borghesi replica com justiça às contestações. Desejo apenas notar um fato, para mim bastante relevante e, creio, importante também para um debate sereno.

Na sua réplica, Borghesi me atribui uma posição de “absoluta descontinuidade” na avaliação da relação entre o Papa Francisco e os seus antecessores, particularmente no que diz respeito ao Papa Bento. Essa é uma reconstrução que não responde à verdade e que me parece ser fruto do medo, não daquilo que escrevi há cinco anos.

Aqui também – como aconteceu no julgamento formulado sobre Bergoglio, si licet parva... – parece-me que o Borghesi projeta sobre o objeto um fantasma metodológico, uma leitura drástica e maniqueísta demais, que distorce a realidade.

Mas é claro qual é a intenção de Borghesi: corroborar sua própria posição “centrista” em relação à direita que opõe Bento a Francisco e à esquerda que opõe Francisco a Bento.

Mas o joguinho, digno de um parlamentinho político, e não de uma discussão teológica, não funciona aqui. Eu acredito que Francisco, ao contrário de João Paulo II e de Bento XVI, retoma poderosamente a continuidade com o Concílio Vaticano II, que, para os antecessores, havia se tornado progressivamente um tabu embaraçoso.

Portanto, o elemento de descontinuidade não é nada “absoluto”, mas deve ser compreendido em relação ao Concílio Vaticano II: Francisco, retomando o espírito e a letra do Concílio, entra em tensão com o “dispositivo-Ratzinger”, que, há 30 anos, dominava na Igreja Católica e que havia silenciado a “reserva de autoridade” que o Concílio reintroduzira na relação entre Igreja e mundo moderno.

Borghesi é afetado, em outras palavras, por uma leitura simples demais e não problemática da hermenêutica conciliar nos últimos 50 anos: a consideração dos melhores estudos de Alberigo, Melloni, Komonchak, Routhier e O’Malley permitiria que a sua biografia não falasse do Concílio com referências reduzidas e unilaterais demais, como as de A. Del Noce ou de L. Giussani.

No fim, Borghesi, lamentando as minhas críticas, atribui-as ao “vácuo da teologia contemporânea”, que ele define como pós-conceitual e pós-doutrinal. Gostaria de me deter brevemente sobre essa dupla definição.

Aqui também, a meu ver, Borghesi parece não levar em conta o debate, de pelo menos 50 anos, que considerou problematicamente a herança ontológica, doutrinalista e intelectualista da tradição católica. Nesse percurso, eu absolutamente não diria que temos o “vácuo”: há Rahner e Lonergan, há Théobald e Pannenberg, há Lindbeck e Dulles.

Principalmente nas obras nos dois últimos, sem ignorar a relevância dos outros, a questão em jogo é justamente como elaborar uma “tradução da tradição doutrinal”, que saiba oferecer a relação com a tradição eclesial mediante linguagens e estilos novos.

A “natureza da doutrina” e os “modelos de detecção” são objetos de investigação, que não podem ser abordados com os instrumentos de uma apologética, que já sabe de partida que a dialética hegeliana ou a dialética do Iluminismo deveriam ser excluídas a priori.

As escolhas de Guardini, nos anos 1930, não podem ser as mesmas escolhas de quase um século depois. E Guardini, de sua parte, não é um mestre que impede que seus alunos pensem de maneira diferente, mesmo que sob a sua inspiração.

A boa teologia contemporânea, se quiser ser fiel à “virada pastoral” do Concílio Vaticano II, portanto, leva a sério tanto a virada linguística, quanto a virada fenomenológica. É suficiente ler algumas páginas de J-L. Marion ou de G. Bonaccorso para compreender a profundidade dos desafios do jogo, sob a orientação de um pensamento que assume com toda a seriedade a fenomenologia e a linguística, e que coloca definitivamente a discussão “para além da metafísica”.

Por isso, não se pode liquidar esse trabalho da teologia contemporânea com definições simplistas – pós-conceitual e pós-doutrinal – sem saber que, justamente, uma tradição apenas conceitual e apenas doutrinal foi contestada pelo próprio Concílio Vaticano II!

Por isso, de fato, eu não quero uma “descontinuidade absoluta”, quero apenas salvaguardar aquela continuidade com o Concílio Vaticano II, que exige reformas e descontinuidades muito audazes, a serviço da continuidade.

A “índole pastoral” do Concílio Vaticano II é a diferença entre “substância da antiga doutrina do depositum fidei e formulação do seu revestimento”. Esta é a tarefa: reconhecer a relevância da “experiência humana” para a compreensão do Evangelho, a relevância das diversas linguagens para o pensamento cristão.

Para fazer isso, a Igreja deve bater pé pelas ruas de uma teologia pós-liberal e de uma teologia simbólica, sobre cujos movimentos eu reconheço também a sensibilidade, a cultura e a palavra do Papa Francisco.

Portanto, se eu ler bem a sua réplica, Borghesi não se irrita comigo, mas, precisamente, com o projeto do Vaticano II, que ele demonstra entender equivocadamente ou, pelo menos, subestimar. A utilização de Guardini, que intuiu antecipadamente esses desdobramentos, também parece ser inserida de modo bastante redutivo na economia do ensaio de Borghesi.

O centro não é a doutrina, não é a disciplina, mas sim o mistério do Deus que se revela em Cristo. Por isso, gostaria de segurar firmemente esse “vácuo” pós-conceitual e pós-doutrinal, que, como esclareci, na realidade, é pós-liberal e simbólico – que a virada copernicana do Concílio assumiu como projeto comum para toda a Igreja.

De bom grado, deixo a Borghesi o seu “cheio” [em contrário a vácuo] de um sistema ptolemaico, doutrinal e disciplinar, preocupado, acima de tudo, em não ceder à modernidade, em vez de aprender alguma coisa com ela.

Acredito que uma compreensão melhor do desenvolvimento da teologia, dos anos 1960 em diante, sem ter sobre o nariz óculos apologéticos tão escuros, permitiria ler a biografia de Bergoglio com mais liberdade, reconhecendo não somente sua “maravilhosa complexidade”, mas também as grandes implicações eclesiais e institucionais, que não são redutíveis à gestão de uma “societas perfecta”.

Um papa que pede “inquietação”, “incompletude” e “imaginação” à teologia não pode deixar de transbordar em relação a um modelo de Igreja pensado de modo ainda apologético demais.

Uma integração do poderoso trabalho histórico sobre as “fontes” de Bergoglio operado por Borghesi com essa exigência da teologia sistemática pós-conciliar poderia ser útil para um julgamento mais completo e fecundo sobre a teologia do Papa Francisco.

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