Uruguai. Da calmaria do pampa à catarse "autoconvocada"

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Por: Wagner Fernandes de Azevedo | 19 Junho 2018

A insatisfação da população latino-americana com seus governos chega ao Uruguai. Desde janeiro, trabalhadores rurais insurgiram-se contra as políticas econômicas do Frente Amplio, partido que governa o país. Nesta última semana, o movimento Un Solo Uruguay ocupou as rodovias do país com bandeiras nacionais empunhadas e seus tratores estacionados. A população do campo declara que luta por todos os uruguaios e exige do governo medidas que solucionem o alto endividamento, o preço dos combustíveis e a alta do desemprego no país — com algumas dispersões.

A “calmaria” uruguaia

O Estado uruguaio demonstrava nos últimos anos uma estabilidade política incomum aos países do Mercosul. Enquanto Paraguai e Brasil tiveram presidentes destituídos, a Venezuela com o governo de Nicolás Maduro contestado e acusado de prisões políticas e a Argentina com um crescimento disparado da pobreza, inflação acima 10% desde o ano de 2012 e a volta para o FMI. A última crise uruguaia foi no início dos anos 2000, quando o país retraiu 7% no PIB, muito em função do Argentinazo em 2001. Nos últimos anos o país cresceu, pouco, mas acima dos vizinhos.

As eleições de 2014 também demonstravam uma continuidade tranquila da coalizão de centro-esquerda Frente Amplio, no poder desde 2005, e que a princípio continuará até 2019. Tabaré Vázquez foi eleito presidente pela segunda vez com 56% dos votos, contra 43% do seu oponente blanco, Luis Lacalle Pou. Em 2014, o enfrentamento ao Frente Amplio unificou blancos e colorados, as oligarquias históricas do país.

A aparente tranquilidade pampeana do país começa a estremecer. Na sexta-feira, 15-6, o Banco Central Uruguaio anunciou um crescimento de 2,2% do PIB no primeiro trimestre do ano. A inflação de 2017 esteve em torno de 6%, mas estabilizou neste ano. O principal problema dos índices macroeconômicos está no desemprego: 8,2%. O governo admitiu que há dificuldade na geração de empregos em um país que tem uma população de 3,5 milhões e a taxa da população apta para o trabalho crescente.

As desigualdades do campo

A participação do setor agropecuário na economia é essencial, mesmo com um decréscimo considerável da população do campo nos últimos 40 anos —hoje em 5% do total. Essa disparidade entre a população urbana e rural criou latifúndios e uma alta taxa de desigualdade econômica. Vicente Plata, representante uruguaio na Food and Agriculture Organization of the United Nations — FAO (Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura, em português), apresenta que mulheres e jovens são as categorias que mais sofrem no campo: para cada 100 homens, 143 mulheres estão em situação de pobreza, e ademais de uma quantidade significativa exercer trabalho não remunerado. Nesse panorama geral os protestos do Un Solo Uruguay emergem.

Os apontamentos do movimento partem da realidade agrária, expondo as dificuldades que se desenrolam pelo alto custo de produção. As estatísticas que apresentam, apontam o desemprego no campo está em 20% e o preço da terra cresceu devido à alta do preço das commodities no período 2004-14 e à entrada de capital especulativo, e preço do litro da gasolina no Uruguai está em torno de 6 reais. Assim, os protestos apontam para concentração do lucro e dos investimentos no país, que beneficiam, segundo seus dados, 3% da população, dentre os quais estrangeiros que possuem as maiores porções de terra.

A “estrangeirização” agropecuária do Uruguai foi exposta pelo historiador Marcelo Marchese, em dois artigos publicados no portal Rebelión. Em janeiro, o pesquisador apresentou dados que identificam o protagonismo de brasileiros e argentinos nas grandes produções relacionadas à agricultura. “Em 2011, 87% do processamento de arroz estava nas mãos de brasileiros. Os dez maiores frigoríficos concentravam 70% da produção de carne e pelo menos 8 deles eram propriedades de estrangeiros. A indústria madeireira os estrangeiros concentram a virtual totalidade do processamento. A soja, da qual somente 5% é industrializada, cinco empresas estrangeiras concentram 77% das exportações”, expôs Marchese.

“Autoconvocados” (?)

Em janeiro de 2018, grupo de “autoconvocados” saiu do campo para as rodovias afirmando que “não se aguenta mais a desigualdade de condições nesse país”. Entre os dias 23 a 28 de janeiros ocorreram mobilizações sobretudo no interior do país, que tem praticamente a metade da população total. Os protestos acusavam o governo de estagnar os pequenos produtores, não provocando alternativas de desenvolvimento para o campo. Em 26 de janeiro, os “autoconvocados” encontraram-se pela primeira vez com Tabaré Vázquez e apresentaram um documento contendo 27 questionamentos à política desenvolvida pelo Frente Amplio.

Em fevereiro, Vázquez e o ministro da agricultura, Enzo Benech, reuniram-se com sindicatos de produtores rurais para apresentar um proposta de subsídio do governo para a compra de combustíveis por pequenos agricultores. O governo abriu espaço para debate com as associações e deliberou agentes para acompanhar as negociações. Ao final da reunião houve protesto de produtores que resultou numa discussão de acusações diretas dos dois lados. O presidente acusou o movimento de ser político, e que deveria disputar nas urnas.

Segundo Marchese há um movimento do Frente Amplio para deslegitimar as manifestações dos autoconvocados associando-os à direita blanca. Em conversa com a equipe da IHU On-Line, via facebook, afirmou que o partido "perdeu sua visão crítica de esquerda". Na sua opinião, o governo do Frente Amplio, com Vázquez (2005-2009; 2015-2019) completando nove anos na presidência e outros cinco anos com Mujica (2010-2014), se desestabilizou sozinho com suas políticas econômicas. “A política do Frente Amplio favoreceu primeiro aos capitais estrangeiros que se apropriaram de 46% das nossas terras. Empresas agrícolas estrangeiras. No caso da UPM [empresa finlandesa de reflorestamento] uma família uruguaia, os Oteguy, possuem só 10% das ações. Além do aumento do reflorestamento em detrimento dos ovinos, por exemplo, a soja aumentou fortemente, o que tem sido bastante rentável em geral e permitiu que muitos empresários rurais permanecessem em seus campos, já que os rendimentos caíram em outras áreas. Assim a elite, ou os maiores proprietários nacionais, mantém ou perdem apenas os seus campos, mas o médios e pequenos proprietários os perdem para os estrangeiros. A porcentagem da apropriação de estrangeiros nas transações de terras nos últimos anos é altíssimo, em torno de 80%. A elite favorecida é a estrangeira”.

Na semana passada, o Un Solo Uruguay organizou protestos em mais de 30 pontos do país. O movimento chegou a bloquear rodovias com tratores e camionetes, na segunda-feira, 11-06.

No twitter, o movimento publica regularmente notas exigindo reforma nas tributações, garantindo energia elétrica e combustíveis mais baratos, e maior liberdade para os produtores. Essas pautas são “fundacionais”, estão como núcleo das reivindicações. A rede social também é usada para a mobilização de pessoas, convocando e orientando como devem ser os protestos.

 

A expansão do movimento descentralizou a organização. Em todos os departamentos do país existem células orgânicas, com delegados representantes, suplentes, e subdivisões da organização por regiões.

Nesse sentido, as pautas se confundem em diferentes locais. Em protesto com 2 mil pessoas, no departamento de Florida, em 7-5-2018, bradou-se para além das dificuldades da produção agrícola. Juan Brea Saravia, pecuarista, em discurso de 40 minutos acusou o governo de ideologização da educação - "que ensinam sexologia para as crianças [...] a educação deve partir das nossas casas" - e da política, o que causa a divisão do país. Por isso, afirmou que  "o movimento é apartidário" e se denominam "Un Solo Uruguay". Ao fim, a plateia saúda com um orquestrado "Viva o Uruguai!".

O governo, nessa ocasião, reunia-se no Conselho de Ministros na mesma cidade. O Conselho, que é convocado pelo presidente, tem como característica manter suas reuniões abertas. O protesto do Un Solo Uruguay além de tumultuar a reunião, levou Tabaré Vázquez a postergar uma próxima reunião sem data definida.

O Partido Nacional, blancos, registrou como lema Un solo Uruguay para um setor interno do partido. A ação gerou uma manifestação de repúdio dos autoconvocados e a ameaça de processo por apropriação intelectual.

O Uruguai que aparentava calmaria comparado aos seus vizinhos, começa com seus próprios episódios da catarse latino-americana.

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