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14 Junho 2018

A dura intervenção de Matteo Salvini [vice-primeiro-ministro italiano e ministro do Interior da Itália], no mínimo, causou surpresa e incredulidade no Vaticano, já que certamente se esperava uma virada em matéria de imigração, mas não tão repentina e na ausência de uma legislação orgânica revista e ponderada. Se o governo pensa em atacar a inércia alheia inaugurando a própria inércia diante da emergência humanitária, certamente, para os imigrantes no mar, serão tempos difíceis. Não se estipulam tratados justos sobre a pele das vítimas.

O comentário é do vaticanista italiano Carlo Di Cicco, publicado em Tiscali, 13-06-2018. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Se alguém quisesse saber o que o Papa Francisco pensa sobre o horrível caso do navio Aquarius, carregado de migrantes em situação de emergência e não acolhido pela Itália, não poderia saber, senão indiretamente, já que, até agora, sobre essa tristíssima história, ele se calou.

Mas é possível intuir algo muito claro de forma indireta: a posição tomada pelos órgãos católicos comprometidos com o social e, em segundo lugar, a posição de Francisco com relação ao imenso fenômeno migratório atual.

Parece ser muito claro o desapontamento da Igreja com o duro golpe de Salvini e com o tergiversar do governo na Itália. Na primeira página do L’Osservatore Romano, apareceu uma manchete de cinco colunas que resume um implícito reconhecimento de como esse caso doloroso poderia terminar positivamente: “Espanha acolhe os migrantes do Aquarius”. Entendendo-se que o jornal da Santa Sé não ficaria desapontado se tivesse sido a Itália – antes ainda da Espanha, como o bom senso levava a pensar – a acolher os 629 migrantes vítimas de mais esse braço de ferro entre aqueles que devem salvar as vidas no mar.

“Salvar vidas – afirma um comunicado do Centro Astalli, gerido em Roma pelos jesuítas que lidam na vanguarda com os imigrantes – é um ato de humanidade que não pode ser objeto de negociações políticas ou disputas entre governos.” E, portanto, “atos demonstrativos que têm consequências sérias sobre a já precária condição de mulheres, crianças e homens não resolvem nada na ausência de políticas de longo prazo que prevejam vias legais de ingresso. Ao contrário, aumentam o risco de morte no mar de inocentes em busca de salvação”.

Fica claro, portanto, que a intervenção do ministro do Interior, Salvini, é considerada como uma demonstração prejudicial e precipitada. O Pe. Luigi Ciotti, presidente da Libera, muito próximo da sensibilidade de Francisco sobre o tema da exclusão social e da justiça para com os pobres, também sublinhou que “a imigração não é um crime. Ser contra a vida das pessoas é um crime de civilização”.

O cardeal Gianfranco Ravasi, presidente do Pontifício Conselho para a Cultura, renomado biblista de fama internacional, lançou na manhã dessa quarta-feira, 13, uma hashtag na internet retomado uma passagem muito clara do Evangelho: “Eu era estrangeiro e não me acolhestes”. Uma advertência essencial de Jesus sobre o ser cristãos, a partir da qual eles serão julgados no juízo universal. Quase para dizer claramente que as políticas de reorganização em matéria de imigração na Europa não podem ser cobradas dos imigrantes abandonados no mar antes de novos acordos.

Muitos prefeitos de cidades marítimas entenderam isso e disseram estar dispostos a acolher o navio nos seus portos, sem encargos para o Estado. E até um prefeito do Movimento Cinco Estrelas.

A dura intervenção de Salvini, no mínimo, causou surpresa e incredulidade no âmbito do voluntariado, mas também no Vaticano, já que certamente se esperava uma virada em matéria de imigração, mas não tão repentina e na ausência de uma legislação orgânica revista e ponderada.

Em geral, a Santa Sé sempre manifestou desconforto diante de posições de propaganda que penalizam excluídos e imigrantes, preferindo legislações concertadas em nível internacional, quando os fenômenos são de natureza e dimensão internacional. Se o governo pensa em atacar a inércia alheia inaugurando a própria inércia diante da emergência humanitária, certamente, para os imigrantes no mar, serão tempos difíceis. Não se estipulam tratados justos sobre a pele das vítimas.

Não adianta nada o governo gritar aos quatro ventos que quer permanecer humano, se, depois, o ministro, de forma repentina e meticulosa, expressa a sua bela hashtag afirmando que “a Itália deixou de baixar a cabeça e de obedecer. Desta vez tem quem diga que não”.

Mas – pode-se perguntar – que culpa têm as mulheres, as crianças e os homens recolhidos no mar, se os Estados europeus custam a criar uma lei mais justa e solidária, por serem mais impulsionados por visões egoístas, xenófobas e racistas, e não por visões de solidariedade e justiça?

As pessoas às quais a política gritou continuamente que os imigrantes são um perigo para a segurança e o trabalho dos italianos não podem justificar a miopia da política que vive de renda sobre o seu medo. Esse tipo de política pode agradar a Francisco? Certamente não.

Hoje, já se sabe no mundo inteiro que justiça e solidariedade diante de um fenômeno epocal como a imigração são uma posição de base do pontificado de Francisco. Até porque ele captou a gravidade do fenômeno, que, se não for enfrentado com clarividência política e econômica, marcará a decadência do Ocidente.

Para saber mais a respeito, basta ter em mente, entre outras coisas, a famosa mensagem de Francisco para o Dia Mundial do Migrante e do Refugiado de 24 de janeiro passado. O papa propõe uma intervenção orgânica ampla, resumida no título da mensagem: acolher, proteger, promover e integrar os migrantes e refugiados.

Os verbos usados são escolhidos e claros. Não há a palavra “rejeitar”. Acolher – explica Francisco entre outras coisas – significa, acima de tudo, oferecer aos migrantes e refugiados possibilidades mais amplas de entrada segura e legal nos países de destino. E depois exemplifica: um compromisso real para incrementar e simplificar a concessão de vistos humanitários para a reunificação dos familiares, a abertura de corredores humanitários para os refugiados mais vulneráveis, prever vistos temporários especiais para quem foge de conflitos.

Além disso: as expulsões coletivas e arbitrárias de migrantes e refugiados não são uma solução idônea, é preciso antepor a segurança pessoal à nacional e preferir soluções alternativas à detenção para aqueles que entram no território nacional sem serem autorizados. A solicitude, especialmente da Igreja, deve se expressar concretamente em cada etapa da experiência migratória: desde a partida até a chegada ao retorno, passando pela viagem.

O papa sabe que, especialmente para a incessante propaganda política de várias forças políticas na Europa e na América, ampliou-se entre os cidadãos, até mesmo religiosos, uma certa intolerância para com os migrantes, devida a um escasso conhecimento do fenômeno. E ele sabe que são várias as críticas contra ele por causa dessa sua clarividência de acolhimento, pela qual ele é acusado de preferir os imigrantes aos italianos necessitados.

Mas ele não se deixa intimidar, porque as críticas partem de pressupostos infundados, e, acima de tudo, tais críticas ignoram deliberadamente que não se trata de um ponto de vista subjetivo do papa, mas sim de um imperativo contido no Evangelho, ao qual cada pessoa que se declara cristã é obrigada a se conformar.

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