Bergoglio entre teologia e política

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23 Abril 2018

Nascido em Buenos Aires. Não em Marktl, em Wadowice, em Canal d’Agordo, em Concesio ou em Sotto il Monte, como seus mais recentes antecessores. Portanto é portenho, adjetivo ou substantivo - sugere o Devoto-Oli - que o determina sob todos os aspectos filho do grande capital argentina. Metrópole onde ele cresceu, no bairro de Flores, em uma família de emigrantes, impregnado de cultura sul-americana. Que faz uma diferença substancial na mentalidade de Jorge Mario Bergoglio, o papa que veio "quase do fim do mundo" em 13 de março de cinco anos atrás.

O comentário é de Francesco Antonioli, jornalista, cientista político e escritor, publicado por Il Sole 24 Ore, 22-04-2018. A tradução é de Luisa Rabolini.

Muitas vezes esquecemos-nos disso. É por isso que chega a propósito o denso e profundo ensaio Leggere Francesco. Teologia, etica e politica, (Ler Francisco. Teologia, ética e política) de Emilce Cuda, recém publicado pela editora Bollati Boringhieri. Páginas para gourmets, que ajudam a entender. Teologia do povo ou da libertação? Comunismo? Qual filigrana ajuda a tecer o pensamento de Bergoglio?

"Para um argentino - explica Cuda, que é teóloga e filósofa da política – liberalismo soa como conservador; e o que na América do Norte corresponde ao liberalismo, na Argentina é progressismo. Para um argentino o pensamento socialista não é comunista, mas populista, já que o avanço do comunismo nos vários setores dos trabalhadores argentinos foi contido pelo movimento nacional-popular. Distinções conceituais básicas para ler Francisco, um papa argentino que não fala de "capitalismo", mas de "sistema"; não de "classe", mas de "povo"; e para ele o povo não são todas as pessoas - de acordo com o conceito norte-americano de people - mas sim o povo trabalhador".

Em suma, uma inversão em relação a nós: categorias diferentes, uma declinação tangueira da libertação, uma profecia cristã desarmada, encarnada na história, radicada no Concílio Vaticano II. Francisco é tudo isso? "Para a surpresa daqueles que deram por acabada a teologia como política – explica a pesquisadora - ou seja, a teologia como legitimação ou questionamento dos fundamentos culturais do Estado que causam a desigualdade, o papa hoje denuncia as novas formas de pobreza em que é possível reconhecer Cristo".

Desabrigados, refugiados, dependentes químicos, idosos, migrantes, nativos. E também o dinheiro apontado como ídolo, as finanças globais como a causa de muitos males. Aqui toma forma a “pastoral teológica": "A partir de uma ética entendida não como uma realidade de princípios transcendentais, concebido a priori em relação à realidade, mas como princípios transcendentais concebidas a posteriori, no drama da história e, portanto, contingentes com o devir da cultura de cada população individual e para o próprio povo", explica Emilce Cuda. O resultado é uma "militância" dos crentes que apresenta outra agenda para a ética e a política, em que ecoam os pensamentos dos teólogos Murray, Congar, Chenu, de Lubac e Daniélou, e especialmente Juan Carlos Scannone, o jesuíta argentino que também foi professor de Bergoglio. Não uma ocupação de espaços, nem mesmo raízes ou "princípios não negociáveis", mas sal e fermento: um processo em devir.

É compreensível que isso não agrade uma determinada hierarquia clerical ... E o peronismo? "Não é uma espécie de fascismo – responde entusiasmada Cuda - nasce no final da II Guerra Mundial, não é racista; alia-se aos setores mais fracos dos trabalhadores e não com as elites burguesas, não implementa o extermínio sistemático de pessoas. Aliás, de fato, é o movimento que promove a mobilidade social ascendente através do trabalho".

A passagem "de Bergoglio a Francisco" é linear: a política, indica a estudiosa, está sempre no centro do debate teológico, interessa-se pelo conflito social, mas direciona-se para os fundamentos culturais nas sociedades democráticas, sem "que seus princípios constitutivos de igualdade sejam questionados ou ameaçados, como aconteceria em uma perspectiva marxista radical". Está certa La Civilta Cattolica, portanto, quando ressalta que o pontificado de Francisco é "intimamente e profundamente dramático". A radicalidade evangélica, inclusive, é tão divisiva quanto decisiva. Além disso, já podia ser encontrado um indício definitivo na encíclica Evangelii Gaudium de novembro de 2013: "a realidade é superior à ideia" e entre as duas "deve estabelecer-se um diálogo constante, evitando que a ideia acabe por separar-se da realidade", criando aqueles curtos-circuitos tipicamente ocidentais – as ideologias - ou terrivelmente moralistas, que impedem – fardos inúteis - o retorno à centralidade evangélica de misericórdia. Um desafio ainda aberto, que para o futuro imediato os jesuítas retratam com os versos do poeta Antonio Machado: se hace camino al andar, o caminho se faz ao caminhar.

Emilce Cuda intui isso perfeitamente: "O fundamento teológico de Francisco em resposta a um sistema que mata? Se o homem é a imagem da comunhão, da comunicação da participação trinitária, então a salvação é social".

 

XVIII Simpósio Internacional IHU. A virada profética de Francisco. Possibilidades e limites para o futuro da Igreja no mundo contemporâneo:

Emilce Cuda é doutora em Teologia pela Pontificia Universidad Católica Argentina, onde também trabalha como professora. Ensina também na Faculdade de Filosofia da Universidade de Buenos Aires – UBA e na Universidad Arturo Jauretche, assim como em outras instituições nos Estados Unidos – Boston College e Northwestern University.

A professora Emilce ministrará a seguinte conferência no XVIII Simpósio Internacional IHU. A virada profética de Francisco. Possibilidades e limites para o futuro da Igreja no mundo contemporâneo:

  • 22 de maio – terça-feira | 14h às 15h30min – O Papa Francisco e a Teologia do Povo

 

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