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22 Abril 2018

"Nossa modernização é racista não apenas no sentido da generalização do preconceito e da segregação, mas no sentido da necessidade estrutural em fazer emergir uma zona de não-direito, de não-fala, de não-pensamento a qual uma parte dos humanos será historicamente relegada", escreve Vladimir Safatle, filósofo, é professor livre-docente do Departamento de Filosofia da USP - Universidade de São Paulo, Folha de S. Paulo, 20-04-2018

Ao comentar o livro "Crítica da razão negra" de Achille Mbembe, o professor da USP, escreve que "a raça é uma tecnologia de governo que organiza populações, define possibilidades de circulação espacial de sujeitos, justifica processos de exploração e sujeição de saberes".

Eis o artigo.

Em seu "Do Culto dos Deuses Fetiches", escrito em 1760, Charles de Brosses descreve o que seria a característica maior do modo de pensar das tribos negras da África subsaariana, modo descrito, pela primeira vez, como "fetichista".

Tratava-se de um pensamento que desconheceria a representação e o signo. Pensamento que naturalizaria atributos, literalizando sentidos. Assim, por exemplo, um rabo de leão não seria a representação da força, mas sua encarnação imanente.

No entanto, em dado momento, De Brosses se pergunta se afinal a hóstia não seria o fetiche dos cristãos.

No que sua resposta, por meio de várias torções, só pode ser negativa, mesmo que o dogma da transubstanciação nos levasse necessariamente a defender o contrário. Pois tratava-se de estabelecer uma clara linha de partilha entre "nós" e "eles", por mais artificial que ela fosse.

No entanto, essa era só uma das múltiplas formas evidentes de constituir o "negro" como o espaço de uma linguagem aquém da representação e do conceito, de uma existência aquém do que seria a potencialidade de ação e julgamento do "homem ideal".

Pois tratava-se de nos levar a crer que: "o Negro é um 'homem' que nem é verdadeiramente um entre nós, nem é como nós.

Se o homem se opõe à animalidade, esse não é o caso do Negro, que conserva, embora de forma ambígua, a possibilidade animal. Corpo estrangeiro no nosso mundo, é habitado, ocultamente, pelo animal". Essas são afirmações de Achille Mbembe em seu "Crítica da Razão Negra", editado há pouco pela Editora N-1.

Um dos mais importantes nomes do pensamento africano contemporâneo, Mbembe mobiliza um impressionante aparato histórico-sociológico de análise dos discursos e práticas a respeito do "negro" e da "África" articulado a dispositivos críticos herdados da tradição do pensamento francês contemporâneo (em especial Foucault e Deleuze).

Seu objetivo principal é evidenciar como o processo de modernização capitalista, desde os seus primórdios nas grandes navegações, é impensável sem a constituição do discurso das raças e a definição do "negro" como o campo de um processo contínuo de "brutalização".

Nossa modernização é racista não apenas no sentido da generalização do preconceito e da segregação, mas no sentido da necessidade estrutural em fazer emergir uma zona de não-direito, de não-fala, de não-pensamento a qual uma parte dos humanos será historicamente relegada.

Nesse sentido, é possível falar de uma racialização do mundo que se desenvolve no bojo do crescimento do capitalismo. Há um uso, no mundo social, de estruturações categoriais herdadas do mundo animal que visa viabilizar a coisificação dos humanos, até a condição mercantil de escravo.

Tal racialização é feita não apenas devido à procura de justificar práticas coloniais, mas devido principalmente à generalização gradativa de formas de sujeição que tiveram na produção do "negro", com todo seu horizonte fantasmático de desvalorização, seu germe inicial.

A raça é uma tecnologia de governo que organiza populações, define possibilidades de circulação espacial de sujeitos, justifica processos de exploração e sujeição de saberes.

Assim, se Mbembe pode afirmar que a África apareceu à consciência ocidental "não como um nome comum, e muito menos como um nome próprio, mas como a ausência de obra", é porque a exploração não seria possível sem o fantasma de produções que não seriam obra alguma, produções que seriam "arcaicas", "anti-econômicas" ou mesmo "fora da história", como vemos a África ser descrita, de Hegel a Nicolas Sarkozy. No que justificaria intervenções visando "modernizá-las".

Isso nos explica por que não é possível para Mbembe pensar a arqueologia do "negro" sem pensar naquilo que ele chama de "tendencial universalização da condição negra".

Uma universalização que deve tanto às lógicas escravagistas de captura e predação como às lógicas coloniais de ocupação e exploração.

Nosso desenvolvimento é indissociável da generalização da condição outrora descrita como "negro". Por isso, Mbembe pode falar de um "devir-negro do mundo", ou seja, de uma universalização do caráter vulnerável desta "humanidade a parte" que foi usada até a condição de mercadoria.

O livro de Achille Mbembe representa assim uma contribuição dupla da mais alta importância. Ele explicita as dinâmicas econômicos-culturais em operação na consolidação de uma razão social que deve continuamente produzir seu exterior (no caso, a "África", o "negro"). Mas ele também nos alerta para a verdadeira natureza e extensão dos processos sociais que nos aguardam.

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