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21 Julho 2014

Houve um choque no meio acadêmico e literário quando o filósofo francês Michel Foucault morreu em Paris em 25 de junho de 1984, aos 57 anos. Desaparecia repentinamente um dos teóricos mais inovadores da Europa - e um intelectual público militante ainda capaz de agitar opiniões. Neste ano se celebram os 30 anos da "má influência" de Foucault nas ciências humanas, na política e no comportamento sexual. Ele quebrou o tabu de enxergar o homem como centro do saber, denunciou as estratégias de vigilância do micropoder, defendeu causas intoleráveis ao Ocidente como o regime totalitário dos aiatolás no Irã e demonstrou que a mania atual de falar sobre a sexualidade revelava a culpa da sociedade em relação ao tema.

A reportagem é de Luís Antônio Giron, publicada pelo jornal Valor, 18-07-2014.

Sua obra é hoje estudada como clássica e sua personalidade transgressiva é considerada tanto um exemplo de liberdade como um estorvo para os intelectuais conservadores. O que sobrou hoje de Foucault tem sido tema de publicações e simpósios no mundo inteiro e será discutido no dia 31 na Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), com a presença dos escritores Silviano Santiago, brasileiro, e Mathieu Lindon, francês. Este último lança o livro "O Que Amar Quer Dizer" (CosacNaify, 284 páginas, R$ 39,00) sobre sua relação com Foucault "Eu ainda frequentava o apartamento dele quando soube que havia morrido", diz Lindon, de 58 anos. "Eu perdia meu pai. Ali acabou a minha juventude."

As circunstâncias da morte de Foucault causaram estranheza - e não apenas em seus amigos. Ele morreu em decorrência da aids, no início da arrancada de uma epidemia que na época era chamada de "câncer gay". Como os médicos ainda não dispunham de informações sobre a aids, tratavam os pacientes como se fossem vítimas de uma praga que poderia se espalhar sabe-se lá por que meios de contaminação. Assim, Foucault foi isolado em um quarto esterilizado do hospital de Pitié-Salpêtrière - a mesma instituição que ele considerava repressiva e que estudou em livros sobre os métodos de vigilância e internação psiquiátrica, como "O Nascimento da Clínica" (1963) e "História da Loucura na Idade Clássica" (1964). Como na ilustração de uma aula de Foucault sobre os métodos de confinamento dos pacientes, os médicos e enfermeiras que cuidavam dele se vestiam com trajes e capacetes usados para evitar contágio. Durante os 22 dias em que permaneceu internado, foi proibido de conversar com amigos e até de ver televisão. Seu amigo Gilles Deleuze foi barrado no saguão do hospital. Foucault era fã do tenista Joe McEnroe e queria assistir à final do torneio de Roland-Garros, mas a instalação de um aparelho de TV no quarto foi vetada. Nem mesmo o seu companheiro de 24 anos, Daniel Defert, pôde conversar com ele.

Foi uma agonia típica da cultura das celebridades que se iniciava. Centenas de jornalistas, professores e curiosos se aglomeravam na calçada do hospital. Ali mesmo começaram a proliferar os boatos e as maledicências em torno do comportamento nada convencional de Foucault, gay militante, adepto do sadomasoquismo e protetor de um grupo de jovens discípulos, todos drogados e homossexuais.

Por causa dos preconceitos da época, a posteridade imediata de Foucault se revelou ambivalente. Se sua obra se tornou clássica e passou a ser republicada e estudada em todas as universidades (é hoje o autor mais citado em ciências humanas), sua reputação foi questionada e enxovalhada. A vida sexual de Foucault ainda serve como argumento para desqualificar sua obra. O mais recente é o do peruano Mario Vargas Llosa, Prêmio Nobel de Literatura, que desancou o pensamento de Foucault no seu ensaio "A Civilização do Espetáculo" (2012). "A teoria de Foucault é baseada, entre outras coisas, nas incursões que ele fazia nos clubes e saunas gays de San Francisco", disse-me Llosa em entrevista. "Não é possível dar crédito a esse tipo de transgressão."

Mesmo assim, apesar de detratores proeminentes, a personalidade de Foucault tem sido reabilitada como símbolo da diversidade, da liberdade de pensamento e do combate à Aids e ao preconceito pela doença. A revisão aconteceu por iniciativa de Daniel Defert e de alguns dos rapazes que Foucault acolhia e hospedava no seu apartamento, na rua de Vaugirard, no centro de Paris, e se tornaram posteriormente autores de sucesso, como Hervé Guibert e Mathieu Lindon, e professores influentes. Herdeiro universal do testamento de Foucault num tempo em que a união homossexual não possuía garantias legais, Defert usou parte da herança para fundar, em 1989, em homenagem ao companheiro, a Aides, organização pioneira de proteção aos portadores do vírus da aids e seus parceiros.

Ele ficou com o apartamento da rua de Vaugirard e a guarda do arquivo de Foucault, com a recomendação de que não publicasse obras póstumas. O arquivo compreende 90 caixas com 37 mil folhas. Foi mais fardo que prêmio. Defert teve de vender o seu apartamento para se mudar para o que pertencia a Foucault e se viu atolado em dívidas ao fisco francês. Viu-se obrigado a usar os tesouros proibidos do arquivo. "Foi um dilema para mim", diz. "Mas tomei coragem para publicar as séries de cursos no Collège de France, que Michel ministrou a partir de 1970."

Em 2012, Defert começou a negociar a cessão do arquivo para a Biblioteca Nacional da França, em troca de renúncia fiscal. Os dois textos mais cobiçados do acervo são o manuscrito do quarto e último volume do projeto "A História da Sexualidade", intitulado "Aveux de la chair" (Confissões da carne), que Foucault revisou na cama do hospital, e 29 cadernos de seu diário que cobre quatro décadas de pesquisas. Segundo seu protegido Mathieu Lindon, Foucault não assumiu que tinha aids, até porque não teve tempo para isso. "Foi apanhado de surpresa", afirma. "Mas a aids virou tema central da cultura a partir da repercussão da morte dele."

O drama de seus últimos dias ajuda a compreender o que moveu as suas ideias. No apartamento da rua de Vaugirard, Lindon e amigos adoravam a genenorisade de Foucault - que os deixava usar o apartamento à vontade - e se espantavam como, já cinquentão, era capaz de aguentar sessões contínuas de LSD no "recanto Mahler", um espaço reservado para as viagens lisérgicas, dotado de divãs e toca-discos que tocava sem parar as sinfonias de Gustav Mahler, compositor favorito de Foucault. "Éramos quase meninos e ele nos mantinha à distância das suas práticas sadomasoquistas", afirma. "Dizia que éramos imberbes para frequentar clubes desse tipo. Ele aproveitava os convites de palestras no exterior para frequentar esses clubes." Foi numa dessas viagens, conta Lindon, que Foucault foi contaminado pela aids, numa felação que praticou em uma sauna em San Francisco. "Não sabíamos do risco que corríamos e sou feliz por ter sido um dos poucos de minha geração a ter escapado da aids", diz.

Foucault achava que a promiscuidade sexual era parte da vida. Mas tratava seus pupilos com um jeito paternal, do mesmo modo que Sócrates fazia com seus discípulos. "Ele corrigia nossos textos e dava dicas para falar em público", lembra Lindon. "Mas não gostava que frequentássemos seus cursos abertos no Collège de France. Era bondoso, sorridente e até capaz de dizer tolices."

É curioso como um cidadão de costumes tão aparentemente desregrados tenha sido capaz de escrever obra equilibrada e fundamental. "Michel não sacrificou a vida à obra nem a obra à vida", afirma Lindon. "Ambas avançaram de mãos dadas. Sua vida agitada fazia parte de sua agitação intelectual". Para Lindon, a lição que deixou ao século XIXI vai além da vontade de fornecer rigor às ciências humanas: "Foucault mostrou que a única forma viver bem é viver mudando."

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