Irmão Franciscano Octavio Duran afortunado por ser historiador fotográfico do Beatificado Romero

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27 Março 2018

Arcebispo Óscar Romero posa para uma foto com mulheres e crianças nesta foto sem data em El Salvador. (Foto: CNS/Octavio Duran)

O Irmão Franciscano Octavio Duran gostaria de ter podido agradecer ao arcebispo Óscar Romero antes de o reverenciado clérigo salvadorenho ser baleado e morto em 24 de março de 1980.

Obrigado "por confiar em mim", obrigado "por ter marcado minha vida de forma tão positiva" e obrigado pelo profundo exemplo como "amigo, pastor e profeta".

A reportagem é de Dan Morris-Young, publicada por National Catholic Reporter, 24-03-2018. A tradução é de Luísa Flores Somavilla.

Amplamente conhecido como "fotógrafo extraoficial" de Romero nos últimos dois anos da vida do clérigo, Duran, agora aos 63 anos, era um seminarista de 21 anos em 1977, no seminário de San José de la Montaña da arquidiocese de San Salvador, em El Salvador, quando conheceu Romero, cuja canonização é esperada ainda para este ano ou para o início de 2019.

Duran foi levado a ir para lá "pela situação social e política de El Salvador e o papel da Igreja como salvadora", escreveu num ensaio chamado "Remembering Oscar Romero" (Lembrando Oscar Romero, tradução livre).

"Como seminarista, eu entendia a responsabilidade de pregar uma libertação que confortasse os oprimidos e condenasse o opressor”, escreveu.

Romero fez exatamente isso — destemida e incansavelmente, destacou Duran em uma recente entrevista com o NCR.

"Romero despertou interesse mundial pelo conteúdo de suas homilias, sua vida, sua transformação, seu amor pelos pobres, por ser uma voz aos que não a têm", disse Duran ao NCR.

O arcebispo foi assassinado um dia depois de uma homilia pedindo aos soldados do governo para acabarem com os assassinatos de compatriotas inocentes.

"Nenhum soldado é obrigado a obedecer uma ordem para matar se vai contra a sua consciência", disse ele na homilia, que foi transmitida na radio da arquidiocese.

Através de aparentes coincidências, Duran acabou desempenhando um papel fundamental ao compartilhar a crítica franca de Romero ao aos assassinatos, mutilações, estupros e torturas do regime salvadorenho — e de apoio americano à junta militar. Ele também denunciou atrocidades da guerrilha rebelde.

O diretor da rádio católica de San Salvador tinha ouvido Duran na missa de um velório e convidou o seminarista a trabalhar durante duas horas por noite na estação.

"Um dia, durante uma aula chata de filosofia, recebi uma chamada inesperada" da estação, lembra ele, pedindo que entrevistasse Romero ao vivo no programa semanal.

Seria a primeira de muitas entrevistas como esta e proporcionou a Duran a oportunidade de perguntar se ele poderia acompanhar o arcebispo em algumas viagens pastorais.

"No início, eu usava uma câmera compacta, mas depois me pediram para compartilhar minhas fotos com o jornal arquidiocesano e percebi que precisava de algo melhor", disse.

Romero não apenas concordou, mas disse que daria o equivalente a US$200 a Duran para comprar uma câmera útil para documentar as atividades do prelado.

A Canon AT-1 de 50 milímetros foi usada por Duran para registrar o que agora são fotos históricas do mártir, muitas reunidas na biografia de 2009 de Scott Wright, Oscar Romero and the Communion of Saints (Oscar Romero e a comunhão dos Santos).

Duran temia que a câmera levasse a consequências terríveis quando um contingente de seis pessoas, incluindo ele próprio e Romero, foram procurados e ameaçados no final de 1979 por soldados da junta militar. O grupo de Romero estava a caminho da pequena igreja da comunidade de San José Los Sitios, em Chalatenango, El Salvador, onde o arcebispo celebraria uma missa para marcar o festival do milho.

A câmera de Duran passou despercebida.

"Após longos interrogatórios, continuamos nosso caminho à igreja", escreveu Duran no ensaio.

"As pessoas receberam o arcebispo com alegria, abraços e música. Mas o mal-estar de Romero depois do que tinha acontecido era óbvio. Na igreja, o arcebispo, tremendo e com a voz embargada, pediu que a missa fosse realizada do lado de fora. Ele estava pensando que, se o pior acontecesse, como tiroteios, as pessoas conseguiriam escapar em campo aberto", escreveu.

Arcebispo Óscar Romero retratado dentro da igreja em San Antonio Los Ranchos, em Chalatenango, El Salvador, em 1979. (Foto: CNS/Octavio Duran)

Duran continua: "de repente, ainda na igreja, um menino e uma menina foram até Romero. Ela o abraçou e o menino pegou a cruz que o arcebispo usava em torno do peito. Era como um sinal de que na vida todo mundo precisa de um Simão, o cirineu, que ajudou a carregar a cruz de Jesus, para ajudar a carregar as nossas cruzes".

Duran clicou imediatamente, e a foto icônica circulou globalmente.

Ameaças de morte, assassinatos de padres e funcionários da igreja, atrocidades contra cidadãos inocentes e bombardeios nas instalações da rádio católica "não impediram o Monseñor Romero de anunciar e denunciar", afirmou.

O incidente de Los Sitios, disse ele ao NCR, ilustra como "coragem e [falta de] medo não são a mesma coisa".

"É possível ser corajoso e ainda assim ter medo", acrescentou Duran. "Foi isso que os profetas fizeram."

E Jesus, também, disse, aludindo ao apelo de Cristo a Deus descrito em Lucas 22:42: "Pai, se queres, afasta de mim este cálice; contudo, não seja feita a minha vontade, mas a tua”.

"Não consigo nem imaginar quantas vezes Romero leu essa passagem sem sequer achar que ia passar pelos mesmos medos", disse Duran. "Romero era um ser humano escolhido por Deus para nos mostrar, ainda hoje, que ele fala através de seus profetas".

Romero reconheceu publicamente a probabilidade de seu assassinato, recordou Duran. "Ele só não sabia quando. Sua resposta às ameaças de morte que recebeu foi: 'Se Deus aceita minha vida como sacrifício, meu sangue será uma semente de liberdade.' "

Em certa altura, disse Duran, "ele me contou que seu maior medo era ser torturado".

No entanto, observou Duran, grande parte do tempo que ficavam juntos era dedicado a "discutir coisas mundanas".

"Eu tinha 21 anos, e foi uma relação de seminarista e arcebispo, não de dois amigos da mesma idade", explicou. "Fiz muitas entrevistas com ele na rádio. Falávamos principalmente de coisas relacionadas com a mensagem que ele queria comunicar".

Ele não tem conhecimento da existência de gravações remanescentes dos programas "porque sempre usamos o mesmo rolo".

Nos últimos dois anos de vida do beato arcebispo Óscar Romero, o irmão franciscano Octavio Duran tirou muitas fotografias icônicas do futuro santo, como esta. (Foto: CNS/Octavio Duran) 

Duran é orgulhosamente compartilhado em trechos de e-mails do diário de Romero que mencionam o seminarista, radialista e fotógrafo.

Em um deles, do Natal de 1979, três meses antes de ele ser baleado perto do coração, durante uma missa fúnebre na pequena capela do Hospital da Divina Providência de San Salvador, Romero fala sobre a preparação para "a gravação do programa de amanhã". Ele elogia "Octavio" pela "grande disposição em colaborar com este apostolado".

Duran estava no seminário perto do hospital quando ficou sabendo que Romero havia sido baleado, relatou o jornalista Sam Lucero num artigo de 2015.

"Havíamos recém acabado as orações da noite. O porteiro entrou na capela, falou com um dos sacerdotes e nos deram a notícia de que o arcebispo Romero tinha sido baleado", disse a Lucero. "Não sabíamos se ele tinha sobrevivido, mas ele foi levado para uma clínica privada". O reitor do seminário, hoje cardeal Gregorio Rosa Chavez, chamou Duran em seu escritório. "Ele disse: 'Vamos lá ver o que aconteceu'. Pegamos um táxi e fomos até a clínica. Lembro de ver seu corpo numa maca de metal. ... Fiquei lá até a autópsia ser feita e depois voltamos", disse, numa entrevista em 2015. Duran disse ao NCR que sente que Romero "ficou com seu povo mesmo após a morte" e citou o mártir: "Como pastor, sou obrigado por mandato divino a dar a vida para aqueles que amo, que são todos os salvadorenhos, até mesmo por aqueles que vão me assassinar. Se me matarem, ressuscitarei no povo salvadorenho."

"Sua mensagem continua inspirando não apenas os salvadorenhos, mas todos os tipos de pessoa do mundo todo", disse Duran. "É comovente ver pessoas rezando no seu túmulo, como se ele estivesse vivo e ouvindo seu sofrimento."

"Sua imagem pode ser vista em murais, cartazes, camisetas, bonés, tornando seu rosto icônico conhecido até mesmo para a geração mais jovem de salvadorenhos, que começa a aprender muito cedo o que este homem corajoso defendia", disse. Duran ainda acrescentou que "não é raro ouvir pessoas comuns citando-o em conversas do dia a dia para se posicionar em questões onde a justiça deve prevalecer."

No entanto, disse, "nem todo mundo pensa que a mensagem de Romero é positiva. Ainda há pessoas que pensam que ele dividiu o país e que ele politizou o Evangelho... e o odeiam até hoje".

Em uma visita pastoral, um ministro presbiteriano perguntou a Romero o que ele achava de Duran buscar formação em radiodifusão. Não havia nenhum treinamento formal em radiodifusão em El Salvador naquela época.

“Quando o bispo me perguntou: 'o que acha?', eu não acreditava que ele estava mesmo ponderando sobre isso, e demorei para responder. Mas disse que sim, apesar de não saber as implicações de sua proposta”, disse Duran.

A morte de Romero despedaçou Duran, e seus próprios sonhos esmoreceram, declarou.

No entanto, no velório de Romero, esse mesmo pastor presbiteriano prometeu a Duran que se era a vontade de Romero que Duran fosse para o exterior estudar, isso iria acontecer de uma forma ou de outra.

Em alguns meses, o ministro tinha ajudado a viabilizar e financiar a ida de Duran para o Mexican American Cultural Center, no Texas, onde viveu enquanto frequentava a Universidade de San Antonio. Foi em San Antonio que ele começou sua jornada franciscana com os Franciscans of Holy Name Province, cujo ministério acontece principalmente na costa leste dos Estados Unidos.

Imagem do arcebispo de San Salvador Óscar Romero vista em 2006 na capela do Hospital da Divina Providência em San Salvador. O arcebispo foi baleado por homens não identificados enquanto celebrava a missa na capela no dia 24 de março de 1980. (Foto: CNS/Octavio Duran)

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