Romero, o ''monseñor'' convertido pelo seu povo

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05 Março 2014

"Aquele que se entrega por amor a Cristo ao serviço dos demais, este viverá como o grãozinho de trigo que morre, mas morre aparentemente. Se não morresse, ficaria só. Se dá colheita, é porque morre, se deixa imolar na terra, se desfazer; e é só se desfazendo que produz a colheita."

A reportagem é de Lucia Capuzzi, publicada no jornal Avvenire, 28-02-2014. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Apenas alguns minutos depois, Óscar Arnulfo Romero assinaria essas palavras com o sangue. São as 18h25 do dia 24 de março de 1980. Dom Romero está absorvido na celebração da missa na capela do Hospital da Divina Providência, o Hospitalito.

Talvez não vê o assassino retirar o seu fuzil e mirar no coração. Um único tiro, fulminante, cirúrgico. Quando o arcebispo de San Salvador é internado com urgência, não há nada mais a fazer. Porém, a história de Dom Romero não termina nesse dia. Muito pelo contrário.

A quase 34 anos do bárbaro assassinato, esse pastor profundamente encarnado na história do seu povo continuou falando, sacudindo, interrogando as consciências dos cristãos e não cristãos, muito além das fronteiras nacionais.

De fato, o apelo profético do Monseñor – como os fiéis o chamavam – é de uma atualidade desconcertante. Porque – como escreve o teólogo canadense Yves Carrier – "refere-se à conexão entre as dimensões materiais e espirituais, das virtudes, dos valores, dos ideais, com o modo de realização concreto, representado pela economia, pela política, pelo ambiente, pelo ensino e pela cultura, postos a serviço de um mundo para amar e preservar, para humanizar e transformar".

O livro de Carrier, porém, não quer ser uma biografia de um dos rostos mais famosos da Igreja latino-americana. O livro se propõe como o relato da pastoral de esperança inaugurada pelo arcebispo justamente em um dos momentos mais trágicos da história do país. Às vésperas da feroz guerra civil – da qual ele intui claramente os presságios –, Romero descobre nos ensinamentos do Concílio e das conferências dos episcopado latino-americano de Medellín e Puebla o "farol" que ilumina a tragédia do seu "povo crucificado".

A miséria devastadora, a injustiça erguida como sistema, a repressão brutal – com a qual ele se familiarizou na experiência de pastor em Santiago de María – interrogam profundamente esse homem tímido, rigoroso, desconfiado de possíveis "avanços" eclesiais.

O Monseñor se deixa pôr em discussão pela história, sem renunciar a perceber nela o rosto de Cristo. De fato, precisamente a Populorum progressio e principalmente a Evangelii nuntiandi de Paulo VI lhe revelam os delineamentos de Jesus no rosto desfigurado da sua gente.

Um caminho espiritual intenso, às vezes conturbado. Que converterá Romero, nos anos à frente da arquidiocese (1977-1980), na testemunha incansável da "Boa Notícia" ao El Salvador sofredor. É unicamente essa a raiz da sua opção pelos pobres. Da indignação constante com a injustiça. Da condenação de toda a violência, "a da estrutura socioeconômica, a repressão sangrenta dos esquadrões da morte, assim como dos excessos de alguns grupos revolucionários", afirma Carrier.

O Monseñor sabe que está arriscando a sua vida: como destaca um dos seus biógrafos italiano, Alberto Vitali, ele será o segundo arcebispo depois de Thomas Becket ser assassinado no altar. Mas não pode se calar. O amor evangélico – nunca o ódio nem a luta de classes – o leva à reivindicação corajosa de direitos, de democracia e de cidadania para todos, pressupostos essenciais para uma paz duradoura. Uma paz ameaçada, então como hoje (e não apenas em El Salvador), pela idolatria do dinheiro. Por isso, Óscar Romero continua sendo "como um farol na consciência universal, um apóstolo da não violência, um profeta dos tempos modernos".

 

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