Qual é o significado da renúncia de Viganò. A opinião de Luigi Accattoli

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23 Março 2018

O episódio da renúncia do prefeito da Secretaria da comunicação da Santa Sé, Dario Edoardo Viganò, agitou as águas da Cúria romana, lançando uma luz sobre aqueles que são os humores e tensões internos. Especialmente contra aqueles que, examinando escrupulosamente a continuidade pastoral e magisterial entre os dois pontífices, e que em consequência se reflete no modo em que se manifesta a unidade de toda a Igreja, nunca perdem uma oportunidade para lançar acusações, reivindicações, ou sugerir a existência de censuras ou abusos de poder. Mas, em cinco anos de pontificado, continua sendo "o primeiro incidente", então o balanço é positivo, e inclusive por isso o papa Francisco "não vai mudar de tom", afirma o decano dos especialistas italianos em Vaticano, Luigi Accattoli, escritor e colunista há muitos anos do Corriere della Sera . O "passo para trás" de Viganò já é "uma admissão de responsabilidade", apesar dos "erros" cometidos, principalmente, "três", explicou Accattoli durante sua conversa com Formiche.net. Mas a reforma "vai continuar" com a mesma "impostação" anterior, à espera do perfil de seu sucessor.

A entrevista é de Francesco Gnagni Porpora, publicada por Formiche, 23-03-2018. A tradução é de Luisa Rabolini.


Eis a entrevista.

Todo esse episódio, o que significa em relações as movimentações no Vaticano?

É o primeiro incidente deste período marcado por dois papas, e ocorreu entre o papa emérito e a Cúria do Papa Francisco, não entre os dois papas diretamente. Porém é um acidente real. Poder-se-ia ficar assustados, ou dizer que é apenas um acidente em cinco anos, e, que no final correu tudo bem. Porque a situação da presença dos dois papas é um evento extraordinário e sem precedentes na Igreja nos últimos séculos, e, portanto, não se sabe muito bem como conciliar tal convivência. Até agora as coisas têm funcionado de forma positiva, dada a boa harmonia entre os dois, e em virtude de certo protagonismo do papa emérito, que não era óbvio que existisse: imaginava-se que teria permanecido em silêncio, mas, ao contrário, manifestou-se muitas vezes, inclusive com um livro entrevista. No atual caso, no entanto, ele não quer falar, porque a carta era privada e pessoal, mas ainda assim foi decidido publicar uma parte. A partir daí os erros que levaram ao incidente, que no momento foi atenuado pela decisão de Viganò. Então eu acredito que a situação possa continuar em um clima de paz, embora seja cedo, só um dia após a demissão e quatro a partir da publicação do texto da carta de Bento.

Foi correto Viganò renunciar ou, como Massimo Franco sugere no Corriere della Sera, por exemplo, ele deveria ter apresentado uma admissão de responsabilidade?

Eu não concordo com essa crítica. O passo para trás é uma admissão de responsabilidade e objetivamente é um pedido de desculpas. Eu não vejo por que ele deveria entrar em explícitas prostrações ou argumentações de pecado. A situação já é complicada, devido a uma cadeia de eventos que fugiu do controle de Viganò, e talvez nunca tenha sido totalmente controlada. Também porque ignoramos muitas circunstâncias da iniciativa, desde o pedido de um texto ao papa emérito até a sucessiva gestão. Então não seria prudente que ele falasse mais, já há tantos imprevistos, e se o fizesse, seria um novo agravamento do quadro.

Voltando ao tema da unidade na Igreja, e da continuidade entre os dois pontífices, como esse evento pode afetar? Não altera de forma alguma, ou evidencia um clima de ressentimento interno?

Acredito que não, sempre considerando que ainda é cedo e que muitas coisas que nos escapam, que os dois papas não estejam pessoalmente envolvido. O Papa Francisco não vai mudar de tom, continuará a convidar o papa emérito a expressar-se, agir e falar, e vai continuar a visitá-lo. Enquanto o papa emérito continuar a manter a sua atitude de apoio e obediência, ou como ele mesmo definiu, de acompanhamento na oração, mas também de apoio com as palavras, como já aconteceu várias vezes. Tudo isso vai continuar. Já temos quatro casos, três mais este da carta, em que as palavras do Papa emérito deram suporte objetivo do papa reinante. O mais importante foi o livro-entrevista com Peter Seewald "Conversas finais", publicado pela Rizzoli, em setembro de 2016, onde aparece que Ratzinger está contente, aliás, feliz, com a escolha do sucessor, por sua personalidade, e louva a sua coragem ao enfrentar os problemas e encontrar soluções, especificamente, e mostrando entender bem o caráter de Francisco, que enfrenta os problemas abertos, as grandes questões como a crise da família, o afastamento dos jovens, e agora aguardamos o Sínodo sobre a juventude. Isso tudo, Ratzinger aprecia. Depois, em duas outras ocasiões menores, houve outros textos também de apoio, por ocasião dos sessenta e cinco anos de sacerdócio de Ratzinger, teve uma cerimônia em que ele falou com carinho e desejou sucesso ao papa Francisco, para continuar em frente com sua visão, e agradecendo-o pelo tratamento pessoal que recebia. E novamente em outra ocasião, com um relatório enviado para uma conferência teológica, no qual ele elogiava o compromisso do Papa Francisco no tema da misericórdia. Eu acredito que tudo isso indique que a "continuidade interior", como é chamada por Bento na carta a Viganò, continuará, e que tudo isso não será perturbado por esse incidente, que espero, suponho, pode ser contido.

Portanto equivoca-se quem tenta usar esse caso para jogá-lo de um lado ou de outro, ou seja, quem afirma que houve um desejo de censurar Bento ou quem, ao contrário, declara que Francisco esteja sendo atacado gratuitamente?

Eu prefiro me ater aos fatos, às palavras claras, não gosto de especular sobre motivos ocultos e interpretações subjetivas. Em minha opinião o acidente foi causado por três erros, dada a complexidade da situação, com erros significativos embora certamente feitos com boa intenção, como em geral acontece, e o caráter forte da personalidade de Viganò, que é um homem muito decidido, determinado, que facilmente se envolve em iniciativas. O primeiro é ter envolvido nos onze volumes um teólogo com uma história de conflito com o papa emérito: chamar em apoio ao Papa Francisco um homem que foi adversário do papa emérito certamente não foi uma boa ideia. Provavelmente não foi uma decisão de Viganò, foi uma escolha dos responsáveis pela publicação, mas certamente foi um erro.

O segundo foi publicar uma parte da carta de Bento que mostrava apoio a Francisco, e esta era obviamente uma boa intenção, mas era apenas uma parte da carta, e isso não foi certo nem apropriado.

E, finalmente, o terceiro erro, foi esperar por quatro dias para publicar o texto integral da carta de Bento. Embora isso certamente também foi involuntário, no sentido de que uma vez que a carta não era pública a intenção era proteger Ratzinger e não causar mais prejuízos para o Papa emérito. Mas, objetivamente, existindo a suspeita em todos meios de comunicação de que a carta não havia sido publicada na íntegra, tal atraso na publicação foi o terceiro erro.

Qual é o futuro da reforma das comunicações do Vaticano, como vai continuar e qual será o futuro da secretaria?

Suponho que, sempre considerando que a situação ainda está se assentando e ainda não temos uma posição definitiva, que continuará de acordo com a impostação definida pelo Papa e que foi implementada e colocada em obras por Viganò. Isso nos leva também ao fato de que Viganò não vai sair de cena, mas vai para uma função subsidiária ao novo presidente, quando será nomeado, como ajuda e como uma contribuição "humana e profissional", como afirma a carta do Papa, nesse papel de assessor.

Talvez apenas uma vez nomeado o novo prefeito poderemos perceber que destino terá a instituição, porque é difícil imaginar como será implementada uma reforma tão complexa, com dezenas ambientes de informação reunidos sob uma única responsabilidades de gestão e de endereço. Tudo isso é extremamente complicado e Viganò estava indo bem, realizando esse objetivo que lhe foi dado pelo Papa. O fato de que ele permaneça na equipe que deve executar a reforma sugere que tudo vai continuar. Se, no entanto, o sucessor será uma figura forte, entendemos melhor a direção. Caso contrário, teremos de fazer um balanço.

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