O primeiro dualismo entre os pontífices: o feitiço se quebrou. Artigo de Massimo Franco

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23 Março 2018

A semana que devia marcar a apoteose do quinquênio de Francisco está marcando uma das crises internas mais agudas de seu papado. E explode justamente no coração da Casa Santa Marta, o hotel onde ele mora dentro da Cidade do Vaticano: naquele círculo muito restrito de colaboradores que moldaram seu perfil e sua grande popularidade.

O comentário é de Massimo Franco, publicado no jornal Corriere della Sera, 22-03-2018. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Em poucos dias, rachou a convivência harmoniosa que o atual pontífice e seu antecessor conseguiram estabelecer; e precisamente sobre o tema da doutrina, um dos mais delicados. Sem que nem Jorge Mario Bergoglio nem Joseph Ratzinger quisessem, viram-se no centro de tamanha confusão que os fez parecer distantes, sinalizando divergências que nunca haviam emergido antes. Não só isso. O modo desajeitado com o qual foi usada a carta de apoio de Bento XVI a Francisco sobre uma coleção de escritos teológicos corre o risco de despedaçar a credibilidade de toda a máquina comunicativa do Vaticano.

Os dois papas

Por um longo período, parecia que não existiam “dois papas”. Milagrosamente, é preciso dizer, nenhum dualismo nem divergência haviam aflorado: como se cada um deles soubesse como era importante a projeção de uma Igreja unida; ainda mais após a renúncia traumática de Ratzinger em fevereiro de 2013, a primeira depois de 700 anos.

Embora ultimamente parecesse menos óbvia, a ideia de uma continuidade entre os dois pontificados sobrevivia como uma espécie de “verdade vaticana” a ser protegida e difundida a fim de tranquilizar o mundo católico. Mesmo quando era usado pelos ambientes mais conservadores e hostis a Francisco, Bento se limitou a renovar sua lealdade e obediência ao sucessor.

Essa narrativa, agora, promete ter que ser recalibrada. Bento XVI falou de “tolo preconceito” daqueles que atacam Francisco teologicamente; e de “continuidade interior”, expressão tão sutil a ponto de soar levemente enigmática, entre ele e Bergoglio. Mas as desconcertantes omissões sobre as críticas de Ratzinger à operação editorial, a divulgação em etapas de sua carta, e apenas sob a pressão de uma crescente confusão, presentearam suspeitas de manipulação, senão de censura.

A tentativa de sustentar os elogios de uma série de teólogos em relação a Francisco com o imprimatur do “teólogo máximo” Bento XVI se transformou em um doloroso gol contra: até porque, no fim, descobriu-se que, entre os “louvadores”, figuram alguns estudiosos reconhecidos por Ratzinger como detratores obstinados tanto do papado de João Paulo II, quanto do seu.

A renúncia atípica

O caso, ao menos por enquanto, conclui-se com uma carta de renúncia formal muito atípica do Mons. Dario Viganò, o homem da comunicação de Francisco. Trata-se de um gesto apreciável na sua inevitabilidade, mas que pode suscitar outras perplexidades.

A atipicidade reside no fato de que Viganò, na sua missiva a Francisco, não reconhece os erros cometidos. Não há uma única referência ao uso homeopático e dirigido das palavras de Bento. Fala-se apenas das “muitas polêmicas acerca da minha atuação”. O prefeito motiva a vontade de “colocar-me à parte” com a exigência de não “desestabilizar” as reformas da comunicação que lhe foram confiadas por Francisco em 2015. Ele dá um passo atrás para “aprender a renascer do alto”, escreve, citando os textos sagrados, e para não oferecer pretextos aos inimigos.

É uma versão que encobre qualquer responsabilidade. Mas o problema agora vai além de sua pessoa. O que chama a atenção é a resposta de Francisco, da qual se deduz uma certa resistência em aceitar a renúncia. O papa gasta muitos elogios sobre a “humildade e o profundo sensus ecclesiae”, o “espírito de serviço” do monsenhor, a ponto de tornar tudo um pouco singular: até porque são atribuídos a Viganò um estilo decisionista e modos apressados.

O simples fato de, ao acolher “não sem alguma fadiga” a renúncia, criar para o “reverendíssimo monsenhor” um novo cargo, o de “assessor”, e pedir-lhe para continuar à espera do novo prefeito, agrava a confusão.

“Amoveautur ut conservatur”

Até mesmo no círculo bergogliano, percebe-se a perplexidade. “Este não é um caso de promoveatur ut amoveatur. Estamos no amoveatur ut conservatur”, afirma um cardeal. Isto é: Viganò foi removido para que continue mais ou menos como antes; ou, de todos os modos, para que essa seja a mensagem dentro dos Sagrados Muros.

Oficialmente, por enquanto, seu posto será assumido pelo atual secretário do dicastério, o argentino Lucio Adrián Ruiz. Mas o procedimento confirma a determinação com que o papa defende as escolhas feitas e seus colaboradores: até mesmo quando provocam reações controversas e fariam crer em uma revisão.

O caso, no entanto, não parece estar arquivado. Há quem sublinhe polemicamente a rapidez com que foram bombardeados os reformadores designados por Francisco, como o supervisor das contas, Libero Milone, ou o vice-diretor do IOR, Giulio Mattietti. E ela é contraposta à defesa do prefeito para a comunicação: argumentos que os adversários usam para dar crédito ao afã e às contradições do papado.

Certamente, a ideia de que a gestão da carta de Bento XVI possa ser usada para dar crédito a um complô contra as reformas gera perplexidade; mas pode favorecê-lo. E, no pano de fundo do que aconteceu, dá o que pensar também o congresso organizado no fim de janeiro no Vaticano contra as informações manipuladas e as fake news. Sem saber, o Vaticano levantava um problema que, em alguma medida, está se revelando também como seu. E repropõe, de modo imprevisto, pela primeira vez, a questão dos “dois papas”.

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