As tensões entre reformar a Igreja e defender uma pauta

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20 Março 2018

“O tipo de sinodalidade que Francisco está tentando inculcar na Igreja não é somente um esforço para tornar a Igreja não monárquica e mais colegiada. . É também uma sinodalidade que garante que “grupos restritos de poder” estejam proibidos de administrar a Igreja”, escreve Massimo Faggioli, historiador italiano e professor da Villanova University, nos Estados Unidos, publicado por La Croix International, 19-03-2018. A tradução é de Isaque Gomes Correa.

Segundo ele, “trata-se de um antídoto aos que pensam que reformar a Igreja requer um grupo bem-financiado com fundos abundantes para viagens, conexões com os poderosos e habilidades comunicacionais eficientes”.


Eis o artigo.

A Igreja Católica não parece muito capaz de gerir as expectativas de reforma. O antigo lema ecclesia semper reformanda (“a Igreja está sempre na necessidade de se reformar”) assumiu um significado ligeiramente novo nos nossos dias, onde os líderes são mensurados mais pela capacidade de reformar do que de governar. E isso contrasta com uma teologia genuína de reforma. [1]

Portanto, não é surpresa que grande parte das análises que marcaram o quinto aniversário da eleição do Papa Francisco tenham se focado sobre as suas reformas. Alguns formadores de opinião manifestaram uma decepção pelo fracasso deste pontificado em produzir um certo número de reformas, tais como a da Cúria Romana (o teste mais árduo para todos os papas desde 1588, quando se criou a Cúria Romana “moderna”) ou como o de concertar o papel da mulher na Igreja. Mas a essa altura já deveria estar claro que, para um teólogo e clérigo como Francisco, reformar a Igreja significa algo muito mais profundo. Vai muito além da simples “reforma institucional” [2] e centra-se mais na mudança de mentalidade e de hábito.

Na tradição da Igreja, as reformas foram impulsionadas mais pela necessidade urgente de corrigir desvios graves (por exemplo, a simonia ou a corrupção) ou de responder a novas ameaças que desafiavam a Igreja (como o desafio à autoridade papal pelo Sacro Império Romano). Ideias e projetos de reforma advêm mais de certas experiências como estas dentro da Igreja e menos dos círculos de reformadores profissionais.

Um dos defensores mais importantes das reformas na Igreja durante a Idade Média foi um monge chamado São Pedro Damião (1007-1072). Pedro Damião era um crítico implacável da corrupção entre o clero. Porém, suas propostas de reforma foram contrárias ao radicalismo populista, que, numa época de profunda e pública imoralidade clerical (papas inclusos), tenderam entregar todas as coisas da Igreja a um papado limpo. Isto levou a uma Igreja mais clerical, o que frequentemente acontece com as reformas impulsionadas por tal radicalismo.

Essa história se deu na Idade Média. Há novos problemas a desafiar as reformas da Igreja hoje. Uma das principais transformações que vimos nos últimos anos – não só na política, mas também na Igreja – é a influência cada vez maior de grupos de defesa, lobbies e think tanks (círculos de reflexão, laboratórios de ideias; instituições que se dedicam a produzir e difundir informações sobre temas específicos). Podemos nos perguntar se, para reformar a Igreja, é mais eficiente ensinar e escrever teologia ou criar/juntar-se a um think tank, ou ainda tornar-se um angariador de fundos para um grupo de defesa. Pelo menos no curto prazo, o trabalho intelectual parece menos eficiente. Temos aqui um produto das transformações profundas que ocorreram na política do conhecimento de hoje.

Por um lado, os think tanks tentam dar credenciais acadêmicas a ideologias já que pautas políticas devem se basear em dados e pesquisas, bem como devem parecer ser acadêmicas, científicas e objetivas. Por outro lado, a academia vem sendo cada vez mais cooptada por ideologias (seja direita e esquerda, seja progressista e conservador) desde que o engajamento em temas sociais deixou a teologia mais e mais exposta à política.

Think tanks e grupos de defesa são uma expressão desta mudança na política do conhecimento, e a Igreja Católica não está isenta. O trajeto da academia ao think tank faz também parte do pensamento católico [2] de hoje. Essa mudança na relação entre conhecimento e poder está evidente até mesmo no Vaticano. Em 2010, Mary Ann Glendon (professora de direito da Universidade de Harvard e ex-embaixadora dos EUA para a Santa Sé) descreveu a Pontifícia Academia de Ciências Sociais, criada por João Paulo II em 1991, como “uma espécie de think tank”.

Aproximar um think tank com o poder papal soa grandioso e imponente. Mas, paradoxalmente, um think tank pontifício é menos influente do que outros think tanks católicos, porque sobre certos temas (por exemplo, o meio ambiente) os documentos papais atraem menos atenção do que a atenção que o dinheiro pode comprar.

Assim, o dinheiro se torna um dos fatores de distorção na relação entre as pautas reformistas encabeçadas por think tanks e a Igreja. Algumas causas para a reforma eclesial podem contar com apoio financeiro, outras não. E isso não é inteiramente novidade numa Igreja onde o dinheiro certa vez comprava ofícios eclesiásticos (simonia). E os intelectuais católicos sempre contaram com a patronagem dos que detêm os recursos. Mas embora o dinheiro não pode mais comprar um ofício eclesial como antes, ele pode – infelizmente – ainda comprar acesso e influência. A principal diferença é que o poder clerical numa Igreja forte de então dependia menos do consenso e do apoio externo do que a Igreja de hoje.

Apoiados em grandes quantias de dinheiro, grupos de interesse especiais, redes informais e atores invisíveis estão, hoje, penetrando nas – e influenciando cada vez mais as – instituições, inclusive a Igreja. O destaque de Francisco para a sinodalidade revela que ele têm ciência disso. No discurso mais importante que algum papa já proferiu sobre a noção de sinodalidade, Francisco disse, em 17-10-2015:

“O nosso olhar estende-se também para a humanidade. Uma Igreja sinodal é como estandarte erguido entre as nações (cf. Is 11,12) num mundo que, apesar de invocar participação, solidariedade e transparência na administração dos assuntos públicos, frequentemente entrega o destino de populações inteiras nas mãos gananciosas de grupos restritos de poder".

“Como Igreja que ‘caminha junta’ com os homens, compartilhando as dificuldades da história, cultivamos o sonho de que a redescoberta da dignidade inviolável dos povos e da função de serviço da autoridade poderá ajudar também a sociedade civil a edificar-se na justiça e na fraternidade, gerando um mundo mais belo e mais digno do homem para as gerações que hão-de vir depois de nós.”

O tipo de sinodalidade que Francisco está tentando inculcar na Igreja não é somente um tipo que se esforça para tornar a Igreja não monárquica e mais colegiada. É também uma sinodalidade que garante que “grupos restritos de poder” estejam proibidos de administrar a Igreja. Trata-se de um antídoto aos que pensam que reformar a Igreja requer um grupo bem-financiado com fundos abundantes para viagens, conexões com os poderosos e habilidades comunicacionais eficientes.

Esse fenômeno é complicado porque não é encontrado somente num extremo do espectro ideológico. Embora esteja mais visível no lado conservador, onde muito dinheiro está mais facilmente disponível do que para causas progressistas, ambos os lados se tornaram parte, muito embora de diferentes modos, deste mecanismo.

Think tanks e grupos de defesa católicos na extremidade progressista do espectro trabalham em temas como a igualdade de gênero, ética sexual, processos decisórios com a presença de leigos, justiça econômica e social. Aqueles da extremidade conservadora, que geralmente possuem mais aporte financeiro, centram-se em temas como a liberdade econômica, o planejamento familiar natural e em pautas anti-LGBTs. Grupos conservadores, especialmente, pouco fazem para assumir a causa dos que carecem de dinheiro e poder – ou seja, dos pobres. Este trabalho dentro da Igreja deveria dar voz aos que não a têm, e não aos que já desfrutam de riqueza e influência.

Por isso é que é difícil percebermos uma equivalência moral entre um grupo como o Acton Institute, que defende uma ideologia de livre mercado, e a Pontifícia Academia de Ciências Sociais. Não obstante, a relação entre dinheiro e ideias na Igreja merece atenção independentemente do tema em particular defendido.

Fazer avançar temas importantes na Igreja global não pode, com certeza, esperar pelo ritmo lento da instituição em agir, e isso requer organização, o que significa dinheiro. Think tanks contam com doadores individuais e corporativos, não com a contribuição dos fiéis comuns dos bancos das igrejas. Isso pode influir no grau de liberdade intelectual e espiritual dentro de cada grupo de defesa e aos quais – ou ao que – a instituição se sente em dívida.

Isso tudo significa que reformar a Igreja ficou mais complicado na modernidade. Na época de São Pedro Damião, a reforma eclesial fazia parte da tensão fundamental entre a Igreja e o império (ou poder político reinante). Hoje, ela deve também levar em conta outros atores e os seus papéis na Igreja: a influência dos meios de comunicação de massa na instituição e na cultura; o futuro incerto da cultura democrática e o que isso significa para uma Igreja que historicamente se modelou por uma mentalidade monárquica; e a invisibilidade e a falta de responsabilização das novas formas de poder.

A reforma da Igreja também necessita de grupos que a defendam, mas deve haver também uma consciência teológica da tensão existente entre a eclesiologia católica e a visão de Igreja expressa pelos think tanks e grupos de interesses especiais. Há uma incompatibilidade entre a eclesiologia da Igreja como povo e a natureza própria dos think tanks, que não nasceram para se comunicar com o público geral e as pessoas que compõem a Igreja, nem para tornar as suas atividades conhecidas entre os leigos e leigas.

Parte da solução para essa situação é uma Igreja sinodal. A sinodalidade pode criar um fórum para as muitas vozes da Igreja e pode promover uma representação precisa de seus membros.

As reformas da Igreja igualmente precisam de seus “profetas”. Porém, para uma reforma eclesial autêntica, os profetas da mudança precisam estar em comunhão com a Igreja. Isso não quer dizer ser servil ou mecânico. Mas também não significa agir como pesquisadores independentes ou buscar realizar as questões próprias dos think tanks ou grupos de defesa. No final, sempre haverá uma tensão entre a Igreja da pauta e a ecclesia semper reformanda.

Notas:

[1] Conferir o artigo “When ‘Reform’ Means a Process of Elimination” publicado no New York Times.

[2] Conferir o artigo “A different ‘reform of the reform’: Pope Francis and the Roman Curia” publicado por La Croix International.

[3] Conferir o artigo “From Academia to a Think Tank: Reflections on How to Be Lucky” publicado por Heritage.

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