Cristãos asiáticos podem salvar o Cristianismo da Cristandade

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20 Março 2018

Na primeira parte da série, o padre William Grimm, MM, explica como, apesar do que é, a Cristandade tem sido um instrumento de transmissão do Evangelho, não só na Europa, mas em todo o mundo.

O artigo, primeira parte, é publicado por La Croix International, 19-03-2018. A tradução é de Luísa Flores Somavilla.

Padre William Grimm, MM, é editor do ucanews.com e mora em Tóquio.

Eis o artigo.

Eu tinha 16 anos quando um professor pediu para a turma ler obras que não estavam no currículo do ensino médio. Entre elas estavam Confissões de Santo Agostinho e A Canção de Rolando, um poema épico francês anônimo do século XI, ou antes.

A famosa frase de Santo Agostinho, "Senhor, Tu nos criaste para Ti e o nosso coração estará para sempre inquieto, até que venhamos a descansar em Ti" estava em destaque na página. Eu não sabia que era famosa, só sabia que tinha gostado. Afinal, "coração inquieto" pode ser uma definição de adolescência, e essas frases ajudaram a traçar uma direção esperançosa para a minha vida.

A Canção de Rolando fala de cristãos na época de Carlos Magno (742-814), em guerra com os muçulmanos na Espanha (chamados, na tradução que li para o inglês, "paynims", uma palavra arcaica para pagãos e muçulmanos). Os cavaleiros de Carlos Magno derrotam seus inimigos, tomam conta da cidade, e "Então, para a fonte o povo pagão se dirigiu” (depois de mais de meio século, ainda me lembro dessa frase!). Qualquer um que se recusasse a ser batizado era morto à espada ou fogo.

Nosso professor não colocou Santo Agostinho ao lado de Rolando, mas como o único cristão da turma, fiquei atraído por ambos, como se de alguma forma se relacionassem comigo. Quando olhei aos dois juntos, percebi que tinha acontecido algo errado, muito errado, entre o século IV e a Idade Média. O cristianismo tinha se transformou em Cristandade.

Em vez de ser um caminho para o coração descansar em Deus, a Igreja tornou-se poder institucionalizado, opressão, medo e privilégio, exigindo a submissão, e não a fé. Com outra criança, talvez, essa conclusão seria suficiente para começar a se afastar da Igreja. Mas eu tinha a palavra de Santo Agostinho de que havia algo maior na fé. Havia repouso no coração.

No entanto, eu não podia ignorar a mensagem da Canção. Afinal, a atitude e a prática que o livro louvava eram reais. Na verdade, embora o poema seja ficção com alguns toques de realidade, os esforços de Carlos Magno para conquistar a Europa norte e central incluíram oferecer ao povo saxão, por exemplo, a escolha que o poema apresenta: batismo ou morte.

Ironicamente, anos depois, como estudei história da Igreja, descobri que o próprio Santo Agostinho foi um dos pais da Cristandade. Em suas disputas por heresia no norte da África, ele acabou utilizando o poder do Império Romano para coagir seus oponentes a retomar a comunhão com a Igreja Católica. Felizmente, até aprender isso, já sabia tanto sobre hipocrisia em todos nós, inclusive em mim, que a sabedoria de Agostinho não foi substituída, como provavelmente aconteceria se tivesse lido quando ainda era um adolescente idealisticamente intolerante.

Desde que tomei consciência da mudança para a Cristandade, fiquei hipersensível às suas manifestações na vida da comunidade cristã que continuam até hoje. Não há escapatória. Tornar a Igreja mais importante do que Cristo e sua palavra, a obsessão pelo poder sobre os indivíduos e as comunidades, o desconsideração dos direitos humanos, a disposição a sacrificar as pessoas para o bem da organização ou de abstrair ideias ou regras, um sistema de castas que faz distinções entre os filhos de Deus com base em seu papel na Igreja — são as principais características da Cristandade.

É preciso cuidado para ver onde as gavinhas da Cristandade ameaçam minha própria fé, e não ceder ou se deixar levar requer uma batalha constante.

Certamente, mesmo no auge do poder da Cristandade, o povo de Deus produziu grandes santos e profundas orações e pensamentos. Muitas vezes, porém, os santos foram homens e mulheres que confrontaram a Cristandade em nome do Evangelho. E apesar do que é, a Cristandade tem sido um instrumento de transmissão do Evangelho, não só na Europa, mas em todo o mundo.

No entanto, isso não esconde seu fracasso abjeto - nem pode.

O clericalismo que infecta a Igreja é fruto da Cristandade. Uma vez, numa conferência do Vaticano, primeiro fiquei surpreso, depois achei engraçado e por último senti nojo quando passei por um guarda suíço e ele entrou em posição de sentido para me cumprimentar porque o clero é considerado oficial no exército da Cristandade. Culturistas clericais são os clérigos e leigos que acreditam e agem de acordo com isso.

A crise dos bispos que ignoraram ou encobriram casos de abuso de crianças por padres doentes para proteger o poder, as finanças e a imagem da instituição não é o pior fracasso da Cristandade.

O pior fracasso é certamente o holocausto. Mais de um milênio de Cristandade na Europa não impossibilitou tal horror. Na verdade, o nazismo cresceu do território do frequente consentimento da Cristandade e até mesmo apoio ao antissemitismo. E, ironicamente, cresceu em uma área em que a Cristandade surgiu em partes através de Carlos Magno.

Em 1943, o bispo de Berlim se aproximou do núncio apostólico do Vaticano na Alemanha para pedir ajuda para se opor ao programa de extermínio nazista. A resposta do núncio foi: "é bom amar ao próximo, mas o maior amor cortês consiste em evitar quaisquer dificuldades à Igreja".

Já passou da hora de a Igreja cortar esse crescimento canceroso que interfere no Evangelho como descanso ao coração do mundo. O foco da Igreja deve ser Deus, não ela própria.

(continua)

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