Os jovens não são o problema

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19 Março 2018

“O medo não funciona mais para encher os bancos das igrejas ou manter as pessoas em conformidade. O Povo de Deus busca inspiração. Os jovens – todos nós, na verdade – buscam autenticidade. Exemplos de pessoas que vivem conforme o Evangelho são mais convincentes do que horas de apologética e apresentações brilhantes em altares”, afirma o editorial do National Catholic Reporter, 16-03-2018. A tradução é de Isaque Gomes Correa.


Eis o editorial.

Se o recente congresso realizado na Universidade de Notre Dame, nos EUA, em que os palestrantes postularam as razões para a dissociação dos jovens com a Igreja Católica, representar a abordagem a ser usada no próximo Sínodo dos Bispos sobre a juventude, melhor seria pedirmos aos bispos para aditar o evento.

O que ouvimos no citado evento acadêmico foi uma litania conhecida, que pôs a culpa pela perda dos jovens:

• na tecnologia – especificamente na obsessão dos jovens com os smartfones – que, supostamente, lhes tira o espírito contemplativo e os torna “medíocres por tanta irrelevância”

• numa aversão à “ortodoxia”, termo que o palestrante proferiu com a certeza de que a sua linha de ortodoxia é a versão imutável da verdade

• no “nivelamento por baixo da nossa fé”

• na perversidade da pornografia e do relativismo, evidentemente

• e num novo perigo: a “tolerância branda” da diversidade, um acréscimo curioso.

De acordo com essa análise, são os jovens, e não a Igreja, quem está em crise. Pela análise feita, a mesma instituição que os jovens consideram tão insuficiente a ponto de não terem nada a ver com ela conhece, não obstante, todas as perguntas e tem todas as respostas. Essa análise imagina um “momento kairós” quando, de repente, os jovens poderão ver as coisas com clareza sublime, deixando de contemplar as telas dos dispositivos eletrônicos, inclusive as que exibem cenas pornográficas, quando então estarão cientes de suas deficiências e do estado de suas próprias crises.

Que avaliação autossatisfatória. E que alívio. Não são os jovens que sentem uma repulsão pela forma como os líderes eclesiásticos lidam com a crise de abuso há décadas. Não são os escândalos financeiros ou a insensibilidade para com os católicos gays e lésbicas, tampouco a política de certos bispos que reduziu a religião e a fé a um mero embate em guerras culturais.

Não, dizem eles, o problema reside nos jovens que adquiriram defeitos influenciados pela cultura.

A crítica cultural tem valor, é claro, e o descontentamento dos jovens para com todo o tipo de envolvimento institucional – desde a orquestra sinfônica local até o Rotary Clube – precisa de um exame continuado para se descobrir como as instituições podem ser relevantes aos jovens.

Embora a diminuição no número de católicos deve-se, sem dúvida, a estas forças sociais, há muito mais a se considerar no caso da Igreja. Antes de nos convencermos de que a razão para esse descontentamento está em tudo e em todos, os líderes eclesiásticos precisam seriamente examinar como as suas próprias falhas têm contribuído para que os jovens deixem a Igreja.

É compreensível que adolescentes e jovens adultos, vivendo numa cultura civil que cada vez mais aceita os seus amigos e membros familiares LGBTs, achem inaceitável a intolerância e discriminação declarada de algumas autoridades e organizações católicas.

É compreensível que o jovem prefira não fazer parte de uma instituição que prega a misericórdia divina, mas mostra pouca misericórdia para com os pais divorciados e recasados.

Os jovens, especialmente as jovens, que sabem o quanto as suas mães e avós lutaram para conquistar a igualdade na cultura mais ampla, não se importam em se envolver com uma instituição onde as mulheres são marginalizadas. O que eles podem pensar de uma instituição que proíbe as mulheres em seus organismos deliberativos mais importantes, enquanto as mulheres ocupam a grande maioria de cargos ministeriais nas paróquias e dioceses?

Deve nos surpreender que as jovens possam evitar uma instituição onde somente homens são ordenados para presidir os momentos mais profundos da comunidade?

Também é razoável, falando em vocações para o sacerdócio, que os pais hesitem em incentivar os filhos a se juntar à cultura clerical que tem se esgotado não só em números, mas também em credibilidade e exemplo moral?

O medo não funciona mais para encher os bancos das igrejas ou manter as pessoas em conformidade

O Povo de Deus busca inspiração. Os jovens – todos nós, na verdade – buscam autenticidade. Exemplos de pessoas que vivem conforme o Evangelho são mais convincentes do que horas de apologética e apresentações brilhantes em altares.

A menos que as lideranças eclesiásticas nos mais altos níveis busquem saber como a nossa comunidade se tornou tão distorcida – corrupta como hipócrita –, um Sínodo sobre como atrair os membros mais jovens irá, em última análise, mostrar-se uma perda de tempo e esforço.

Talvez a busca incessante dos jovens em sua obviedade embaraçosa deveria ser posta de lado para dar tempo aos líderes eclesiásticos refletirem profundamente sobre o que significa ser humilde autenticamente. Substituam respostas bonitas a perguntas que poucos estão fazendo por uma simples placa, contendo uma só frase, no escritório de cada bispo: “Você pode ser o problema”.

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