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14 Março 2018

Eu sei. O egocentrismo católico não descolore a papolatria instintiva na Itália, e um hiato moral, há décadas, separa os pontífices de muitos outros líderes políticos. Tudo levaria a pensar que o que se diz de Francisco há cinco anos, teria sido dito de qualquer outro eleito em 13 de março de 2013. Mas não é verdade.

O comentário é de Alberto Melloni, professor da Universidade de Modena-Reggio Emilia e diretor da Fundação de Ciências Religiosas João XXIII, de Bolonha, publicado por La Repubblica, 11-03-2018. A tradução é de Ramiro Mincato.

Francisco possui um centro de gravidade peculiar, direto, seco, unilateral, a de um papado "querigmático". O "kèrygma" (anúncio), no Novo Testamento, é o núcleo do Evangelho de Jesus. Não suprime a catequese, a doutrina, as normas. Francisco as deixa para os outros, se forem capazes. Ele mantém para si o anúncio que desmascara o ídolo do poder, de modos a não desperdiçar o que "Deus escolheu".

Então, quando calam seus oponentes e aqueles que ele chama de "papagaios bergoglianos" (que gorjeiam "periferias", "igreja em saída" ou "imigrantes", esperando uma carreira), quem quer pode ouvir a comovente doçura do evangelho como evangelho, que dá à igreja peregrina na história repreensão e consolo, fortaleza e graça.


Se em março de 2013, a maioria, que Ratzinger esperava elegesse o cardeal Scola, tivesse sido sólida e sincera, nestes dias celebraríamos o quinto ano de Paulo VII (dizem que ele teria escolhido esse nome). Teólogo fino, o "papa ciellino" teria escrito dotas encíclicas. A causa de beatificação de Giussani teria avançado. Renzi não teria tocado Lupi. Parolin seria núncio na Venezuela e Bassetti emérito bispo de Perugia, ambos sem a púrpura. Aqueles que sempre louvam qualquer papa o louvariam; os críticos seriam espancados sem piedade.

Único dado comum: um rio de tinta teria seguido suas determinações sobre os bens móveis e imobiliários da igreja, sobre a reforma da cúria e sobre os sacerdotes pedófilos. Porque a desordem sistêmica, que sacudiu a igreja e Bento XVI, levou o Conclave a assumir (erroneamente) que isso dependia somente dos italianos e somente destas três pragas purulentas.

Destas chagas, de fato, também Francisco teve que se ocupar. Mas quem monitora os falsos passos acreditando desmascarar suas fraquezas, não entendeu que Francisco honra o conclave com o desencanto de um homem liberto de ansiedades religiosas.

O dinheiro, por exemplo, não é reformável. Depois de Porta Pia pensou-se como um substituto do poder temporal em defesa da igreja: mas não levou em conta (diz o cardeal Silvestrini) que, quando o dinheiro aparece, bons sacerdotes são muitas vezes tão bons que confiam nos criminosos, e os sacerdotes delinquentes confiam sempre nos delinquentes, porque são como eles. Então, Francisco atuou no IOR com muitas comissões e muitas nomeações, sabendo que, porém, pode-se obter ali somente o mesmo grau de moral que existe no mundo financeiro. E dizem que não é alto.

Algo semelhante se aplica à cúria: a reforma iniciada há cinco anos diz respeito às tarefas e funções, deixando à bula de promulgação a substância teológica. Mas Francisco sabe que a cúria não se reforma se o Papa se agitar: mas se o episcopado, sem introverter-se, entrar na lógica da sinodalidade que se aprende fazendo.

Quanto aos sacerdotes pedófilos, acobertados por bispos heréticos (porque se um bispo segue a "razão de igreja", contra as vítimas, é possuído por um demônio anticristão), Francisco sabe que os gritos de "tolerância zero" não são suficientes e, mais cedo ou mais tarde, permitirão matança direcionada. Então, tendo feito tudo o que é necessário do ponto de vista jurídico, devemos nos perguntar sobre a eleição dos bispos e a formação dos sacerdotes: isto é, olhar nos olhos a questão do ministério, que Francisco ainda não quis enfrentar.

Essa atitude não é suficiente para todos. Mas se alguém olhar os sites do fundamentalismo católico, encontrará acusações febris, jogos de espelhos sociais que fazem pensar que os inimigos de Francisco são muitos e prontos para depô-lo. Na realidade, os inimigos do Papa querem parecer metade da igreja, mas na realidade são poucos: um ruidoso exército em busca de um cardeal Brancaleão, que os leve ao Conclave da vingança, que esperam próximo.

Francisco, não sem a crueldade de um jesuíta, os faz acreditar há muito tempo, dizendo que espera um breve papado, cinco anos. Agora, no quinto ano, estamos aqui: o Papa está bem e a boa saúde de Ratzinger impede qualquer pensamento de renúncia. O frágil magistério do Papa "querigmático" continua.

O Papa Bergoglio, vamos ser claros, não tem uma angélica falta de interesse pelo futuro: ele não dá postos cardinalícios a alguns, porque quando o seu pontificado terminar – decida-o Deus sozinho, ou decidam juntos, se verá - não os quer no Conclave. Com a rarefação dos cardeais italianos, favorece o primeiro papado italiano do século XXI, que mais cedo ou mais tarde virá.

Mas Francisco não tem intenção de manobrar, nem sequer fazer regras para proteger o que ele fez ou pregou. Se o que ele faz vem de Deus, pensa, vai durar. E o "kerygma" é de Deus. Se o que ele faz é feito "em paz", durará: e o homem resolvido em um mundo de homens não resolvidos está em paz. Mas, "ele cometeu também erros", diz a gauche caviar da teologia. De fato, se tivesse feito votar Amoris laetitia no sínodo, teria dado voz a um órgão até agora em silêncio, e teria se liberado das polêmicas intolerantes daqueles que ignoram a grande tradição da igreja. Se ele quisesse usar todas suas prerrogativas de primaz da Itália, poderia ter batido o pé, para que os conteúdos do seu poderoso discurso para a igreja italiana em Florença, em 2015, fossem, pelo menos, levados a sério, se não obedecidos.

Mas Francisco não aspira ao Oscar de melhor ator no filme da Igreja Católica. Sabe que o prêmio da fé é a fé. Acredita que os processos de reforma dizem respeito às esferas de conversão, que somente um estúpido politicismo pensaria ser capaz de medir. E, por isso, faz "aquilo que crê", em sentido estrito. Sem ilusões, sem fazer pose, sem ativismo. O papado querigmático cruza o limiar do quinto ano e "sua vida peremptória" ensina apenas aqueles que sabem ouvir.

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