Carmen Sammut: "No Vaticano nós irmãs nunca somos consultadas"

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05 Março 2018

A presidente das madres superioras: "O único foi o Papa Francisco. Nós, irmãs, escravas dos padres. Os párocos têm a homilia, como nós podemos comunicar o bem?"

A entrevista é de Stefano Lorenzetto, publicada por Corriere della Sera, 02-03-2018. A tradução é de Luisa Rabolini.

A lendária papisa Joana queria governar toda a Igreja. Depois de quase doze séculos, a irmã maltesa Carmen Sammut se contenta em dirigir 670.320 religiosas professas dos cinco continentes, doze vezes mais numerosas do que os consagrados não sacerdotes e quase o dobro dos 466.215 bispos, padres e diáconos. É a Presidente da UISG, a União Internacional das Superioras Gerais, a primeira no cargo por dois mandatos.

Protesto polido

Das janelas de seu escritório em Roma, na frente de Castel Sant'Angelo, a Cúpula parece bem próxima. Mas não é assim, tanto que a irmã Sammut em seu último encontro com Jorge Mario Bergoglio foi forçada a um polido protesto. “Papa Francisco, enviei-lhe quatro cartas", disse ela, agitando os dedos da mão direita do indicador ao mínimo. “Eu nunca as recebi", espantou-se o ilustre interlocutor. “Eu suspeitava disso", ela replicou, e rápida lhe estendeu uma cópia da última carta desaparecida. O Pontífice leu pensativo, dobrou a folha uma vez, depois outra, e a colocou no bolso da batina, batendo duas vezes na mão, como para dizer: "agora está segura". No dia seguinte, um encarregado do Vaticano entregou na sede da UISG um bilhete de resposta escrito de próprio punho pelo Papa. O gesto não só se explica pela predileção de Francisco pelos mais necessitados. É verdade que a madre Carmen é a superiora geral das únicas 600 irmãs missionárias de Nossa Senhora da África (três apenas italianas), praticamente nada na galáxia católica. Mas também representa as 1.970 superioras gerais das congregações femininas.

Eis a entrevista.

As vocações das irmãs estão em declínio ou em crescimento?

Somos 51.615 a menos do que cinco anos atrás. Diminuem na Europa e nos Estados Unidos. Crescem no Vietnã e nas Filipinas. Na África aumentaram 7,8 por cento.

Como se justifica a crise?

A Igreja não consegue explicar Deus ao mundo pós-moderno. No entanto, os jovens continuam a ser o mesmo de sempre: generosos. Na Holanda existem jovens ateias que ajudam as nossas irmãs idosas.

Não cabe a vocês explicar Deus?

Os sacerdotes têm a homilia. Mas, e nós? Como podemos comunicar o bem?

Vocês verão que Francisco lhe permitirá pregar sermões na missa.

Já estou preparada. Estudei homilética com os jesuítas no País de Gales.

"Aquelas do Terceiro Mundo são ‘bocações'“, declarou-me um prelado de alto escalão.

Isso também vale para os sacerdotes. Os filhos dos pobres eram enviados para o seminário para que tivessem comida e estudo. Até o século XX para as freiras de vida ativa o convento representava um resgate social e uma possibilidade de carreira.

Conte-me sobre sua vocação.

A primeira foi pela África, banhada pelo mar de Malta. Aos 12 anos, as freiras passaram na sala de aula e me deixaram um mapa do continente africano. Aos 19 anos eu decidi que tinha que lhe consagrar a vida.

Na prática, o que faz a superiora das superioras gerais?

Confusão. (Ri). Eu tento transmitir às pessoas o que fazemos de bom.

Vamos ouvir.

Por exemplo, entre Agrigento, Caltanissetta e Ramacca uma dezena de irmãs auxilia os refugiados que desembarcam na Sicília. Talitha Kum, uma rede contra o tráfico de seres humanos, colabora com as polícias, oferece acolhimento e formação aos escravos que conseguimos resgatar. Muitas religiosas psicólogas africanas ajudam crianças de rua abusadas sexualmente.

A senhora se lamenta que também as irmãs estejam quase reduzidas à situação de escravidão na Igreja.

No Vaticano nunca somos consultadas. O primeiro a fazê-lo foi Francisco. Fomos a ele em mais de mil. Não havia nem mesmo um cardeal. Solicitaram-nos de apresentar com antecedência e por escrito as perguntas que iríamos apresentar ao Santo Padre. Uma irmã não teve a coragem de ler até o fim a sua pergunta sobre as religiosas que são empregadas domésticas para os sacerdotes sem receber nenhuma compensação. O Papa a tirou do constrangimento: ‘Mesmo que a pergunta esteja incompleta, quero responder. Eu, você, nós estamos a serviço dos pobres. Mas o serviço não é servidão’. A partir daí nasceu a comissão composta por seis homens e seis mulheres que está enfrentando a questão do diaconato para as mulheres.

Fiquei sabendo que vocês estão empenhadas no estudo do direito canônico.

Não pode ser uma função privativa dos padres, que acreditam que só eles são a Igreja. É uma questão de poder, de dinheiro. Alguns bispos gostariam de anexar as nossas casas, argumentam que fazer parte do patrimônio da Igreja. A UISG precisou promover uma assembleia mundial com as poucas freiras canonistas para poder contar com uma rede de defesa eficaz.

Em compensação, a senhora foi admitida ao Sínodo sobre a família.

No último banco, sim. Fomos em oito até o cardeal Lorenzo Baldisseri, secretário-geral do Sínodo dos Bispos. Fomos aceitas em três.

O Papa deve acabar com o celibato?

Para os religiosos não: a sua dedicação aos outros deve ser total. Mas o celibato sacerdotal é apenas uma lei da Igreja latina. Na verdade, da Romênia ao Egito a Igreja católica de rito oriental ordena padres também homens casados.

A senhora gostaria de poder celebrar a missa, confesse.

Não tenho esse desejo. Mas respeito as mulheres que o sentem.

Em sua recente viagem ao Peru, o Papa Francisco disse às freiras de clausura de Lima: "Vocês sabem o que é uma religiosa fofoqueira? É uma terrorista. Pior do que as de Ayacucho de anos atrás". A senhora conheceu muitas terrorista?

Não muitas. Algumas. Porém, em minha congregação, iniciei uma reflexão coletiva: o que vocês falam no WhatsApp?

Como pode uma freira de clausura fofocar, se não pode falar com ninguém?

(Ri). Quanto tempo você tem?

Todo o que precisar.

Eu fiquei em retiro durante oito dias em um convento de clausura. As freiras vinham em procissão até a mim: ti, ti, ti... Depois, o mea culpa noturno, todas arrependidas.

Francisco em 2 de fevereiro deu uma flor a cada religiosa que trabalha no Vaticano. Lisonjeada?

Eu não trabalho no Vaticano.

Mas a senhora é assalariada?

Por quem?

Se precisar de algo, como faz?

Temos um orçamento. E uma lista de necessidades. Aquelas excessivas são discutidas. Às vezes é o contrário: sou eu que tenho que incentivar uma freira a comprar pelo menos um livro.

Qual seria uma necessidade excessiva?

Uma viagem. Eu queria levar a minha mãe Maria, de 92 anos, a Lourdes.

Pagou tudo a congregação?

Não, a minha mãe.

A senhora viveu por muito tempo em Malawi, Argélia, Mauritânia e Tunísia. Como era tratada pelos muçulmanos?

Eu era respeitada. Eu ensinei junto com uma irmã em uma escola em Bechar, a 1.100 quilômetros de Argel. Perguntavam para a gente: “Vocês são discípulas de Jesus? Então nos ajudem”. E nos confiavam as crianças mais complicadas. Lembro um inverno em que fez muito frio. Uma jovem trabalhadora, vendo que eu não tinha luvas, tirou uma das suas e a ofereceu para mim.

O irmão Charles de Foucauld, agora Beato, escreveu ao seu amigo René Bazin em 1916: "Os muçulmanos podem se tornar verdadeiros franceses? Excepcionalmente sim, mas em geral não. Muitos dogmas básicos do Islã se contrapõem aos nossos princípios”. Ele falava como Matteo Salvini.

Franceses e cristãos não são sinônimos.

Ele acrescentou: "Chegará o Mahdi que proclamará uma guerra santa para estabelecer o Islã em toda a terra, depois de ter exterminado ou subjugado todos os não-muçulmanos". Naquele mesmo ano, foi assassinado pelos senussitas.

Os extremistas islâmicos são uma pequena minoria, eu garanto.

Cesare Mazzolari, bispo no Sudão do Sul, em 2004, me confidenciou chorando: "O momento do martírio está próximo. Muitos cristãos serão mortos por sua fé".

Milhares de muçulmanos, e muitos imãs hoje são mortos pelos jihadistas na Síria porque se recusam a lutar.

Como a senhora regularia a imigração do norte da África para a Itália?

Eu procuraria tentar descobrir quais são os interesses da máfia nesses tráficos.

Por que em Malta não desembarca ninguém?

(Esfrega os dedos polegar e indicador).

O governo de seu país pagou?

Imagino que sim.

A senhora não se tornará bispo, cardeal, papa. Considera isso como uma injustiça?

Eu não invejo esses encargos. Eu sonho uma vida simples, no deserto.

Mas Pietro Parolin não descartou que uma mulher possa tomar o seu lugar como secretário de Estado do Vaticano.

Já seria o bastante se o Dicastério para os laicos, a família e a vida não fosse presidido por um cardeal. Ou se no C9, o Conselho instituído pelo Papa Francisco para ajudar o pontífice no governo da Igreja, houvesse uma mulher.

A senhora se considera uma freira feminista?

Em que sentido?

No sentido de Zingarelli: "Quem apoia e promove o feminismo”.

Então sim.

Mas lhe sobra tempo para rezar?

Claro.

Quantas horas por dia?

Todas.

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