Escândalo sexual. Agências humanitárias católicas prometem “tolerância zero”

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20 Fevereiro 2018

Organizações internacionais católicas de caridade prometeram tolerância zero na exploração sexual por parte de seus funcionários, no momento em que um escândalo de abuso sexual que afeta uma das maiores organizações de caridade da Inglaterra agora entra em agências humanitárias da ONU.

A reportagem é de Charles Collins, publicada por Crux, 19-02-2018. A tradução é de Isaque Gomes Correa.

Em entrevista ao jornal inglês The Sun, Andrew MacLeod, ex-chefe de operações do Centro de Coordenação de Emergência da ONU para o terremoto Kashmir de 2005, estimou que dezenas de milhares de pessoas foram estupradas por funcionários da ONU, organismo internacional que emprega pelo menos três mil pedófilos.

“Há dezenas de milhares de agentes humanitários ao redor do mundo com tendências pedófilas, mas se a pessoa veste uma camiseta da Unicef, ninguém irá o interpelar”, disse MacLeod ao jornal.

“Há uma impunidade para fazer o que quiser”, disse ele. “É endêmico em toda a ação humanitária mundo afora”.

(A ONU questionou a metodologia de MacLeod e afirmou que possui uma política de tolerância zero para abusos sexuais praticados por seus funcionários.)

O escândalo começou semana passada quando uma série investigativa do The Times, outro jornal inglês, revelou que funcionários da Oxfam [confederação de entidades voltadas a solucionar o problema da pobreza e da injustiça] usaram prostitutas em festas sexuais do tipo “Calígula” enquanto forneciam ajuda humanitária no Haiti em 2011. O jornal alega que algumas destas prostitutas talvez eram menores de idade.

Desde a reportagem inicial, várias agências foram envolvidas no escândalo. O jornal IRIN News reportou em 2004 que o homem no centro da questão no Haiti, Roland van Hauwermeiren, havia sido pressionado a deixar o cargo de diretor da organização humanitária inglesa Merlin, que atua na Libéria. Merlin é um grupo de médicos que atualmente faz parte do Save the Children, outra entidade internacional de ajuda humanitária.

O grupo Médicos Sem Fronteiras emitiu um comunicado dizendo que processou 24 casos de assédio ou abuso sexual entre os seus 40 mil colaboradores no ano passado, e demitiu 19 pessoas no processo.

A World Vision, agência humanitária evangélica, negou as reportagens na imprensa de que funcionários seus estiveram envolvidos num escândalo sexual depois do terremoto haitiano.

“As extensas investigações do World Vision nestes casos revelaram que os envolvidos na exploração sexual não eram funcionários da World Vision. Eram voluntários da comunidade e mesmo os beneficiários de programas que pagavam dinheiro vivo a pessoas locais para trabalhar na reconstrução do país”, disse a organização em nota.

O The Times também revelou que uma outra das pessoas acusadas de conduta sexual imprópria começou, depois, a trabalhar para a agência católica Cafod, nas Filipinas, após deixar a Oxfam. (Ele ficou suspenso até que o caso estivesse concluído.)

A Caritas Internationalis, organização que reúne as agências humanitárias católicas ao redor do mundo, emitiu um comunicado reafirmando que a organização adota uma política de tolerância zero em casos de exploração e abuso sexual.

Michel Roy, secretário-geral da Caritas Internationalis, disse que as reportagens sobre as ações de alguns funcionários da Oxfam no Haiti são “trágicas e perturbadoras”.

“Não podemos garantir que coisas assim nunca vão acontecer, mas os sistemas e os procedimentos devem estar em vigor para reduzir o risco tanto quanto possível, relatando qualquer suspeita”, disse.

Roy falou que a Caritas Internationalis conta com um código de conduta para os funcionários, e que a organização vem estabelecendo “sistemas robustos” para responder às acusações de conduta imprópria, acrescentando que estes irão “complementar” os sistemas de salvaguarda das federações membro da Caritas, que são independentes.

“A Caritas Internationalis está comprometida em trabalhar ao longo de todo o setor humanitário para ter certeza de que exista um exame melhor junto de seus funcionários”, lê-se no texto do comunicado.

As inspeções aos funcionários exigem cooperação e confiança entre as agências humanitárias. Muitas ONGs trabalham em áreas de desastres e financiam projetos de curto prazo, o que significa que as contratações podem ser fluidas, com trabalhadores trocando de agência muito rapidamente. Muitas vezes, diferentes grupos humanitários precisam contar com cartas de recomendação recebidas de empregadores anteriores na hora de contratar.

Esta confiança pode se romper caso as agências tenham padrões diferentes de conduta profissional – na época do terremoto no Haiti, a Oxfam não tinha normas que proibissem funcionários de usarem prostitutas, por exemplo – ou se as agências rotineiramente prometem boas recomendações para facilitar a saída de funcionários de seus quadros com menos aborrecimento possível. (A Cafod não foi informada pela Oxfam de nenhuma acusação contra o funcionário suspenso.)

Agentes humanitários no campo também dizem que a supervisão pode ser pobre, e que uma atitude de “não abalar as coisas” pode se fazer presente entre os trabalhadores.

“Há muita agitação, muito álcool e muito pouca estrutura real. O escritório principal fica distante”, disse um ex-funcionário irlandês da ONU ao Irish Time.

“Se alguém for considerado culpado por um delito, não deveria ter a permissão para ir a outros lugares próximos de crianças. Jamais deveria trabalhar para uma organização internacional novamente”, disse ele. “Mas as ONGs precisam de pessoas capacitadas... Pode ser difícil conseguir pessoas para o trabalho”.

Nos EUA, o Catholic Relief Services – agência de ajuda humanitária internacional dos bispos e membro da Caritas Internationalis – contou em nota que possui “sistemas rigorosos em vigor para garantir que os nossos funcionários possam reportar preocupações com a proteção, e este reportar desencadeia uma investigação e uma ação imediatas”.

Estes sistemas incluem:

• Um sistema de denúncia disponível a todos os funcionários que recebem treinamento sobre como usá-lo.

• Um rígido código de conduta e normas de proteção que põe a mais alta prioridade na proteção das pessoas a quem servimos.

• Um curso de treinamento sobre proteção que todos os funcionários do Catholic Relief Services (e parceiros) devem completar no começo quando são contratados.

O comunicado disse que os funcionários da agência americana “adotam os mais altos padrões profissionais na medida em que trabalhamos em algumas das situações mais voláteis”.

O texto acrescenta que o processo de contratação inclui “checagens completas das referências e extensas checagens dos antecedentes”.

“Qualquer violação das nossas diretrizes ou do nosso código de conduta resulta em ação imediata e apropriada, incluindo a rescisão”, lê-se na nota.

Atualmente, a Charity Commission, entidade do governo inglês, está trabalhando com agências de desenvolvimento além-mar sediadas na Inglaterra para fortalecer o compartilhamento transversal de informações e a proteção a pessoas vulneráveis.

Mesmo assim, a escala do escândalo ainda é uma incógnita, e cada dia que passa parece revelar outras agências – o escopo internacional do problema significa que pode ser necessária uma solução internacional, o que é mais difícil conseguir do que no nível nacional.

Se a falta de supervisão e responsabilização misturada com uma aversão cultural a lavar roupa suja soa familiar aos católicos, outras pessoas já perceberam isso também.

“Estamos diante de um problema na escala [do escândalo de abusos sexuais clericais] da Igreja Católica, se não maior ainda”, disse MacLeod ao The Sun.

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