Dia Mundial da Vida Consagrada: desafio cultural. Artigo de Timothy Radcliffe

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03 Fevereiro 2018

“A vida religiosa deveria ser a arriscada aventura de seguir a Cristo lá onde ele pode nos conduzir, para além das comodidades dos nossos pequenos mundos, assim como Jesus fez com Pedro e com os outros pescadores, impulsionando-os para o vasto universo a eles desconhecido do Império Romano, onde encontrariam a morte.”

A opinião é do teólogo e biblista dominicano Timothy Radcliffe, mestre geral da ordem de 1992 a 2001. O artigo foi publicado no jornal L’Osservatore Romano, 02-02-2018. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

A vocação à vida consagrada é um chamado a viver, à existência. Jesus diz: “Eu vim para que tenham vida e a tenham em abundância” (João 10, 10). Quando visitei o noviciado da província dominicana inglesa, em 1965, os frades pareciam cheios de vida, cheios de alegria e liberdade. E justamente porque notei vitalidade entre eles, pude imaginar que encontraria uma existência com eles. A consagração religiosa é um “sim” à vida em abundância.

As últimas palavras conhecidas de Thomas Merton, pouco antes de morrer eletrocutado em Bangkok, foram: “Eu acho que hoje é importante deixar que Deus viva em nós de modo que os outros possam sentir Deus e creiam em Deus porque sentem que Deus vive em nós”. E, pergunto, as pessoas nos olham e pensam: “Eis homens e mulheres movidos pela vida mesma de Deus”?

Como a vida consagrada pode ser verdadeiramente um sinal do convite de Jesus a viver quando temos ideias tão diferentes do que significa estar vivo, que derivam da nossa cultura local e da nossa geração?

O convite de Deus a viver em Jesus tem uma dinâmica dupla. Somos acolhidos com a nossa particularidade e chamamos a ir além. Deus se fez carne em um judeu do primeiro século, que ia à sinagoga e foi educado de acordo com as tradições, os usos e os costumes dos seus antepassados. Falou a língua deles, alimentou-se com a comida deles, cantou os seus cantos e sonhou os seus sonhos. Jesus não era um ser humano em geral, abstraído da cultura. Ele expressa o amor particular de Deus pelo seu povo escolhido.

Jesus escolheu pescadores incultos, de um lugar isolado, sem importância, para serem os pilares da sua nova comunidade. Em seguida, impulsionou-os a irem além da própria cultura e os enviou a todo o vasto Império Romano e até além. Estavam destinados a ser os embaixadores de um amor universal. Essa dinâmica expressa a natureza do amor divino, que nos ama em particular, mas que é universal e não conhece fronteiras.

A vida consagrada deveria encarnar essa mesma dinâmica. O amor que temos pelos nossos irmãos e irmãs é particular, por cada um deles. Fiquei muito contente, há um mês, de conhecer meus irmãos em Myanmar e seu modo de ser, de viver, de comer, de cantar e de se alegrar me deixou muito feliz. Mas devo confessar que ainda não consegui ficar feliz comendo pés de galinha...! Eles, os frades, e não os pés de galinha, são um presente novo!

Mas ser dominicano, jesuíta, salesiano ou franciscano significa ser irmão ou irmã de pessoas de mais de uma centena de países. A maior alegria na minha vida religiosa foi o Conselho Geral, com 14 frades de 14 países nos cinco continentes. Nunca conheci uma diversidade maior, nem uma intimidade maior.

A vida religiosa, assim como o amor divino, nos envolve na nossa particularidade, mas nos convida a nos estendermos à sua universalidade. E é isso que São Tomás de Aquino chama de latitudo cordis, a abertura total do coração.

Quando pensamos nas culturas, devemos imaginar como abraçá-las e transcendê-las. Como isso acontece? Em poucas palavras, o encontro com o outro, com a graça de Deus, pode ser uma nova revelação de quem somos. Com ele, ou com ela, você é uma pessoa que nunca foi antes.

Ser humano significa estar aberto a tudo o que é diferente. Mas o encontro com o que é diferente pode nos assustar. O outro pode ser considerado como uma ameaça à minha identidade e, portanto, ser rejeitado ou evitado.

A cultura dos millennials, isto é, daqueles que nasceram depois de 1981, tende a ver a identidade como algo escolhido ou construído. As pessoas têm múltiplas identidades online. No Facebook, cada um escolhe o rosto que quer apresentar aos seus amigos. A foto típica é o selfie. Você constrói seu estilo pessoal. E, portanto, tornar-se dominicano ou salesiano pode parecer fazer uma escolha de consumo. Escolha a imagem que mais agrada você. Mas, se é assim que muitas pessoas veem a identidade, então o perigo é o de fazer outra escolha de consumo mais tarde, assim como as pessoas fazem no supermercado.

A identidade não é tanto uma questão de escolha, mas de descoberta. Descobrimos quem somos lentamente, à medida que nos tornamos irmãos e irmãs de pessoas de outras culturas e gerações. Abrimos mão de identidades pequenas e limitadas. Quem somos ainda deve ser revelado! E espero que paremos de nos preocupar em saber quem somos! Porque somos de Cristo, e quem ele é, supera o nosso conhecimento.

O desafio, portanto, consiste em entender como devemos ser sustentados nessa peregrinação ao abraçar as culturas particulares dos nossos irmãos e das nossas irmãs, mas também em transcendê-las, enquanto caminhamos para o Reino.

A vida religiosa deveria ser a arriscada aventura de seguir a Cristo lá onde ele pode nos conduzir, para além das comodidades dos nossos pequenos mundos, assim como Jesus fez com Pedro e com os outros pescadores, impulsionando-os para o vasto universo a eles desconhecido do Império Romano, onde encontrariam a morte.

Parte desse morrer significa morrer a quem você acreditava ser. Pedro pensava que era um pescador da Galileia e foi convidado a se tornar pescador de homens. Ele descobriu o que isso significava pouco a pouco, até o fim.

Isso dá medo, mas, como disse o frade menor Michael Anthony Perry, “no batismo renunciamos ao direito de ter medo”. Os jovens só se interessarão pela vida consagrada se ela for vista como uma escolha radical de seguir a Cristo.

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