Papa pede respeito às minorias étnicas em Myanmar

Revista ihu on-line

Revolução 4.0. Novas fronteiras para a vida e a educação

Edição: 544

Leia mais

Ontologias Anarquistas. Um pensamento para além do cânone

Edição: 543

Leia mais

Vilém Flusser. A possibilidade de novos humanismos

Edição: 542

Leia mais

Mais Lidos

  • III Jornada Mundial dos Pobres: o papa almoçará com 1500 convidados

    LER MAIS
  • “O Papa não é liberal, é radical”, afirma cardeal Kasper

    LER MAIS
  • III Dia Mundial dos Pobres. A Centralidade dos Pobres na Igreja e na Sociedade

    LER MAIS

Newsletter IHU

Fique atualizado das Notícias do Dia, inscreva-se na newsletter do IHU


close

FECHAR

Enviar o link deste por e-mail a um(a) amigo(a).

Enviar

29 Novembro 2017

O Papa Francisco seguiu por fim o conselho de todos os seus assessores e evitou pronunciar a palavra tabu. Mas ela não fez falta para entendê-lo. Em clara referência aos rohingya, a minoria étnica muçulmana expulsa da região de Rakhine pelo exército birmanês, Francisco pediu no discurso mais relevante de sua viagem a Myanmar e Bangladesh que sejam respeitados os direitos de “cada grupo étnico e sua identidade”. Além disso, o Pontífice lembrou Myanmar de suas obrigações como membro da comunidade internacional e mencionou o valor e a vigência da ONU, que definiu a campanha militar desatada contra os rohingya como uma “limpeza étnica de manual”.

A reportagem é de Daniel Verdú, publicada por El País, 28-11-2017.

A cena é eloquente. O chefe da Igreja Católica defendendo a paz e os direitos de uma minoria muçulmana que representa somente 1% da população em um país budista. Um contexto religioso que, entretanto, permite medir a relevância política do discurso que Francisco fez na terça-feira ante a Prêmio Nobel da Paz, Aung San Suu Kyi, com referências implícitas ao êxodo de mais de 600.000 rohingya, a minoria muçulmana que o exército birmanês expulsou do país. Uma discriminação que o próprio chefe do Exército, Min Aung Hlaing, negou no dia anterior ao Papa em um encontro improvisado que obrigou a mudança da agenda e deu mostras da inquietude gerada entre as elites birmanesas pelas possíveis palavras do Pontífice.

A viagem a Myanmar, transformada em um inesperado desafio político, ocorre em um delicado equilíbrio diplomático em que os cenários contam. Naypyidaw é a fantasmagórica capital política, uma cidade de população indeterminada, criada em 2005 em um território simbólico para o Exército birmanês em suas lutas contra a colonização. Grandes avenidas vazias entre campos de arroz e um urbanismo ministerial fruto de uma ordem militar comunista que ainda pesa nas decisões políticas. O Papa se reuniu nesse local com o presidente do país, Htin Kyaw. Mas, principalmente, com a conselheira de Estado e Prêmio Nobel da Paz, Aung San Suu Kyi, que lhe convidou em maio e com quem se reuniu na segunda-feira em particular durante 45 minutos.

O discurso que veio depois, costurado com uma cuidada, mas direta retórica diplomática, não evitou o tema central e deu um respaldo a Aung San Suu Kyi, criticada pela comunidade internacional por sua aparente passividade no conflito com os rohingya. O Vaticano deu mostras nesses dias de compreender que ela se encontra em uma difícil situação onde os militares ainda ostentam o poder político. “Quero oferecer uma palavra de ânimo a todos aqueles que estão trabalhando para construir uma ordem social justa, reconciliada e inclusiva”, afirmou ao mesmo tempo em que pedia “uma ordem democrática que permita a cada indivíduo e a cada grupo – sem excluir ninguém – oferecer sua contribuição legítima ao bem comum”. Algo que a líder birmanesa agradeceu em seu discurso, mas no qual frisou também que Myanmar tem muitos outros “desafios” além “da região de Rakhine” [onde vivem os rohingya], que “chamou com mais força a atenção do mundo”.

Myanmar, um país de 52 milhões de habitantes e 135 minorias étnicas reconhecidas, continua sendo uma democracia frágil – a debilidade de Aung San Suu Kyi, que nem sequer pôde ser eleita presidenta depois de ganhar as eleições, ficou evidente – que cambaleia com as convulsões de cada conflito. O Papa ressaltou que o país “continua sofrendo por causa dos conflitos civis e das hostilidades que por muito tempo criaram profundas divisões”. Ele agradeceu ao trabalho de diversos grupos “para pôr fim à violência […] e garantir o respeito aos direitos de quem considera esta terra como seu lar”. Uma fórmula retórica que define os rohingya, privados da nacionalidade birmanesa apesar de habitar o território há várias gerações. “Só se pode avançar através do compromisso com a justiça e o respeito aos direitos humanos”, declarou.

A viagem do Papa acontece sete meses depois de o Vaticano estabelecer relações diplomáticas com Myanmar durante a visita de Aung San Suu Kyi à Santa Sé. Esta viagem, originalmente vinculada a uma possível visita à Índia, começou a ser preparada naquele momento, quando nada permitia prever a situação atual. Mas o reconhecimento jurídico e político da Santa Sé, lembra o Papa, também traz uma série de obrigações. “A presença do Corpo Diplomático entre nós testemunha não só o lugar que Myanmar ocupa entre as nações, como também o compromisso do país com a aplicação desses princípios fundamentais”. No papel de líder ecumênico que assumiu desde sua nomeação, Francisco lembrou que as “diferenças religiosas não devem ser uma fonte de divisão e desconfiança, mas um impulso à unidade”.

A crise dos rohingya tem um evidente fundo político, econômico e religioso em um país encravado entre China e Índia e onde o Exército é totalmente inclinado aos interesses e costumes budistas. Pela manhã, o Papa se encontrou com o líder dessa comunidade – a quem encorajou a conviver em paz e fraternidade – e com outros grupos religiosos de Myanmar. A todos pediu que utilizem suas crenças para solucionar os problemas conservando sempre sua própria essência. “Não se deixem igualar pela colonização de culturas”.

Leia mais

Comunicar erro

close

FECHAR

Comunicar erro.

Comunique à redação erros de português, de informação ou técnicos encontrados nesta página:

Papa pede respeito às minorias étnicas em Myanmar - Instituto Humanitas Unisinos - IHU

##CHILD
picture
ASAV
Fechar

Deixe seu Comentário

profile picture
ASAV