"A vocação das CEBs é ser proféticas". Entrevista com Dom Geremias Steinmetz

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24 Janeiro 2018

O 14° Intereclesial das Comunidades Eclesiais de Base (CEBs) do Brasil chegou. Após quatro anos de preparação a Arquidiocese de Londrina acolhe os delegados e delegadas chegados de todos os cantos do país.

A entrevista é de Pâmela Rodrigues, publicada por CEBs do Brasil, 23-01-2018.

O primeiro em acolher quem vão se fazer presente de 23 a 27 de janeiro na cidade do norte do Paraná é seu arcebispo dom Geremias Steinmetz, que iniciou seu ministério episcopal na Arquidiocese seis meses atrás, quem nesta entrevista reflete sobre o tempo de preparação, sobre a caminhada das CEBs e sobre alguns aspectos que têm a ver com a vida da Igreja.

Dom Geremias Steinmetz (Foto: CEBs do Brasil)

Na entrevista, Dom Geremias insiste na necessidade de trabalhar em conjunto, de dialogar, de transformar a realidade, sendo conscientes que as CEBs “trabalham em vista da organização comunitária e, ainda mais, em vista da transformação social”. Não podemos esquecer que somos chamados a “construir uma cidade cada vez mais justa, fraterna, solidária. Mas isso não passa simplesmente pela oração, ou pela Eucaristia, ou não passa simplesmente pelo ouvir a Palavra de Deus, passa por criar condições e fazer com que essas questões aconteçam”.

O arcebispo local reconhece que “a Igreja católica não tem ainda a presença nas periferias que deveria ter”. É preciso uma mudança na metodologia e um maior reconhecimento do papel dos leigos. Junto com isso, as CEBs têm que continuar sendo conscientes que “é vocação das CEBs ser proféticas”, devem ser conscientes de “quais as características reais de uma comunidade, se falando de um tripé, sacerdócio, batismo e a realeza, no sentido da transformação social”.

Ao mesmo tempo, denuncia que “a vida nos seminários precisa ser mais realista, não é mais possível que a gente ordene padres que não saibam trabalhar, pessoas que nunca tenham trabalhado, pessoas que não tenham verdadeira consciência de donde vem as coisas”. Frente a isso, o Papa Francisco, é alguém que “está constantemente jogando a bola lá na frente”. Por isso, “nós temos que correr atrás, enquanto bispos, enquanto Igreja”, deixando de lado “estruturas que já não conseguem mais evangelizar”, apostando na misionariedade.

Eis a entrevista.

O que supõe o Intereclesial para a Arquidiocese de Londrina, mesmo sabendo que o senhor tem pouco tempo que chegou a Londrina e já se encontrou com o Intereclesial?

Cheguei aqui em Londrina agora, no mês de agosto, isso é verdade, mas eu já sabia, naturalmente, que o Intereclesial aconteceria aqui porque eu já era bispo no Paraná, bispo de Paranavaí, e participei inclusive das decisões ao redor do Intereclesial, ao redor de Londrina receber o Intereclesial esse ano.

Então eu acompanhei a caminhada como um todo, de modo que vir para Londrina a acompanhar agora os últimos passos, tudo aquilo que ainda tinha que ser feito para que o Intereclesial acontecesse, não foi uma coisa então difícil, porque vinha acompanhando e ao mesmo tempo conhecia muito bem todas as pessoas que estavam envolvidas, especialmente a partir da comissão de organização do Intereclesial aqui em Londrina. Já conhecia o Padre Dirceu, o Padre Marcos José, o Padre Joel, a Lenir. Já conhecia todas as pessoas e, por tanto já tinha logo uma interação bastante forte.

A Arquidiocese de Londrina está animada com este momento?

Bem, eu diria o seguinte, foram quatro anos praticamente de preparação. As noticias que se têm é que logo depois do Intereclesial de Juazeiro do Norte a questão foi discutida junto ao clero para que se efetivasse a preparação, de como deveria acontecer à preparação ao redor do Intereclesial.

Depois se criou essa questão das Santas Missões Populares para acontecer, de fato, a preparação. Foi esse momento das Semanas Missionárias, de abertura de Semanas Missionárias, curso de Missões Populares, retiros de Missões Populares, tudo isso em vista da preparação do 14º Intereclesial, que eu peguei aqui em Londrina.

Eu lembro que os últimos meses do ano de 2017 eu praticamente passei visitando comunidades e comunidades, paróquias e paróquias, e trabalhando com as Santas Missões Populares, especialmente em celebrações, e isso foi muito intenso, chamou muito a atenção o ritmo de trabalho que se impus aqui para que essa preparação pudesse acontecer.

Ao mesmo tempo, as reuniões que foram acontecendo das mais diversas equipes. Participei de uma ou outra reunião da comissão central, também de uma ou outra plenária, mas também acompanhando a questão da liturgia, a questão do transporte, a questão dos espaços onde tudo deveria acontecer porque não é que a gente faz um plano e esse plano simplesmente acontece, a gente precisa sempre estar junto porque há sempre os percalços, e que a gente precisa resolver na hora, a gente precisa correr atrás de outras soluções.

Foi isso, foi uma equipe, a gente pode trabalhar nesse sentido, correndo atrás de soluções que precisavam ser tomadas para que agora, de fato, se possa chegar ao Intereclesial e dizer tudo está preparado.

O tema do Intereclesial é a evangelização do mundo urbano. Quais são os desafios que o mundo urbano, no Brasil, está enfrentando atualmente naquilo que faz referência à evangelização?

O trabalho de evangelização hoje, em primeiro lugar, ele não pode ser compreendido como um trabalho isolado, especialmente quando se fala de comunidade eclesial de base, que tem sim como base o trabalho da evangelização, a Palavra de Deus, a Eucaristia, a organização da comunidade, que são esses três pilares sobre os quais trabalha a questão das CEBs. E não se esquecendo de que ela trabalha em vista da organização comunitária e, ainda mais, em vista da transformação social.

O grande objetivo, vamos dizer assim, é construir uma cidade cada vez mais justa, fraterna, solidária. Mas isso não passa simplesmente pela oração, ou pela eucaristia, ou não passa simplesmente pelo ouvir a Palavra de Deus, passa por criar condições e fazer com que essas questões aconteçam.

Esse é o grande debate na sociedade como um todo, que os cristãos, a partir das comunidades de base, eles estão gerando ou procurando gerar transformação. Uma das grandes questões aqui em Londrina, nesse tempo de preparação do Intereclesial, é que muitas vezes isso é mal entendido, porque inclusive no tempo histórico que nós estamos vivendo no Brasil, que certamente impõe às pessoas muita calma, muita serenidade na hora de falar sobre questões sociais, para que não pareça simplesmente que o trabalho das CEBs como um todo seja visto a partir de um partido.

Há de se ter muito cuidado nesse diálogo com a sociedade, mas agora no Intereclesial, refletindo sobre a questão da moradia, em Londrina o problema da moradia é um problema ainda muito sério, a pesar de ter se caminhado bastante nessa questão. Mas o problema também da educação, da juventude nas periferias. É só a gente sair um pouquinho nas periferias de Londrina e a gente vê o quanto nós temos jovens, em geral negros, pobres naturalmente, que estão aí, o dia inteiro nas ruas. Você passa de manhã, as oito, e estão nas ruas, à noite, as oito, e estão nas ruas, à tarde, as três, eles estão nas ruas. Então, o que esperar dessa juventude?

A Igreja católica perdeu presença nas periferias, que foi ocupada por algumas Igrejas evangélicas pentecostais. Como o senhor vê essa situação?

Essa é outra questão muito interessante. Sim, perdemos. A Igreja católica não tem ainda a presença nas periferias que deveria ter. O meu antecessor aqui, Dom Orlando Brandes, hoje arcebispo de Aparecida, ele teve a intuição, e trabalhou bastante, no sentido de criar paróquias nas periferias, de modo que hoje Londrina tem mais de cinquenta paróquias, na cidade de Londrina, para nem seiscentos mil habitantes. É uma media boa perante o Brasil, muito boa, mas a gente ainda vê que essas paróquias não estão conseguindo entrar nas periferias.

Ao meu modo de entender, e essa é uma questão que vou tentar levantar ainda nas discussões, nas entrevistas, e assim por diante, é que me parece que o Intereclesial está tocando pouco à questão da metodologia com as periferias, metodologia de trabalho de evangelização com as periferias.

Em sua opinião, qual deveria ser essa metodologia?

Hoje, muitas das nossas presenças são no sentido de cesta básica, no sentido inclusive de cadastramento de pessoas para cestas básicas e assim por diante. Agora, se você tenta reunir alguém para você falar da Palavra de Deus, para você compor realmente e fazer um trabalho de comunidade eclesial de base como deveria ser, eis aí um problema, que é um problema dos nossos tempos, as pessoas não querem pensar, as pessoas não querem se confrontar com o problema da vida. A religião é algo muito mais imediato do que mediado exatamente pela questão da Palavra e a reflexão por uma vida reta, e assim por diante. Esse é um problema dos nossos tempos, é um problema estrutural e é também um problema cultural, da própria expressão da humanidade nos nossos tempos.

Neste ano, a Igreja do Brasil está celebrando o Ano do Laicato. Aproveitando isto, a gente não poderia incentivar esse maior protagonismo dos leigos a través das comunidades de base, para que essa presença nas periferias seja mais firme, para que através de um trabalho mais reconhecido dos leigos possa ter uma evangelização mais viva, uma presença maior da Igreja?

Esse é um sonho, que vamos dizer assim, com o poeta, um sonho que se sonha só é simplesmente um sonho. Quando a gente sonha isso mais como comunidade, como diocese, talvez isso comece a se tornar uma realidade. E nós temos, aqui em Londrina, uma presença forte do laicato. Mas ainda a questão da evangelização, eu vejo que ela se torna fraca, ela vai muito ao lado do assistencialismo, como nós já comentamos.

Porém é mais uma vez um desafio que precisa ser lançado e na situação atual das CEBs, na situação atual da política nacional, nós temos que dizer claramente que as CEBs precisam repensar metodologia e novamente se lançar ao trabalho para conseguirmos formar lideranças que possam dar respostas mais efetivas à questão das periferias.

Agora nos últimos meses, neste último ano, a questão da periferia tem piorado. Londrina mesmo fala-se que nós temos em torno de quinze mil pessoas, numa cidade no entorno de seiscentos mil, que passam fome. Isso já não se falava mais e hoje se fala de novo.

A Igreja do Brasil está recuperando em certa medida essa dimensão profética. Podem ser as CEBs, as pastorais sociais, alguns movimentos, um instrumento que ajuda a retomar essa dimensão profética?

Sem dúvida nenhuma. As CEBs são vocacionadas para isso, é vocação das CEBs ser profética nesse sentido, porque elas não pensam só as questões espirituais ou de evangelização, mas pensam com mais completude a questão profética, que é a denúncia, mas é, sobretudo, uma denúncia consequente, uma denúncia que gere prática, que produza prática na vida de uma comunidade.

Eu mesmo me lembro de que no tempo de estudante, que não sou nenhum idoso, um tempo em torno de vinte cinco anos mais ou menos, mas eu me lembro de quanto à gente, enquanto seminarista se preocupava de estar presente nas comunidades, organizar essa comunidade internamente, produzir lideranças, e assim por diante. E pouco a pouco também ir vendo com a comunidade as grandes necessidades dessa comunidade, para poder trabalhar encima disso, com a prefeitura, com as lideranças, com os vereadores da região. Isso a gente se preocupava de fazer.

As CEBs têm essa veia profética muito forte, e eu creio que também pelas CEBs passa essa questão, a pesar de que o documento sobre as paróquias, comunidade de comunidades, uma nova paróquia, alarga um pouco mais o conceito de comunidade. Ele tenta até dizer que um movimento pode ser considerado uma comunidade, uma pastoral que tenha lá um certo número de pessoas que se encontram, pode ser considerado uma comunidade, um grupo de rua poderia ser considerado uma comunidade.

Essa é ainda uma questão que me parece que precisa ser rediscutida, quais as características reais de uma comunidade para que de fato possam acontecer todos esses elementos. Em se falando de um tripé, sacerdócio, batismo e a realeza, no sentido da transformação social.

O senhor lembrava-se de quando era seminarista. Hoje os seminaristas têm perdido essa visão do ministério, de ser padre, essa visão de Igreja em saída, de preocupação com a vida da comunidade?

Essa discussão é grande. Agora veio a nova ratio fundamentalis da formação, que tenta colocar a formação muito mais na linha do discipulado. Inclusive as etapas de formação são chamadas com nomes diferentes. A teologia é o tempo da identificação com o Senhor, a filosofia seria um tempo de aprofundamento do discipulado, o propedêutico seria tempo de aprender o discipulado, quais são as bases do discipulado.

Então vamos agora a caminhar um pouco enquanto Igreja e vamos ver quais serão as respostas que a gente poderá encontrar nessa nova metodologia, mas eu creio e acho que a vida nos seminários precisa ser mais realista, não é mais possível que a gente ordene padres que não saibam trabalhar, pessoas que nunca tenham trabalhado, pessoas que não tenham verdadeira consciência de donde vem as coisas, vamos dizer assim.

A prática que decorre muitas vezes dessa questão é que o padre chega à paróquia, a primeira coisa é que tem que reformar a casa, a segunda coisa é carro novo, e depois toda a roupagem, vamos dizer assim, do padre, que precisa ser da melhor qualidade. Isso não dá mais, acho que a situação que nós estamos enfrentando demanda uma autenticidade maior, mais profunda e também, nesse sentido, uma pobreza mais efetiva.

A crítica que o senhor está fazendo o Papa Francisco já fez diversas vezes, inclusive nesta última semana nos encontros que teve com seminaristas, com o clero, com religiosos, no Chile e no Peru. Como está ajudando o Papa Francisco nesse jeito de ser Igreja que as CEBs querem fazer realidade?

Eu diria que o Papa Francisco, falando a nossa linguagem de futebol, visto que somos brasileiros e espanhóis, o Papa joga a bola lá na frente, vai alcançar essa bola quem tem um pouco menos de barriga, quem tem um pouco mais de treinamento. E nós temos que efetivamente correr atrás, porque o Papa está constantemente jogando a bola lá na frente. E nós temos que correr atrás, enquanto bispos, enquanto Igreja.

Pense por exemplo, a questão do Papa falando de Igreja em saída é toda uma revolução, falando por exemplo do documento de Aparecida, das estruturas que já não mais evangelizam, o que isso tudo significa quando a gente vai falar na questão de Igreja hoje, onde se têm estruturas que já não conseguem mais evangelizar.

No discurso que você citou aos padres, mas antes ele falou aos bispos, sobre a questão da pertença. Ele acha que muitas das pessoas que deixam às vezes até mesmo o catolicismo, o deixam porque não se sentem mais pertencentes. A recuperação, um pouquinho, disso que aqui no Intereclesial está sendo chamado de casa, a volta para casa, a vida dentro de casa, a vida da casa, ao redor da casa, e assim por diante.

Aos padres ele também chamava a atenção sobre o problema de vivencia dos padres, efetivamente, no seu contato com a realidade. Então o Papa lança as grandes ideias e, pouco a pouco, essas ideias têm que descer, tem que vir para nossa realidade. Uma dessas ideias é a misionariedade, o problema da Igreja em saída, e que de fato nós precisamos adaptar às nossas igrejas para que isso efetivamente aconteça.

Uma das coisas que o Papa falou é que os padres, os bispos, não podem pensar que os leigos são empregados deles.

Exatamente. Ele levanta o problema, a questão do serviço, o que é o serviço do padre. Mas você chega numa paróquia e pergunta onde é que está o padre e o pessoal diz que o padre foi ao banco. É missão do padre, faz parte do serviço do padre isso efetivamente? Essas questões que o Papa está tentando levantar e está produzindo um verdadeiro divisor de águas nesse sentido.

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