“As desigualdades cresceram em todas as partes, mas não no mesmo ritmo”. Entrevista com Lucas Chancel

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21 Dezembro 2017

O conhecimento sobre as desigualdades em escala mundial está se ampliando. Uma equipe de pesquisa, de que fazem parte Facundo Alvaredo, Lucas Chancel, Thomas Piketty, Emmanuel Saez e Gabriel Zucman, apresentou na quinta-feira, 14 de dezembro de 2017, na Escola de Economia de Paris (PSE), o World Inequality Report 2018 (Relatório Mundial sobre Desigualdades 2018). Trata-se de um documento que se apoia sobre dados exclusivos sobre as desigualdades de renda e patrimônio produzidos pelo projeto WID.world.

Entrevista com Lucas Chancel, co-diretor do Laboratório sobre Desigualdades Mundiais e do WID.world.

A entrevista é de Christian Chavagneux, publicada por Alternatives Économiques, 14-12-2107. A tradução é de André Langer.

Eis a entrevista.

Mais números sobre as desigualdades! O assunto ainda não está suficientemente explorado?

Em absoluto! Os dados originais com que trabalhamos permitem ressaltar vários novos resultados. O primeiro diz respeito ao que acontece na base da distribuição de renda nos países ricos. Até agora, nós nos concentramos principalmente nas evoluções referentes ao 1% superior, porque não possuíamos dados confiáveis e de longo prazo sobre as classes médias e populares. Assim, se comparamos o que aconteceu na Europa e nos Estados Unidos desde 1980, notamos em ambos os casos um aumento dos altos rendimentos. Mas não constatamos na Europa a queda das classes populares e de uma parte da classe média que observamos do outro lado do Atlântico [nos Estados Unidos].

Nos países emergentes, enfatiza-se geralmente a redução da pobreza, particularmente em decorrência do desenvolvimento da Ásia. Certamente, as populações na parte inferior da escala se beneficiaram do crescimento, mas de maneira muito diferente entre a China, a Índia ou o Brasil. Finalmente, a partir do momento em que podemos apreciar as dinâmicas da base da escala e nos países emergentes, uma imagem mais confiável das desigualdades entre indivíduos em nível mundial aparece. Isso nos indica que, embora as desigualdades tenham aumentado em todas as partes, as evoluções foram muito diferentes em cada país, o que mostra que é possível controlá-las.

Nas últimas décadas, as desigualdades cresceram em todo o mundo. Mas de forma diferenciada segundo as regiões. É na Europa que elas são as mais baixas. A prova de que as instituições nacionais (impostos, serviços públicos, etc.) desempenham um papel importante na possibilidade de controlar as desigualdades.

As desigualdades entre países tenderam a diminuir ao longo das últimas décadas. O aumento das desigualdades destacadas no relatório de vocês deve-se, então, às crescentes desigualdades dentro dos países?

A desigualdade mundial entre as pessoas é o resultado dessas duas forças. Saber qual predomina não é a priori fácil. Os poucos estudos disponíveis tendem a mostrar, por causa do crescimento dos países emergentes, uma diminuição das desigualdades entre as pessoas em todo o mundo. Mas este resultado é obtido com base em dados pouco confiáveis.

Em que medida o relatório de vocês baseia-se em dados estatísticos originais?

Esta é a primeira vez que obtemos esses resultados a partir de dados obtidos, para uma parte deles, graças aos debates suscitados pela publicação de O Capital no Século XXI, de Thomas Piketty. Isto é especialmente verdadeiro nos países emergentes, onde havia a queixa de que os debates diziam respeito apenas aos países ricos. Vários governos começaram a liberar dados fiscais, o que nunca tinham feito antes.

Os dados sobre as rendas utilizados até agora não permitem a mesma precisão, porque eles são geralmente derivados de pesquisas domésticas que não conseguem captar adequadamente o que está acontecendo no topo da distribuição das rendas. A qualidade das informações fiscais é limitada, nós estamos cientes disso, particularmente por causa de problemas relacionados a subdeclarações e à evasão fiscal. É por isso que os nossos dados fornecem um limite baixo nas estimativas das desigualdades.

Os dados de vocês, portanto, não incluem a parte das fortunas escondidas nos paraísos fiscais?

Isso vai exigir ainda muito tempo para fazê-lo assim como gostaríamos de fazer. Mas, sim, nós começamos a fazê-lo corrigindo as subdeclarações pelas estimativas feitas por Gabriel Zucman. Na Rússia, por exemplo, o nível de desigualdade aumenta significativamente quando se leva em consideração as estimativas da fortuna dos oligarcas russos mantida offshore.

Nossos números mostram que entre a força de convergência – ou seja, a redução das desigualdades entre os países – e a força de divergência – o aumento da desigualdade nos países –, é a segunda que prevaleceu.

O 1% mais rico do mundo abocanhou 16% da renda em 1980; e hoje captura 20%. A metade mais pobre da população estagnou em torno de 9% ao longo do período, apesar da evolução nos países emergentes. Em nível mundial, o 1% do topo capturou duas vezes mais crescimento do que a metade da base, o que é algo considerável.

Podemos classificar os indivíduos que compõem a população mundial por grupos correspondentes ao seu nível de renda, dos 10% mais pobres aos 10% mais ricos. Da mesma forma, podemos decompor esse último grupo para observar a situação de cada 1% e mesmo de cada 0,1% mais rico. O gráfico mostra para cada um dos grupos a progressão acumulada de seus rendimentos no período de 1980 a 2016. A metade mais pobre da população mundial viu os seus rendimentos aumentarem 12% ao longo do período e o 1% mais rico em 27%, mais do que o dobro.

Esse tipo de medida mundial das desigualdades não é deformada pela dinâmica fortemente desigual dos Estados Unidos?

Os Estados Unidos são claramente uma poderosa força de divergência, com a metade mais pobre dos americanos tendo visto seus rendimentos praticamente estagnarem nas últimas três décadas, com um crescimento de menos de 1%. Na Europa, a dinâmica é menos desfavorável (um aumento de 20% a 30%, dependendo do país), sem ser ótima. Mas quando se tira os Estados Unidos do conjunto, não se obtém um resultado radicalmente diferente. O perfil mundial das desigualdades permanece o mesmo: um ligeiro aumento nos rendimentos na base da escala, uma queda das classes médias, um aumento acentuado da renda dos mais ricos.

Quando falamos do 1% mais rico do mundo, de quantas pessoas estamos falando?

De cerca de 70 milhões de pessoas, o tamanho de um país como a França. Se pensamos em termos de população adulta, representa 40 milhões de pessoas e isso corresponde a um nível de renda de 330 mil euros por adulto, por ano. A metade mais pobre da população mundial, aquela cuja renda é inferior a 3.200 euros por adulto/ano, é de 3,5 bilhões de pessoas.

Em que países vive este 1% mais rico? Isso mudou nas últimas décadas?

Nós observamos, sem nenhuma surpresa, um forte crescimento dos muito ricos dos países emergentes nos topo 1% e 0,1%. O "estoque" de ricos, se assim posso dizer, permanece em grande parte americano e europeu, mas muito menos do que antes: eles representavam dois terços do 1% mais rico mundial na década de 1990; hoje, são menos da metade.

Vocês apresentam a Europa como uma área de menor desigualdade. Se considerássemos a União Europeia como um todo, como estaria o nosso continente em relação com os Estados Unidos?

A diferença não seria alterada. Os 10% das pessoas mais ricas da Europa Ocidental concentravam 37% das rendas em 2016. Se você incluir os países do Leste Europeu, a participação é de 38%.

Como se caracteriza a França neste panorama global?

A França não é exceção. Ela experimentou um crescimento das rendas, dos patrimônios, das rendas de patrimônio e dos altos salários muito mais forte entre os mais ricos do que no resto da população. Mas ela foi melhor inclusive do que em outros países para garantir o crescimento da renda daqueles que estão abaixo.

Por quê? A tributação, os investimentos em educação, na saúde, de maneira geral nos serviços públicos abertos a todos, permitiram que as classes médias e populares perdessem menos do que em muitos outros países.

O 0,1% mais rico representa quantas pessoas na França?

São um pouco mais de 65 mil pessoas, ou 50 mil adultos. Seu nível de renda é de mais de 550 mil euros (a média é de 33 mil) e seu patrimônio é superior a 7,5 milhões de euros (a média é de 200 mil euros).

Este pequeno grupo desempenha um papel fundamental na nossa sociedade?

São os primeiros da cordada que puxam os empregos e as dinâmicas da economia? Este argumento serve para justificar a implementação de taxas de impostos derrogatórios a seu favor. Na falta do que, nos dizem, todos vão deixar o país, seria a derrota nacional e a falência! Apesar deste discurso, nossos dados não mostram nenhuma fuga das altas rendas e dos altos patrimônios. Pelo contrário, eles estão indo extremamente bem com um crescimento de sua fortuna bem maior que a média.

Nós observamos também que as taxas dos mais ricos são mais baixas que as da classe média: os ricos contribuem proporcionalmente menos com impostos! Portanto, reduzir sua tributação com base em que eles estariam em uma desvantagem fiscal parece-me totalmente infundado.

Em que medida este pequeno grupo contribui para uma significativa "percepção" das desigualdades?

Esta é uma dimensão muito importante do debate. O nível das desigualdades é menor na França do que em muitos outros países. No entanto, a percepção é grande porque essas desigualdades são visíveis. Todos os anos, essa ou aquela revista nos dá o ranking das pessoas mais ricas e vemos o crescimento extremo da renda e do capital desses patrimônios muito altos (o patrimônio dos mais ricos do mundo aumenta em 7-8 % por ano contra 2% para a média), eles frutificam e estão indo cada vez melhores.

Isso leva a comunidade a se questionar sobre a justificativa de tal evolução e o nível apropriado de tributação dessas fortunas. Avançar rumo a uma redução dos impostos sobre as rendas mais elevadas contribui para aumentar a frustração com o sistema econômico e as evoluções da mundialização nos últimos 30 anos.

Existe um consenso entre os economistas em relação ao que seria um “bom” nível de desigualdades?

Não, e isso é bom. Esse consenso deve ser determinado em um debate democrático mais amplo do que reuniões de economistas. A ideia que prevalece hoje é que, em muitos países, entramos na zona vermelha em termos de desigualdades e que estamos nos dirigindo progressivamente, em ritmos variados em outros países, para desigualdades mais fracas, mas crescentes, como na França. Esta é a mensagem recentemente publicada, por exemplo, pelo Fundo Monetário Internacional (FMI), que também soa o alarme.

Quais são os problemas colocados pelas desigualdades?

São muitos. Uma sociedade desigual investe mal no futuro, na educação, na infraestrutura pública. As opções de investimento não serão ótimas, ressalta o economista norte-americano Joseph Stiglitz. Além disso, os trabalhos de economia comportamental mostram que um alto nível de desigualdade representa um desincentivo ao trabalho, uma desmotivação que reduz a produtividade.

Vários estudos também estabelecem o vínculo entre desigualdades e saúde: as sociedades desiguais são mais estressadas do que outras e o estresse é fonte de distúrbios, de doenças crônicas. A nível político, a frustração provocada pela mundialização desigual está alimentando o eleitorado a favor de Donald Trump ou do Brexit.
Temos as desigualdades que merecemos?

Uma das principais conclusões do nosso relatório é mostrar que não há nenhum determinismo no aumento das desigualdades. As escolhas políticas e institucionais desempenham um papel fundamental no seu controle. É uma mensagem bastante otimista; é possível agir!

Qual é o cenário mais provável para o futuro das desigualdades no mundo?

Se prolongarmos as tendências atuais, as desigualdades continuarão a aumentar fortemente, apesar da probabilidade de um crescimento dinâmico nos países emergentes, principalmente devido ao aumento das desigualdades no interior dos países. Podemos construir vários cenários e mostrar que, se todos os países do mundo seguissem, por exemplo, a trajetória da Europa nas últimas décadas, seria possível reduzir as desigualdades mundiais.

E para a França?

Se continuarmos a reduzir a tributação dos mais ricos, a diminuir os esforços de formação – o orçamento por estudante do ensino superior foi reduzido em 10% em 10 anos –, para desindexar a evolução do SMIC (Salário Mínimo Interprofissional de Crescimento) das rendas médias, é provável que a França se junte à tendência dos países mais desiguais.

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