O alimento não é apenas mercadoria. Mais de 800 milhões padecem de fome crônica no mundo

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16 Outubro 2017

Na escala das necessidades, comer e beber estão em segundo lugar, imediatamente após respirar. Sem alimento não é possível crescer, aprender, trabalhar. Não se passa de larvas humanas. De acordo com a FAO, mais de 800 milhões de pessoas padecem de fome crônica, ou seja, consomem menos de 1.800 calorias diárias. Mas, se ampliarmos o olhar para incluir também aqueles que sofrem outras formas de carência alimentar, descobrimos que os subnutridos são mais de 2 bilhões, quase um terço da população mundial. Culpa da produção insuficiente de alimentos? Realmente não, a julgar pelos 2 bilhões de indivíduos com excesso de peso, 650 milhões dos quais definitivamente obesos.

A reportagem é de Francesco Gesualdi, publicada por Avvenire, 14-10-2017. A tradução é de Luisa Rabolini.

Há quem come muito e quem come muito pouco: esquizofrenia de um sistema agrícola que agora não produz mais alimento para a vida de todos, mas principalmente mercadorias para o enriquecimento de uns poucos. E certamente não os agricultores em contato direto com a terra, mas aqueles que ocupam posições muito diferentes. Se examinarmos a cadeia agrícola, descobrimos que o setor está estruturado como um sanduíche. Em cima, existem as empresas que fornecem os ingredientes para a agricultura: sementes, fertilizantes, pesticidas.

Em baixo, as empresas responsáveis pelos estoques de produtos agrícolas e que os revendem para as indústrias de alimentos e supermercados.

No meio, os agricultores, que finalmente semeiam e fazem as colheitas. É a 'economia de extração' onde as empresas de cima e de baixo são as que ganham dinheiro com estratégias contrapostas: as primeiras impondo altos preços sobre os produtos que vendem, as segundas impondo preços baixos sobre os produtos que adquirem.

Poder garantido por sua posição dominante, dado que um punhado de empresas multinacionais, incluindo a Bayer, Monsanto, Syngenta, DuPont, controla o mercado de ingredientes, enquanto outro punhado, entre as quais Cargill, Bunge, ADM, Dreyfus, controla os mercados finais de cereais, soja, cacau.

Na lógica do dinheiro, o que é produzido, como e para quem não tem importância. O importante é vender cada vez mais, criando um fosso cada vez maior entre gastos e lucros. Basicamente o núcleo do capitalismo reside nisso. Assim a agricultura foi transformada em um gigantesco moedor de carne dentro do qual a terra é um simples substrato a ser inundado de produtos químicos para obter a germinação e o crescimento forçado das plantas; as sementes, um amontoado de moléculas a serem modificadas com base em cálculos do melhor desempenho financeiro; os trabalhadores, braços a serem explorados; os consumidores, patos a serem empanturrados de acordo com seu poder de compra: em jejum, aqueles que não têm dinheiro para gastar, na engorda, todos os demais.

E os resultados aparecem não apenas no plano social, mas também no ambiental, dois âmbitos inseparáveis como nos relembra o Papa Francisco, que nos convida a enfrentar conjuntamente as duas temáticas na perspectiva da 'ecologia integral’.

Segundo a ONU, a agricultura industrial causa a cada ano a perda de 75 bilhões de toneladas de solo fértil e não é por acaso que, em perfeito estilo colonial, colocou-se novamente em movimento o corrida ao açambarcamento de terras por parte das grandes empresas da agroindústria do ocidente e do oriente.

Estamos falando de landgrabbing, literalmente ‘apropriação de terras’, que atinge principalmente a África, o grande continente eternamente saqueado. E, enquanto nossos mercados são inundados com flores, feijõezinhos e infinidades de frutas e verduras fora de época, em países como Etiópia, Quênia, Camarões, milhares de agricultores são expulsos de suas terras e jogados de volta para as fileiras dos famintos.

A chave para sair desta situação está ao mesmo tempo nas mãos dos cidadãos- consumidores e dos governos. Dos cidadãos, porque eles podem influenciar o mercado através do 'voto com a carteira' e novos hábitos alimentares. Comprando produtos locais, exigindo produtos orgânicos e da estação, aderindo a grupos de compras solidárias, podemos fortalecer as pequenas empresas locais que operam com responsabilidade social e ambiental. Reduzindo o consumo de carne podemos enfraquecer um sistema agrícola perverso que deu vida a uma profusão de animais para absorver uma profusão de cereais produzidos por uma profusão de produtos químicos.

Não sem danos para todo o ecossistema, considerando que a criação de animais contribui para 14% da produção total de dióxido de carbono em excesso. A solução está também nas mãos dos governos e parlamentos, porque eles podem, aliás, devem intervir para evitar que as empresas nos arrastam em aventuras tecnológicas com resultados desconhecidos para a natureza e os seres humanos. Eles devem intervir para interromper os processos de concentração proprietária que permitem a poucos gigantes determinar os destinos alimentares de toda a humanidade. Mas, principalmente, precisam parar com aquela atitude de lavar as mãos, de tipo neoliberal, que delega ao mercado toda decisão, inclusive sobre a forma que deve assumir a cadeia agrícola e alimentar. Os governos devem voltar a assumir a responsabilidade de liderança do sistema agrícola e de toda a economia. Eles devem voltar a utilizar os instrumentos fiscais, da produção legislativa, das despesas do orçamento, para impelir o sistema produtivo rumo à plena inclusão do trabalho, à saúde pública, à sustentabilidade ambiental, à equidade e à dignidade humana. Devem fazer isso antes que seja tarde demais. Deveriam lembrar-se disso os ministros da agricultura do G7, partindo para medidas concretas depois das declarações de intenções.

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