Bispos e teólogos se reúnem para pensar a implementação de Amoris Laetitia nos EUA

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04 Outubro 2017

Amoris Laetitia, exortação apostólica do Papa Francisco sobre a família, é talvez o documento mais debatido na Igreja Católica desde Humanae Vitae, carta encíclica do Papa Paulo VI, de 1968, que reafirmou a proibição católica sobre o controle de natalidade.

Momentos ímpares deste debate após a publicação de Amoris Laetitia, em abril de 2016, incluem a publicação, de novembro do referido ano, de uma carta escrita por quatro cardeais que abertamente desafiaram o papa com relação ao documento e a acusação, em setembro de 2017, feita por algumas dezenas de católicos segundo os quais o pontífice havia até mesmo cometido uma heresia ao escrevê-lo.

A reportagem é de Joshua J. McElwee, publicada por National Catholic Reporter, 03-10-2017. A tradução é de Isaque Gomes Correa.

Mas não há um grande enfoque público centrado sobre o que o documento – também intitulado “A Alegria do Amor” – realmente diz em suas 261 páginas. Uma atenção menor ainda tem sido dispensada à maneira como as dioceses locais poderiam implementar o seu programa para que os bispos e padres vejam a graça de Deus em ação, até mesmo nas situações por vezes não convencionais enfrentadas pelas famílias e casais de hoje.

Um evento a acontecer na Boston College deseja abordar esta falta de atenção. Em cinco painéis de debates durante de dois dias, 5 e 6 de outubro, dois cardeais, doze bispos e 24 outros participantes convidados deverão discutir aquilo que os organizadores estão chamando de “o novo momentum” que Amoris Laetitia dá aos bispos locais para renovarem as suas práticas pastorais junto às famílias.

Ao National Catholic Reporter, o padre jesuíta James Keenan, teólogo da Boston College e um dos organizadores do evento, disse que a esperança para o congresso é a de “fortificar e promover a recepção em curso de Amoris nos Estados Unidos”.

Keenan organizou o evento juntamente com o cardeal-arcebispo de Chicago, Dom Blase Cupich, usando o modelo de um congresso anterior realizado no Institut Catholique de Paris pelo cardeal francês André Vingt-Trois e pelo Mons. Philippe Bordeyne, teólogo e reitor do citado instituto.

Cupich se fará presente no evento em Boston assim como o Cardeal Kevin Farrell, que foi chamado a Roma por Francisco em 2016 para presidir o Dicastério para os Leigos, a Família e a Vida, departamento recentemente criado pelo papa. Até então, Farrell estava diante da Diocese de Dallas.

Farrell irá palestrar no dia 5 de outubro como parte de um painel sobre como a exortação apostólica aborda aquelas pessoas nos países ocidentais que se decepcionaram com as estruturas institucionais.

Keenan falou que o evento terá um enfoque particular em ouvir as pessoas que estão ajudando a Igreja europeia a melhor entender e implementar Amoris Laetitia.

Entre os palestrantes estão o bispo alemão Dom Franz-Josef Overbeck, que participou dos Sínodos dos Bispos de 2014 e 2015, os quais levaram à escrita da exortação; o arcebispo maltês Dom Charles Scicluna, um dos autores, em janeiro de 2017, de um documento destinado aos padres de Malta sobre como implementar a exortação no país; e o padre jesuíta Antonio Spadaro, confidente papal e editor da revista italiana La Civiltà Cattolica.

Outros bispos que deverão falar no evento incluem Dom Wilton Gregory (da Arquidiocese de Atlanta) e Dom Robert McElroy (da Diocese de San Diego). Entre os que estarão participando, encontram-se Dom John Wester (da Arquidiocese de Santa Fe); Dom Charles Thompson (da Arquidiocese de Indianápolis); Dom Gerald Barnes (da Diocese de San Bernardino, na Califórnia); Dom Steven Biegler (da Diocese de Cheyenne, no estado do Wyoming,); e Dom Christopher Coyne (da Diocese de Burlington, em Vermont).

Além disso, Keenan disse que o cardeal-arcebispo de Boston Sean O’Malley e Dom Charles Chaput, da Arquidiocese da Filadélfia, não podendo participar, enviarão representantes.

Entre os 24 leigos esperados para o congresso estão alguns dos teólogos e teólogas mais proeminentes dos EUA, entre eles: Cathleen Kaveny, Richard Gaillardetz e Hosffman Ospino (da Boston College); Julie Hanlon Rubio (da Universidade de St. Louis); a irmã franciscana Katarina Schuth (da Universidade de St. Thomas) e Meghan Clark (da St. John’s University).

O evento em Boston tem como título “Amoris Laetitia: A New Momentum for Moral Formation and Pastoral Practice” (Amoris Laetitia: um novo ‘momentum’ para a formação e prática pastoral).

Na programação, lê-se que Francisco “convida a Igreja a um processo renovado de formação moral e prática pastoral com respeito ao matrimônio e à vida familiar que esteja enraizado nas Sagradas Escrituras e na fé da Igreja”.

“Implicitamente, [o papa] também vislumbra uma perspectiva mais ampla sobre renovação que tem uma aplicação mais ampla para a vida de toda a Igreja”, continua o texto. “Os fundamentos são absolutamente tradicionais (…) mas o que impulsiona o movimento à frente é uma redescoberta criativa da sinodalidade, escuta, acompanhamento e discernimento”.

O painel de Farrell sobre como a exortação aborda os que se encontram decepcionados com a figura da autoridade na Igreja deverá ser o terceiro dos cinco painéis do congresso.

Os primeiros dois deverão centrar-se em compreender “o escopo, o desafio e a promessa” do documento, bem como a “novidade enfrentada pelos padres e leigos” ao lê-lo.

Os quarto e quinto painéis irão focar em como Amoris Laetitia envolve um processo pastoral marcado pelo discernimento e acompanhamento, e os desafios que o documento apresenta aos teólogos e pastores.

Como tornar a vida dos pastores “maravilhosamente complicada”

Lançada em 08-04-2016, Amoris Laetitia foi escrita por Francisco após os Sínodos dos Bispos de 2014 e 2015 sobre a família, em que cada um produziu recomendações ao pontífice após semanas de encontros entre centenas de prelados no Vaticano.

Ainda que a exortação não altere explicitamente o magistério católico, ela tem sido vista como uma ruptura radical com relação às últimas décadas da prática pastoral. Numa das passagens mais pungentes de Amoris, Francisco pede que os pastores católicos ao redor do mundo deixem suas vidas se tornarem “maravilhosamente complicadas” em um esforço para ver a graça de Deus em ação, até mesmo nas situações que poderão ser interpretadas como contrárias às normas doutrinais.

O pontífice também convidou os bispos e padres a não temerem correr o risco de confusão moral em suas iniciativas de acompanhar o povo em situações familiares difíceis, dizendo que os pastores devem evitar a tendência de uma “moral fria de escritório” e que deveriam evitar avaliar a situação moral das pessoas com base em regulamentos canônicos rígidos.

Em particular, Francisco falou que os prelados católicos não poderiam mais fazer determinações morais gerais sobre as chamadas situações “irregulares” tais como o divórcio e o segundo casamento.

“Por isso, já não é possível dizer que todos os que estão numa situação chamada ‘irregular’ vivem em estado de pecado mortal, privados da graça santificante”, afirma o pontífice a certa altura do texto.

“É mesquinho deter-se a considerar apenas se o agir duma pessoa corresponde ou não a uma lei ou norma geral, porque isto não basta para discernir e assegurar uma plena fidelidade a Deus na existência concreta dum ser humano”, escreveu ele.

“O discernimento deve ajudar a encontrar os caminhos possíveis de resposta a Deus e de crescimento no meio dos limites”, completou, para acrescentar: “Por pensar que tudo seja branco ou preto, às vezes fechamos o caminho da graça e do crescimento e desencorajamos percursos de santificação que dão glória a Deus”.

O papa igualmente afirmou que a Igreja, no passado, teve, às vezes, dificuldade para respeitar o discernimento que Deus estava revelando aos fiéis leigos em suas próprias consciências.

“Também nos custa deixar espaço à consciência dos fiéis, que muitas vezes respondem o melhor que podem ao Evangelho no meio dos seus limites e são capazes de realizar o seu próprio discernimento perante situações onde se rompem todos os esquemas”, declarou. “Somos chamados a formar as consciências, não a pretender substituí-las”.

Grande parte do debate público durante os sínodos de 2014 e 2015 focalizaram a maneira como os bispos e o papa poderiam lidar com os fiéis divorciados e que voltaram a se casar sem antes obter anulações do matrimônio anterior. No passado, a prática católica é a de impedir que estas pessoas participem da Comunhão.

Francisco dedicou a esta questão o oitavo dos nove capítulos de Amoris Laetitia. Ainda que o papa não tenha especificamente emitido uma nova lei ou regulamento que permita os católicos recasados a expressamente participar da Eucaristia, ele alterou, de um modo significativo, a postura da Igreja para com tais pessoas.

Ele convidou a um “discernimento pastoral” das situações individuais e propôs aquilo que chamou de “a lógica da misericórdia pastoral” no trabalho com os fiéis casados pela segunda vez.

Citando o Papa João Paulo II, Francisco lançou a noção de “gradualidade”, isto é, que os católicos podem, às vezes, crescer no sentido da adesão ou compreensão do ensino católico ao longo da vida.

“Não é uma ‘gradualidade da lei’, mas uma gradualidade no exercício prudencial dos atos livres em sujeitos que não estão em condições de compreender, apreciar ou praticar plenamente as exigências objetivas da lei”, escreveu o papa no documento. “Com efeito, também a lei é dom de Deus, que indica o caminho; um dom para todos sem exceção””.

“Ninguém pode ser condenado para sempre, porque esta não é a lógica do Evangelho!”, exortou ele.

Francisco disse também ser possível que a pessoa, que vive no meio de uma “situação objetiva de pecado (…) possa viver em graça de Deus, possa amar e possa também crescer na vida de graça e de caridade, recebendo para isso a ajuda da Igreja”.

Em nota de rodapé ao final desta passagem, cujo conteúdo alguns consideram como se estivesse permitindo que os fiéis divorciados e recasados podem agora participar da Comunhão em certas circunstâncias, o papa fala que, em alguns casos, “poderia haver também a ajuda dos sacramentos”.

“Compreendo aqueles que preferem uma pastoral mais rígida, que não dê lugar a confusão alguma”, afirma ele mais adiante na exortação. “Mas creio sinceramente que Jesus Cristo quer uma Igreja atenta ao bem que o Espírito derrama no meio da fragilidade”.

Uma grande parte deste debate, desde a publicação de Amoris Laetitia, tem girado em torno da forma como as pessoas interpretam a nota de rodapé sobre dar aos divorciados e recasados essa ajuda dos sacramentos.

As orientações dos bispos malteses dizem que uma pessoa divorciada e recasada que reza e age com uma consciência informada “não pode ser excluída de participar nos sacramentos da Reconciliação e Eucaristia”.

Da mesma forma, em setembro de 2016 um grupo de bispos argentinos disse que, às vezes, pode haver fatores em um divórcio que limitam a responsabilidade do fiel em questão e que, nestes casos, “Amoris Laetitia abre a possibilidade de acesso aos sacramentos da Reconciliação e Eucaristia”.

Outros bispos, porém, dizem que Amoris Laetitia não abre a possibilidade para que pessoas divorciadas que contraíram um novo casamento recebam a Comunhão. Em julho de 2016, por exemplo, Chaput emitiu orientações pastorais que afirmavam que os recasados teriam de evitar a intimidade sexual caso queiram participar da Eucaristia.

“Aceitar viver como irmão e irmã é necessário para que o divorciado e recasado no civil receba a Reconciliação no sacramento da Penitência, o que abriria, então, o caminho para a Eucaristia”, lê-se em seu documento com as orientações aos fiéis.

Embora absteve-se de esclarecer quais possibilidades exatamente Amoris Laetitia abre aos católicos que voltaram a se casar, Francisco elogiou as diretrizes emitidas pelos bispos da Argentina em carta mais tarde confirmada como autêntica pelo Vaticano.

A missiva afirmava que os prelados argentinos haviam explicado, precisamente, o que a exortação ensinava. “Não há outras interpretações”, disse Francisco.

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