A guerra fria era melhor que esses novos muros

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12 Setembro 2017

"Um fantasma assombra o mundo, o fantasma de um novo fascismo", é o alerta de John Le Carré.

Para entender o Reino Unido, afirma o The Economist desta semana, é preciso ler os romances de espionagem britânicos. Mas o reconhecido mestre das histórias de espionagem, ele próprio um ex-espião, tem uma visão que vai além das fronteiras nacionais: talvez seus livros devam ser lidos não apenas como thriller, mas como ferramentas para interpretar uma realidade ameaçadora.

Sua obra mais recente, "A legacy of spies" (O legado dos espiões, em tradução livre), acaba de ser lançado em Londres e marca o retorno de George Smiley, o protagonista de A Toupeira e outros best-sellers do grande escritor inglês.

A crítica recebeu-o triunfalmente. Na quinta-feira à noite, o público lotou um teatro nas margens do Tamisa e dezenas de cinemas em todo o país para ouvir seu autor. E a mensagem não poderia ser mais política. "Quando começo a escrever, tenho bem claro em minha mente o que gostaria que o leitor sentisse ao terminar o livro", fala David Cornwell, 85 anos, (nome verdadeiro de Le Carré) à mesa de um gastropub em Hampstead, no bairro londrino onde vive quando não está em sua casa de campo com vista para o mar, em Cornwall, "e, neste caso, eu tinha a intenção subversiva de promover a Europa". Isto é, atacar o Brexit. Mas em sua mira, em duas horas de conversa, também estão Trump, Putin, Theresa May e o Ocidente.

A entrevista é de Enrico Franceschini, publicada por la Repubblica, 09-09-2017. A tradução de Luisa Rabolini.

Eis a entrevista. 

Em uma das últimas páginas, Smiley se pergunta: “Para o que travamos a Guerra Fria?”. E ele próprio responde: "Para a Europa". O que quis dizer?

"Que ele, e eu enquanto fazia seu mesmo trabalho e os meus colegas de então, tínhamos um idealismo subjacente: derrubar os muros em todo o continente, recriar uma Europa livre e unida. Eu queria enfatizar isso agora, quando os muros voltam a ser erguidos".

E quando aumenta a largura do Canal da Mancha. É também um livro contra o Brexit?

"Era impossível ignorar a realidade enquanto eu estava escrevendo. O Brexit causou-me consternação e vergonha. Sair do maior mercado econômico do planeta é um erro do qual nos arrependeremos amargamente".

Por que isso aconteceu?

"Por causo do que eu chamo de ‘a maldição dos vitoriosos’: o chauvinismo que deriva da convicção de ter vencido a Segunda Guerra Mundial. Enquanto a verdade é que nós, britânicos, apenas sobrevivemos à guerra, quem a ganhou foram os norte-americanos e os russos. E, além disso, o Brexit tem outras razões. Eu entendo o voto de protesto por parte dos esquecidos, os trabalhadores e ex-trabalhadores das áreas inglesas desindustrializadas. Mas eu não entendo por que ninguém na Inglaterra falou sobre os méritos da Europa unida, fora os benefícios econômicos".

No livro Smiley usa a expressão "Citzen of nowhere": é uma citação do controverso discurso de Theresa May, que após o referendo sobre a UE disse, "ou você é um cidadão de um país ou não é cidadão de lugar nenhum"?

"Certamente que sim. Palavras equivocadas e condenáveis. Mas, quem as expressa é uma classe de politiqueiros de segunda classe. Esperamos que alguém faça recuperar os sentidos à nossa nação".

O trabalhista Jeremy Corbyn?

"Eu o respeito por seus princípios, mas Corbyn é um líder de protestos, e não de governo".

Se Smiley visse o mundo de hoje, acharia que é melhor do que o da Guerra Fria?

"Não teria certeza. Não saberia o que pensar. O fim da Guerra Fria foi uma grande oportunidade estrondosamente perdida pelo Ocidente e agora estamos pagando o preço. Não houve nenhum Plano Marshall para a Rússia, que, na verdade, foi humilhada. E o resultado é uma Rússia stalinista e autocrática, uma cleptocracia".

E o que diria o seu alter ego literário sobre a América de Trump?

"Que é um país que declarou guerra contra a verdade. Que semeia ódio. Que ameaça reescrever a Constituição. O próximo passo poderia ser a queima dos livros. É o fantasma de um novo fascismo, contagioso como um vírus: não é por acaso que seus efeitos já podem ser vistos, na Polônia, na Hungria e até mesmo na Birmânia de Aung San Suu Kyi. No mundo está acontecendo algo extremamente preocupante. Lembra-me a atmosfera que levou à ascensão do fascismo na Alemanha, Itália, Espanha e Japão".

Como ex-espião e autor de ficção de espionagem, você acredita que a Rússia realmente tentou interferir nas eleições presidenciais norte-americanas?

"Eu não tenho provas, mas suponho que sim. E considero cômico que justamente os Estados Unidos protestem pelo escândalo: se há um país que tem interferido por meio século na eleição dos outros, são justamente os Estados Unidos. Em todo caso, Trump e Putin são muito parecidos, têm o mesmo desprezo pela democracia liberal: por isso gostam um do outro".

A novidade é o poder da ciberespionagem.

“O que Snowden revelou é apenas a ponta do iceberg. Estamos indo para o ponto em que será impossível manter segredos. Por isso, poder-se-ia perfeitamente incorporar a espionagem com o corpo diplomático. Mas duvido que os poderosos da terra vão me ouvir. Os espiões sempre irão existir".

The Economist sugere ler Ian Fleming, Graham Greene e você para entender a Grã-Bretanha atual: você concorda?

"Todos nós fomos espiões. E os espiões conhecem, ou pensam que conhecem, a essência da realidade”.

Incomoda você que os críticos releguem os romances de espionagem em uma categoria inferior na ficção literária?

"Há tempo deixei de ler os críticos. As resenhas negativas podem te induzir ao suicídio. As positivas fazem você acreditar que é um deus. Um sujeito em uma festa disse-me: desculpe, eu não leio seus livros, porque eu não leio romances de espionagem. Eu gostaria de ter-lhe respondido: e não lê nem mesmo Conrad, porque não lê romances de mar?".

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