Na liturgia, devemos ignorar os ultramontanistas da esquerda e da direita

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29 Agosto 2017

Esta semana, o Papa Francisco fez um importante pronunciamento sobre a liturgia, que foi atacado pelos ultramontanistas emergentes da esquerda - entre outras coisas, por não citar Bento XVI. Mas vê-lo através de vieses políticos nos faz perder de vista seu real sentido, que é um apelo ao discernimento sobre o verdadeiro sucesso da reforma litúrgica.

O artigo é de Pe. Robert Imbelli, publicado por Crux, 26-08-2017. A tradução é de Luísa Flores Somavilla.

Eis o artigo.

Em 24 de agosto, o Papa Francisco fez um importante pronunciamento aos participantes da Semana Nacional Litúrgica Italiana. Todos nós, é claro, lemos os documentos papais através de nossas próprias lentes pessoais e teológicas, buscando não apenas confirmar nossos pontos de vista, mas também desafiá-los.

É curioso, porém, notar que vários observadores que representam o ultramontanismo emergente da esquerda imediatamente criticaram esta afirmação de Francisco: "Podemos afirmar com certeza e com autoridade magisterial que a reforma litúrgica é irreversível".

[Nota: O "ultramontanismo" foi um movimento que enfatizou a autoridade papal, criado em 1870 no primeiro Concílio do Vaticano, com a declaração da infalibilidade papal, e hoje se refere aos católicos que acentuam o primado do papa e do Vaticano sobre as igrejas locais.]

Um observador parecia inclusive apreciar o fato de que, entre as autoridades citadas nas notas de rodapé do documento, não tenha sido feita nenhuma referência a Bento XVI, colocando, assim, uma autoridade magistral contra a outra, de forma implícita e leviana.

Temo que, mais uma vez, em nosso sempre polarizado estado, deixemos deixar de abordar as questões teológicas-pastorais cruciais que o pronunciamento do papa nos apresenta.

Uma coisa é os liturgistas solenemente entoarem o desejo fervoroso da Constituição sobre a Sagrada Liturgia, Sacrosanctum Concilium (reproduzida pelo papa Francisco), do Vaticano II, de "que os fiéis não atuem como estranhos ou espectadores mudos do mistério da fé, mas, entendendo-o por meio dos ritos e orações, participem da ação sagrada de forma consciente, piedosa e ativa".

Outra coisa é ir além das noções abstratas e os chavões para a experiência real, como menciona o papa no pronunciamento.

Precisamos nos questionar de forma concreta até que ponto a reforma da liturgia foi positiva em conduzir os sacerdotes e as pessoas a uma compreensão mais completa e a uma apropriação pessoal ativa do "mistério da fé" que a liturgia celebra. Ainda mais concretamente, até que ponto estamos conscientes, na liturgia dominical, daquilo que o papa identifica como a realidade fundamental e determinante da celebração litúrgica: a presença viva do Senhor ressuscitado?

Segundo Francisco, "a liturgia é 'viva' por causa da presença viva daquele que 'ao morrer destruiu a morte e o nascimento e nos trouxe à vida novamente". Sem a presença real do mistério de Cristo, não há vitalidade litúrgica. "Assim como sem pulsação não há vida humana, sem o coração pulsante de Cristo não há ação litúrgica".

Será que, ao deixar a igreja, os participantes da típica missa de domingo da paróquia expressariam o que acabaram de celebrar dessa forma? Encontraram o Cristo vivo e se comprometeram a seguir a mente e o coração de Cristo?

Resumindo: até que ponto as liturgias são cristologicamente vitais?

Além disso, na frequente auto seleção das comunidades, quantos de nós realmente endossa o que o papa proclama com autoridade magistral: "o escopo 'popular' da liturgia nos lembra que ela é inclusiva e não exclusiva, promovendo a comunhão com todos, sem os homogeneizar, porque cada um é chamado, com sua vocação e originalidade, a contribuir na construção do Corpo de Cristo"?

Ou, pelo contrário, será que insistimos em exercitar nossa preferência por comunidades "homogeneizadas" - constituídas por aqueles que pensam, falam e se parecem conosco?

Por fim, até que ponto realmente apreciamos (ou até compreendemos) a recomendação do papa da "catequese mistagógica praticada pelos padres"?

Celebrar a liturgia, afirma Francisco, "é realmente entrar no mistério de Deus; deixar-se conduzir ao mistério e estar no mistério". E, embora o papa não tenha comentado explicitamente dessa vez, ele já falou da importância crucial do silêncio contemplativo para isso. Também atacou o que o Prefeito da Congregação para o Culto Divino provocativamente chamou de "ditadura do barulho".

Nesse âmbito, bastaria reler o capítulo seis da encíclica de Francisco, Laudato si'. O título do esplêndido capítulo é "Educação e espiritualidade ecológicas". Ele defende a promoção de um olhar contemplativo em meio à poluição sonora da cultura contemporânea.

O papa questiona: "a natureza está cheia de palavras de amor; mas, como poderemos ouvi-las no meio do ruído constante, da distração permanente e ansiosa, ou do culto da notoriedade?".

Infelizmente, muitos de nós não percebemos esse "ruído constante" ou as "distrações ansiosas" na porta da Igreja, ao corrermos para a liturgia, muitas vezes chegando atrasados e perdendo o pedido desesperado para "desligar os celulares!".

Em uma de suas últimas falas catequéticas, o papa emérito Bento XVI abordou um tema muito caro para seu coração - a liturgia. Ele disse: "A liturgia não é a lembrança de eventos passados, mas a presença viva do Mistério Pascoal de Cristo que transcende e une épocas e lugares".

"Se, na celebração, a centralidade de Cristo não surgisse, não teríamos uma liturgia cristã, que depende totalmente do Senhor e se apoia em sua presença criativa. Deus age através de Cristo e nós só podemos agir Nele e através Dele. Devemos estar cada vez mais convictos de que a liturgia não é um ato meu ou nosso, mas uma ação de Deus em nós e conosco", escreveu Bento XVI.

Talvez Francisco não tenha citado o nome de Bento XVI na quinta-feira, mas sua fala reflete profundamente a convicção beneditina.

Que os ultramontanistas da direita e da esquerda fiquem atentos ao discernimento magisterial cristológico de Bento e Francisco. Que sacerdotes e pregadores, ministros e músicos litúrgicos, estejam permeados por essas sensibilidades e aptidão mistagógicas que podem evocar e elucidar o único Mistério Pascal, quer celebrado em latim ou em inglês, ad orientem ou versus populum.

O que está em jogo é nada menos que o verdadeiro espírito da liturgia.

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