"Será necessário aprender a conviver com o terrorismo"

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22 Agosto 2017

Contrariamente ao que se poderia supor em um primeiro momento, devido à metodologia empregada - um carro atropelando a multidão em uma região central de uma cidade europeia -, o atentado de Barcelona não é produto de um lobo solitário, mas, ao contrário, de uma célula que remete aos atentados de Paris, do dia 13 de novembro de 2015, e ao do aeroporto de Bruxelas em março de 2016. O modo de operar dos terroristas é uma cópia do “sistema inicial empregado no dia 14 de julho de 2016, em Nice, pelo tunisiano Mohamed Lahouaiej Bouhlel e reiterado, depois, em Berlim, Londres e Estocolmo.

A reportagem é de Eduardo Febbro, publicada por Página/12, 20-08-2017. A tradução é do Cepat.

O chamado terrorista low cost, que se serve apenas de um veículo para provocar o maior número de vítimas possíveis em áreas de alta concentração turística, agora, golpeou a Espanha, mas sua arquitetura polifônica confirma o que vários especialistas vêm anunciando há vários anos: a Espanha é uma das retaguardas dos jihadistas do Estado Islâmico. Os caminhões ou carros assassinos de Nice, Londres, Berlim e Estocolmo correspondiam a iniciativas de simpatizantes isolados que, sem ordens centrais, sozinhos, decidiam passar à ação e aplicar o lema global ditado pelo porta-voz e estrategista do Estado Islâmico, Abou Mohamed Al-Adnani, morto há um ano no Norte da Síria, durante o ataque de um drone norte-americano.

Em Barcelona, não. Como em Paris, em 2015, ou em Bruxelas, em 2016, tratou-se de uma célula adormecida, mas perfeitamente treinada e coordenada. Já em 2015, o historiador e especialista em movimentos jihadistas, Jean-Pierre Filliu, recordava o fato de que “os dois principais focos de propaganda, inclusive de recrutamento, são por um lado a Catalunha e, por outro, as cidades de Ceuta e Melilla” – ambas situadas em território marroquino.

Para este especialista, a Espanha sempre foi como uma espécie de “elo” dos atentados cometidos na Europa nos últimos anos. Dado importante: o francês Ayoub El-Khazzani, autor do fracassado atentado em um trem Thalys, ou Amedy Coulibaly, o terrorista que atacou o supermercado judeu do Leste de Paris, quase de forma simultânea ao atentado contra o semanário satírico Charlie Hebdo, passaram um tempo na Espanha. Em junho passado, a CIA evocou a possibilidade de que Barcelona pudesse ser alvo de um atentado. A maioria dos especialistas concordam em destacar que Barcelona não é apenas um “foco” do jihadismo espanhol, mas também uma espécie de base onde as redes jihadistas se reorganizam segundo o fluxo que vai e vem da Síria ou Iraque.

Com mais de 700 pessoas presas desde 2004 e outras tantas expulsas do país, os serviços de inteligência espanhóis eram, muitas vezes, citados como exemplo desde que, no dia 11 de março de 2004, um grupo ligado à Al-Qaeda perpetrou o atentado mais mortífero da história europeia (192 mortos). Desde aquele momento, a inteligência espanhola reorientou seu trabalho: o grupo ETA deixou de ser a prioridade em prol de um aplicado trabalho entre os meios jihadistas. Com apenas 150 combatentes espanhóis alistados nas filas dos Estado Islâmico na Síria e no Iraque (uns 30 morreram e outros 25 retornaram, contra 200 mortos franceses), a Espanha é um dos países europeus que apresenta uma das mais baixas adesões ao grupo sunita radical.

Segundo um relatório apresentado em dezembro de 2016 por Gilles de Kerchove, o coordenador europeu da luta contra o terrorismo, havia cerca de 2.500 combatentes europeus no seio do Estado Islâmico, dos quais entre “15 e 20” morreram nos combates na Síria e Iraque, entre 30 e 35% retornaram a seus países de origem e 50% continuam nas regiões controladas pelo Estado Islâmico”. Kerchove ressaltou o quebra-cabeça que os combatentes que retornavam ao Velho Continente representavam, pois, longe de romper seus laços com o califado, “permaneciam em contato com o Estado Islâmico através de contas particulares nas redes sociais”.

Assim como o que aconteceu com a Bélgica e seus grupos ativos que passaram sob todos os radares das polícias belgas e europeias e puderam ensanguentar a Europa, o problema espanhol, ou a peça frágil, parece se situar nos encraves de Ceuta e Melilla e nas altas porcentagens de marroquinos que lutam na Síria e Iraque junto ao Estado Islâmico (uns 1.500).

Se a explosão acidental em Alcanar, às vésperas do atentado em Las Ramblas, pareceu evitar um drama humano maior, isso prova, não obstante, o enraizamento e a preparação antecipada dos terroristas. Como a equipe que atentou, em novembro de 2015, contra o Estádio da França, os bares dos distritos 10 e 11 de Paris e o teatro Le Bataclan, não se trata, aqui, de um solitário desconhecido radicalizado por razões misteriosas, mas, ao contrário, de uma operação preparada de antemão e armada por uma célula de ao menos 12 pessoas, mais um Imã da localidade de Ripoll, Abdelbaki Es Satty, atualmente, foragido e considerado o cérebro do ataque terrorista. Também eram de Ripoll os irmãos Driss e Moussa Oukabirm Mohammed Hychami e Younes Abouyaaqoub (dele se suspeita que conduzia o veículo que circulou por Las Ramblas de Barcelona).

Três anos após o surgimento público do Estado Islâmico, através da faiscante ofensiva de junho de 2014 lançada nos territórios da Síria e Iraque, o grupo conserva um poder de propagação e de destruição intacto, apesar das partes de vitória regularmente publicadas pela coalizão internacional que o combate na Síria e no Iraque.

A intervenção norte-americana no Iraque, no ano de 2003, a queda do falecido presidente Saddam Hussein e a descabelada decisão de desmantelar a polícia iraquiana, o Exército iraquiano e o Partido Baas desembocaram, em 2006, no nascimento do Estado Islâmico, que ultrapassou a Al-Qaeda na Mesopotâmia. A segunda intervenção norte-americana no Iraque ativou a bomba relógio que há vários anos açoita o Ocidente. Wassim Nasr, jornalista do canal France24 e especialista em Estado Islâmico (autor do livro L’Etat islamique, le fait accompli), comenta que estes atos terroristas “são um meio de fragilizar os Estados democráticos, de influenciar as opiniões públicas e de realizar uma guerra desgastante” (Le Nouvel Observateur).

Segundo Nasr, este terrorismo corresponde à “ideologia do jihadista transnacional inventada pela Al-Qaeda e retomada pelo Estado Islâmico. É, hoje, a única ideologia revolucionária no mercado das ideologias. Sua força reside no fato de que é ao mesmo tempo contestatória e modulável a todas as formas de organizações sociais transnacionais e trans-étnicas”. As bombas que continuam caindo no Iraque e na Síria ou o trabalho dos serviços de inteligência não bastam para frear sua expansão. A este respeito, Wassim Nasr argumenta que, “hoje, os efeitos da crise econômica, o vazio ideológico ligado ao desencanto mundial e o êxito da propaganda do Estado Islâmico permitiram uma exploração mais eficaz desta ideologia. O jihadismo é, de agora em diante, um fenômeno mundial e transnacional. Será necessário aprender a conviver com ele”.

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