"Sinto não poder reparar o irreparável", diz ex-militante do ETA

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05 Novembro 2015

Carmen Guisasola (nascida em Markina, Biscaia, em 1958) entrou no ETA em sua juventude, durante a Transição Espanhola para a Democracia – período entre 1975 e 1982, que sucedeu a ditadura de Fernando Franco. Logo passou à clandestinidade e, segundo a polícia, alcançou posições de responsabilidade na direção do bando terrorista.

Detida na França em 1990 e condenada por vários assassinatos, foi expulsa do ETA em 1998, estando na prisão, por questionar a atividade terrorista. Foi pioneira da via Nanclares de reinserção dos prisioneiros em 2008. Saiu da prisão em 2014, depois de cumprir 24 anos entre as grades.

Guisasola narra a "El País" sua evolução no ETA, de militante a dissidente. E pede à esquerda "abertzale" [nacionalista basca] que assuma responsabilidades políticas por sua cumplicidade na atividade do ETA.

A entrevista é de Luis R. Aizpeolea, publicada por El País, 04-11-2015.

Eis a entrevista.

Como uma pessoa como a senhora entrou para o ETA durante a Transição?

Na minha juventude, no ambiente em que eu vivia, era bastante normal entrar no ETA.

Por quê?

Depois da Guerra Civil, o franquismo causou um medo tremendo. O ETA era a nova resistência e um atrativo para a juventude. Diziam-nos que alcançaríamos a independência e o socialismo. Movíamo-nos em um esquema simples, pensando que a revolução estava a nosso alcance.

Sim. Mas daí a matar...

Havia um movimento revolucionário, guerrilheiro, em escala mundial. Funcionava o lema "o povo armado jamais será arrasado". A luta armada para a libertação dos povos não era malvista. Hoje em dia o respeito aos direitos humanos e o direito à vida são inquestionáveis. Houve uma enorme mudança cultural.

Quando a senhora se afastou do ETA?

Expulsaram-me em 1998, por escrever uma carta pública com outros companheiros em uma prisão da França. Eram os tempos do Pacto de Lizarra e das negociações com o governo de Aznar.

O que dizia a carta?

Que o ETA não havia se sentado para dialogar com uma reflexão séria como na Irlanda, de deixar a luta armada e passar à política. Além disso, a "kale borroka" [violência de rua] reapareceu com mais força. Enviamos a carta à direção e não nos respondeu; a publicamos e nos expulsaram por indisciplina.

Como a senhora chegou a ser crítica do ETA? Qual foi sua evolução?

Foi um processo lento. Comecei com a crítica política e depois cheguei à crítica ética. Comecei duvidando da validade da luta armada. Vi que a democracia se assentava no Estado espanhol e que não havia lugar para ela. Antes de passar à clandestinidade, já havia percebido que pessoas significativas que animavam a luta armada não se comprometiam com ela.

Como viveu o ETA na clandestinidade?

Conheci o ETA por dentro e o mito se esfumou. As pessoas pensavam que o ETA fosse uma coisa grande, e era o contrário. O Estado era muito mais forte. O fracasso das conversações de Argel em 1989 foi um ponto de inflexão. Pessoas que votavam na esquerda "abertzale" começaram a fechar as portas para nós, e ficamos mais vulneráveis à polícia. Até que me detiveram.

Em que medida a prisão influiu em seu afastamento do ETA?

Quando me detiveram na França, encontrei na prisão uma militante do IRA, que me transmitiu que já questionavam a via violenta. Com outra, das Brigadas Vermelhas da Itália, confirmei o que vi no ETA, que a disciplina era o valor absoluto. As opiniões não contam. Ali acompanhei a catástrofe da estratégia de socialização do sofrimento no ETA, em meados dos anos 90. Abriram-se brechas enormes na sociedade. E logo começaram as ilegalizações.

A senhora disse que depois da reflexão política veio a ética.

Quando fazíamos os atentados, estávamos conscientes de que causávamos danos. Por isso os fazíamos. Eu não queria pensar nas consequências. Mas houve um atentado que me afetou especialmente.

Qual?

O atentado contra Irene Villa. Estava na prisão e uma amiga madrilenha me disse que não entendia que tivessem feito aquela barbaridade com uma menina da idade de seu filho. Isso me afetou. Nessa época li Malraux, combatente pela República Espanhola, que dizia que nenhuma ideia valia mais que a vida de uma pessoa. Compreendi que gente de primeira não brincava com o sofrimento alheio.

O que diria a uma vítima do ETA? 

Que lamento não poder voltar atrás para que não tivesse acontecido. Sinto não poder reparar o irreparável. Mas temos que dizer às gerações mais jovens que os autores das autênticas burrices não éramos monstros, mas gente normal que estava em um turbilhão louco e abduzida pela ideia de que a revolução dependia de nós.

A senhora foi pioneira da via Nanclares em 2008.

Depois do fracasso das conversações de Loiola em 2006, e ao saber que o ETA continuava com a violência, o governo socialista nos ofereceu uma saída condicionada ao abandono da luta armada, ao reconhecimento do dano causado pela deslegitimação da violência para alcançar objetivos políticos. Sabíamos que haveria outra oportunidade.

Para que serviu a via Nanclares?

É difícil para mim avaliá-la, porque é uma pena que este governo não a siga. Mas foi positiva. Quero ressaltar a reflexão crítica que fizemos e os passos dados em prol da convivência pelo grupo denominado Presos Comprometidos com o Irreversível Processo de Paz.

A senhora passou 24 anos na prisão e saiu há um ano. Que mudanças percebeu?

A sociedade virou a página e tem outros problemas. Para os jovens de hoje, o ETA representa o que foi para mim a Guerra Civil. A juventude rejeita totalmente o uso da violência para alcançar fins políticos. É um fenômeno mundial. Existe maior sensibilidade em relação aos direitos humanos.

Já se adaptou à vida normal?

Não tenho problemas para estar com as pessoas. Minha vida foi desordenada, começando do zero. Não é fácil. Mas é o que quero e me sinto forte.

Como foi recebida em sua cidade?

Bem. Os principais problemas eu tive na prisão, quando rompi com o coletivo de presos do ETA. Fizeram pichações em minha cidade.

Há mais de um ano o coletivo de presos do ETA anunciou que assumia a legalidade penitenciária. Mas não se fez nada. De quem é a responsabilidade?

Os presos estão à espera das diretrizes de fora. É difícil interiorizar que sua saída será pela via legal, quando lhe disseram que sairia por uma negociação. A esquerda basca tem que manter as rédeas pela responsabilidade política que lhe cabe. Eles aceitaram a legalidade em seus estatutos para voltar às instituições. Os presos também têm que assumir a legalidade, e a esquerda "abertzale" tem que se comprometer.

A senhora acredita que a esquerda "abertzale" reconhecerá sua cumplicidade pelos danos causados pelo ETA?

O sofrimento que causamos foi reconhecido. Temos que admitir que foi injusto. Está pendente na esquerda "abertzale" e no ETA. A esquerda deve assumir responsabilidades políticas. Nem tudo acaba com os autores materiais. Houve gente que teorizou sobre a luta armada, mas escudando-se em não praticá-la, e hoje está sentada em cargos relevantes. E agora não será responsável? Nem quem passou informação? Vão abandonar os presos a sua sorte?

Que consequências teria se não assumissem responsabilidades?

As vítimas ficarão decepcionadas porque verão que os presos saem e são bem recebidos em suas cidades. E os parentes dos presos que continuam na prisão responsabilizarão as vítimas pela situação de seus familiares.

A senhora não acredita que o ETA tem mais responsabilidade que a violência parapolicial pelo apoio político que teve?

A violação dos direitos humanos é a mesma, seja ETA ou GAL [Grupos Antiterroritas de Liberação, organização parapolicial que combatia o ETA]. Mas o ETA criou grande sofrimento ao ter muito apoio político. Por isso estendo a responsabilidade à esquerda "abertzale". Mas o PSOE [Partido Socialista Operário Espanhol] tampouco tem as mãos limpas em relação ao GAL. Hoje o ETA representa nada. Eu pediria seu desaparecimento. Beneficiaria os presos.

Como a senhora se vê?

Olho para trás e reconheço que o que fiz foi errado. Esse olhar eu não tive na época. Infelizmente, aconteceu, e não se pode mudar o que aconteceu. Daqui a alguns anos todos pensaremos, menos algum idiota, que nunca deveria ter existido violência em Euskadi [País Basco].

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