Santiago Carrillo, o ícone da Transição Espanhola

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Por: Jonas | 21 Setembro 2012

O dirigente do Partido Comunista se dedicou desde muito jovem na defesa de Madri, em plena batalha pela capital, em 1936. Foi um dos principais atores da transição para a democracia e um personagem do comunismo europeu.

A reportagem é publicada pelo jornal Página/12, 19-09-2012. A tradução é do Cepat.

Santiago Carrillo (em pé, na foto), o mítico político espanhol, faleceu em sua casa (18/09), aos 97 anos, enquanto dormia a sesta, segundo informou sua família. Na última semana, o estado de saúde do ex-secretário geral do Partido Comunista Espanhol (PCE) havia piorado.

Após a morte do ditador Francisco Franco, em 1975, Carrillo foi um dos principais atores da transição da Espanha para a democracia, e um personagem histórico do comunismo europeu. Afastado da cena política desde 1991, dedicou seus últimos anos para dar conferências e escrever livros, entre eles suas memórias. Também passou a comentar a atualidade política espanhola, na imprensa peninsular. “Sinto-me bem sendo um franco-atirador independente, porque tenho uma liberdade de movimento que não tinha quando era dirigente de um partido tão disciplinado como o comunista”, confessou em 2008, durante uma entrevista.

Ele nasceu em 18 de janeiro de 1915, em Gijón, Astúrias. Filho de um dirigente do Partido Socialista Operário Espanhol (PSOE), ao estourar a Guerra Civil Espanhola decidiu abandonar esse quadro para entrar no PCE, integrando rapidamente seu escritório político e seu Comitê Central. Como jovem republicano responsável, dedicou-se na defesa de Madri, em plena batalha pela capital espanhola, em 1936. No entanto, durante toda a sua vida foi criticado pela matança de muitos prisioneiros franquistas, na localidade madrilena de Paracuellos del Jarama. Carrillo nunca deixou de justificar esse episódio, reconhecendo a única responsabilidade de não contar com um exército seriamente organizado para impedir que “grupos incontroláveis” de republicanos atacassem o comboio de prisioneiros.

De olhar vivo, tamisado por óculos de vidros grossos e com seu eterno cigarro, após a derrota republicana, iniciou um longo exílio de 38 anos, que o levou para os Estados Unidos, União Soviética, Argentina, México e Argélia, antes de se estabelecer definitivamente em Paris, em 1944. Durante sua estadia em Buenos Aires, começou a estabelecer laços com os comunistas que tinham permanecido na Espanha, reorganizando o partido na clandestinidade.

Contudo, foi em 1946, ao tornar-se um protegido de Dolores Ibárruri, a histórica Pasionaria, que começou sua meteórica ascensão no PCE. Sua consagração definitiva veio em 1960, no VI Congresso do PCE, em que Ibárruri foi eleita presidenta da formação e Carrillo passou a ocupar a secretaria geral, cargo no qual ficaria durante 22 anos.

O novo secretário geral do PCE mostrou-se muito crítico em relação à União Soviética, cuja invasão da Checoslováquia, em 1968, condenou contundentemente: “O que havia na União Soviética de Stalin não era comunismo, era um capitalismo de Estado, burocrático, ditatorial”, afirmou há alguns anos. Assim, Carrillo começou a defender sua ideia do “eurocomunismo”, defendendo que cada país encontrasse sua própria via, ao mesmo tempo em que buscava um pacto com todas as forças antifranquistas, na Espanha. “O problema espanhol só podia ser resolvido por meio de um acordo entre forças da direita e da esquerda, para estabelecer um sistema democrático que contemplasse todos”, tinha afirmado.

Em 1976, com o Partido Comunista ainda ilegal, protagonizou um dos episódios mais famosos da transição espanhola, entrando no país clandestinamente com uma peruca, dando, em seguida, uma coletiva de imprensa que o levou a dez dias de detenção. Em 1977, o PCE foi legalizado. Nas eleições daquele mesmo ano, Carrillo foi eleito deputado e se tornou uma das personalidades que participaram na elaboração da Constituição de 1978.

Porém, as tensões entre as diferentes tendências dentro do PCE e a perda de votos nas eleições de 1982 – vencidas pelos socialistas de Felipe González – provocaram sua demissão em novembro do mesmo ano. Em seguida, sua batalha com a nova tendência renovadora dentro do partido, fez com que fosse expulso do PCE, em 1985. Criou, então, um novo partido com o qual, em 1986 e 1989, apresentou-se nas eleições gerais e nas europeias sem conseguir sair eleito. A partir de 1991, desaparece praticamente da cena política para se dedicar a escrever livros. Carrillo viveu intensos momentos da história recente espanhola, como o falido golpe de Estado, no dia 23 de fevereiro de 1981, liderado por Antonio Tejero, tenente coronel da Guarda Civil.

Devido a sua reação diante da intentona golpista, é lembrado em toda a Espanha – e em boa parte da Europa – como um dos três políticos, junto ao então presidente do governo, Adolfo Suárez, e ao vice-presidente, o general Gutiérrez Mellado, que não se alteraram e permaneceram sentados em suas cadeiras, desobedecendo às ordens vindas do tenente coronel Tejero aos deputados, para que se deitassem no chão do Parlamento após a investida.

Seu velório será na sede do sindicato Comissões Operárias (CCOO), perto do Congresso dos Deputados, e suas cinzas serão lançadas no mar Cantábrico, na costa asturiana onde nasceu, segundo revelaram seus filhos, e de acordo com o que era o seu desejo. O presidente do governo e líder do Partido Popular, Mariano Rajoy, enviou um telegrama em que assinala: “O destacado papel que desempenhou durante a transição e sua contribuição à ordem constitucional, o novo marco de convivência e a um futuro comum, sem abandonar suas profundas convicções, perdurarão como referência para a política espanhola”.

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