Um manifesto cristão para a sobrevivência em tempos sombrios

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16 Agosto 2017

“O nosso papel a desempenhar significa falar a verdade ao poder instituído e arriscar as nossas vidas, como fizeram inúmeros líderes religiosos corajosos na semana que passou”, escreve Christine Schenk, irmã religiosa da Congregação de São José, em artigo publicado por National Catholic Reporter, 15-08-2017. A tradução é de Isaque Gomes Correa.

Christine Schenk trabalhou junto a famílias carentes por 18 anos como parteira antes de fundar a ONG FutureChurch, onde atuou por 23 anos. Schenk possui mestrados em enfermagem e em teologia.

Eis o texto.

É verdade, eu não venho escrevendo muito ultimamente. Talvez por ter operado o joelho em junho, seguido de semanas intensas e bem-sucedidas de reabilitação. As minhas energias se ocuparam a assistir reprises que passavam nos canais de tevê a cabo, e nada mais.

Internamente me senti “plana” e perdi o sentido silencioso de Deus dentro de mim. Isso é doloroso, visto que tendo a focalizar em tudo o que há de errado em minha pessoa, na política americana e com o universo. Talvez tenha sido resultado da anestesia que me aplicaram, mas suspeito que haja algo mais.

Com mais tempo para refletir, me vi diante da difícil questão “Afinal, onde está Deus?” na caricatura política atual que aflige os pobres e os que trabalham pelo bem comum. Os imigrantes, os refugiados, os necessitados de assistência médica, minorias religiosas e raciais, o meio ambiente, a comunidade LGBT, todos estão sob ataque de um congresso republicano e de uma Casa Branca ocupada por Donald Trump.

Sei que não estou sozinha. Depois de inicialmente sucumbir à desesperança e postar sua angústia no Facebook, um político experiente, bem-respeitado de Cleveland, criou um grupo novo chamado “The Fearless Loyal Opposition” (A oposição leal destemida). Os participantes frequentemente postam sobre o quão desanimados estão em torno do aparente fracasso dos empreendimentos políticos progressistas.

Assistir ao noticiário televisivo de modo incessante não ajuda. Aos poucos isso pode levar a um afastamento da energia divina que a minha experiência de fé me diz estar sempre em vigência, mesmo em meio ao abandono, seja pessoal, seja político.

Ao mesmo tempo em que trazem informações e análises necessárias, o noticiário também pode alimentar a presunção de que conhecimento, por si só, basta para enfrentar a crise atual.

Então, o que fazer? Para mim, somente a convicção renovada de que pertenço a Deus – e uma cessação de negação interna – conseguiu me trazer certa paz.

Isso e um rezar sobre tudo o que se passa.

Assim, em meu diário, no dia 28 de julho, postei isto:

Na noite passada, antes de ir para a cama, rezei a minha “oração dos vulneráveis” em nome dos milhões que perderiam a assistência à saúde caso a chamada “revogação mágica” passasse no Senado, como era esperado. Eu quis permanecer acordada para ver a votação, mas tive um compromisso anterior e não foi possível.

A minha “oração dos vulneráveis” significa que lembro que eu/os pobres estamos indefesos diante do mal, diante da opressão dos poderosos. E, assim, é importante lançarmo-nos para dentro da misericórdia infinita de Deus, sabendo que somos incapazes de vencer e, portanto, estamos diante de um trabalho que cabe a Deus realizar. Eu a acho extremamente útil em meus próprios estados frágeis: de alguma forma ela me alivia do peso da responsabilidade.

Enquanto me preparava para dormir, me ocorreu que John McCain facilmente poderia ser o terceiro voto “não” republicano. Ele é um homem de princípios, que estava claramente desgostoso com o processo corrupto, egoísta por detrás da proposta legislativa. Acordei com dores no joelho duas horas depois – bem na hora em que McCain votava “não”. Chorei. E choro agora ao pensar sobre isto: o nosso Deus ouve o clamor dos pobres.

Se não acreditasse em um Deus que está ao lado dos empobrecidos – seja em termos materiais, seja em termos espirituais –, eu permaneceria em um estado permanente de ceticismo e desespero.

Cada um de nós é parte da energia-Deus a atuar no mundo. Ele é o amor-energia do qual sentimos fome, e em que “vivemos, nos movemos e temos o nosso ser”, muito embora possamos chamá-lo de um outro nome.

O nosso ativismo, o nosso “ficar informado”, o nosso trabalho pela justiça e paz – “na terra bem como no céu” – é parte indispensável dessa equação.

Porém esta parte não está sozinha.

A outra parte é o reconhecimento de sermos incapazes de vencer as forças do mal – sejam as forças em nós mesmos, sejam as forças em nosso país –, mas Deus não. Desse modo, devemos repousar e aguardar o vento do Espírito para nos ajudar ver o que nos cabe fazer – e o que não nos cabe fazer. E, daí então, precisamos seguir em frente. Para mim, esta segunda parte é especialmente significativa. O meu complexo de messias vai às vezes me culpar por acreditar que é de minha responsabilidade salvar o mundo.

Não é. Isso pertence a um Deus que é amor infinito e incompreensível.

Um Deus que ama Donald Trump, Mitch McConnell, Nancy Pelosi e Hillary Clinton. (Mencionei “incompreensível”, não mencionei?)

Compartilho estas palavras por que duvido ser eu a única ativista que se sente desanimada bem como odiosa para com os meus opositores políticos.

Quando bate o desespero, é bom lembrar que a nossa responsabilidade é abrigar o Deus-amor até que nos seja mostrado o papel que cabe a nós desempenhar na construção do Reino de Deus.

Ao escrever este artigo, fiquei sabendo da violência e morte sofrida por aqueles que protestavam contra a marcha racista, antissemita e de supremacia branca em Charlottesville, no estado de Virgínia, semana passada. Assisti o nosso presidente despistar-se quanto a esse comportamento desprezível, dizendo se tratar de uma atitude negativa “de vários lados”.

O senador republicano Cory Gardner prontamente tuitou esta resposta desafiadora: “Senhor Presidente, devemos chamar o mal pelo nome. Estas pessoas eram supremacistas brancos e este ato foi terrorismo doméstico”.

Às vezes, o nosso papel a desempenhar significa falar a verdade ao poder instituído e arriscar as nossas vidas, como fizeram inúmeros líderes religiosos corajosos na semana que passou.

E talvez então – Trump e companhia – o novo Reino de Deus, um reino de justiça e paz, por fim, irá raiar.

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