Cardeal Schönborn: a teologia moral precisa de princípios e de prudência

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18 Julho 2017

O Papa Francisco declarou o cardeal-arcebispo de Viena, Christoph Schönborn, como o “intérprete oficial” de Amoris Laetitia, documento papal sobre o matrimônio e a família. Schönborn passou horas explicando-o durante uma visita à Irlanda semana passada.

A reportagem é de Austen Ivereigh, publicada por Crux, 15-07-2017. A tradução é de Isaque Gomes Correa.

Quando o cardeal-arcebispo de Viena, Christoph Schönborn, passou a tarde de quinta-feira no oeste da Irlanda falando sobre Amoris Laetitia em duas palestras e uma sessão de perguntas e respostas – no total, somando mais de quatro horas –, tivemos uma imersão fascinante para dentro do pensamento por trás deste documento papal, além da oportunidade de estar próximo a uma das figuras centrais no seio da Igreja contemporânea.

A Igreja irlandesa está prestes a começar um ano de preparação para o Encontro Mundial das Famílias, a ocorrer em agosto de 2018, no qual o papa quer as famílias tenham a oportunidade de refletir sobre – e debater – Amoris Laetitia. Isso explica o convite ao cardeal-arcebispo de Viena, intérprete oficial desta exortação, a quem Francisco encarregou a tarefa de apresentar o seu texto à imprensa quando do seu lançamento, em abril de 2016.

Entre os presentes no “Mary I”, como é conhecido o Universidade de Maria Imaculada, em Limerick, na Irlanda, esteve o secretário-geral do Encontro Mundial das Famílias, o Pe. Timothy Bartlett, bem como bispos, agentes pastorais e religiosos que atuam com as famílias no país. Schönborn revelou que, quando se reuniu com o papa brevemente após a apresentação de Amoris Laetitia, Francisco o agradeceu e perguntou se o seu documento era ortodoxo.

“Eu disse: ‘Santo Padre, ele é plenamente ortodoxo’”, contou Schönborn, acrescentando que poucos dias depois recebeu de Francisco uma pequena nota em que se lia:

“Obrigado por aquelas palavras. Elas me confortaram”.

Anedotas como esta, trazidas durante as palestras, expõem a proximidade do arcebispo de Viena com o Papa Francisco, relação que remonta à década de 1990, quando se conheceram em Buenos Aires em uma visita a um ramo das irmãs dominicanas da região.

A paixão de Schönborn por Amoris Laetitia e sua admiração pelo que Francisco está buscando alcançar com o documento brilha intensamente.

A confiança mútua – chegando ao ponto de o papa consultar Schönborn como uma espécie de barômetro da ortodoxia de Amoris Laetitia – contrasta com a desconfiança clara do papa ao ex-prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, o Cardeal Gerhard Müller, cuja saída deste dicastério dominou as manchetes nas últimas semanas.

Francisco herdou Müller de Bento XVI, liberando-o de seu cargo assim que seu mandato de cinco anos expirou. Numa série de entrevistas em que se mostrou indignado, Müller criticou Francisco ao mesmo tempo em que afirmava que as tentativas de Schönborn em esclarecer Amoris Laetitia eram “não convincentes” e que somente ele tinha a “competência” para agir como uma ponte entre os dois lados.

Schönborn é também, evidentemente, uma pessoa de confiança de Bento XVI, sendo seu ex-aluno e amigo próximo. Schönborn foi o editor-geral do Catecismo da Igreja Católica, lançado 25 anos atrás sob a supervisão do então Cardeal Joseph Ratzinger.

Ao explicar, no evento acadêmico, como Amoris Laetitia fluía a partir da exortação de 1980 sobre a família, de João Paulo II, chamada Familiaris Consortio – a qual falava da obrigação de distinguir situações diferentes entre os divorciados e recasados –, Schönborn afirmou que havia sugerido a Bento XVI que os dois documentos formavam um “díptico”, ou seja, duas tábuas articuladas por dobradiças.

Segundo informou Schönborn, o papa emérito concordou com essa proposição, mas não com a seguinte sugestão: de que onde a primeira era platônica, e a segunda era aristotélica.

Schönborn não contornou a polêmica a respeito das “dubia” dos quatro cardeais eméritos que desafiam o papa, dando algumas de suas respostas mais diretas sobre o tema até o momento.

Ele claramente está incomodado com este comportamento.

“A questão dessas ‘dubia’ é, para mim, principalmente uma questão procedimental”, disse durante uma coletiva de imprensa antes das palestras na câmara da Catedral de Limerick. “O fato de estes quatro cardeais, que deveriam ser os colaboradores mais próximos do papa, estarem forçando-o a dar uma resposta pública à carta publicizada por eles demonstra um comportamento absolutamente inconveniente. Sinto ter que dizer isso. Se querem ter uma audiência com o papa, então peçam uma audiência, mas não publiquem que solicitaram uma audiência”.

Sobre a recepção confusa de Amoris Laetitia, Schönborn disse que não ficou surpreso em ver os bispos discordando “porque a recepção de um documento importante leva tempo”. Apontando para o documento do Concílio Vaticano II sobre as religiões, Nostra Aetate, falou que 50 anos mais tarde “ele ainda está sob debate e não nos deu uma solução para todas as coisas”.

Declarou que o processo de recepção do ensino iria inevitavelmente ser longo porém “frutífero”, se envolver discussão e “negociação”.

A dificuldade de se captar o conteúdo de Amoris Laetitia, explicou o cardeal, era a tendência em clivar entre posições rigoristas ou laxistas que se afastam da realidade e apegam-se unicamente aos princípios.

Em carta enviada a um dos cardeais dissidentes, Schönborn explicou ser evidente que Amoris Laetitia mantém o ensinamento constante da Igreja segundo o qual um casamento válido é indissolúvel, mas “esta resposta não é uma resposta para todos os casos e situações particulares que lidamos na vida cotidiana”.

“Muito mais difícil é o discernimento”, falou, “porque temos de olhar de perto, sim, à luz dos princípios, mas também temos de olhar para a realidade, onde as pessoas se encontram, que o drama levou à separação, a uma nova união, e assim por diante”.

Schönborn aprofundou este tema em sua palestra, intitulada “A teologia moral em dois pilares: princípios e passos prudenciais para aplicá-los à realidade”.

É o que os pais têm de fazer ao educar os filhos, ou os professores ao ensinar os jovens, os políticos ao governar um país, disse.

É o campo clássico daquilo que os tomistas como Schönborn – frade dominicano – chamam de a virtude da aplicação da prudência e que Francisco, como um bom jesuíta, chama, em Amoris Laetitia, de “discernimento”.

Também segundo Schönborn, para o Papa Francisco “a questão do discernimento é a questão principal para o tratamento certo da relação correta entre princípios e a aplicação concreta”.

O Papa Francisco, diz, “nunca questionou estes princípios porque são os princípios do Evangelho e do magistério de Jesus, mas ele claramente diz repetidas vezes, e argumenta claramente também, que, em se tratando da prática, precisamos exercer o discernimento”.

Claro está que Schönborn acredita que esta capacidade tradicional pela aplicação prudencial das normas morais está em declínio e que precisa ser revivida. No evento acadêmico, o prelado lembrou como, na década de 1980, “havia um grande receio de que a relação entre o ensino e a consciência seria enfraquecida”.

De acordo com ele, o problema era que a consciência muitas vezes era vista como a simples “transposição dos ensinamentos da Igreja em atos”, mas na verdade “o trabalho da consciência é descobrir que a lei de Deus não é uma lei estranha imposta sobre mim, mas a descoberta de que a vontade divina para mim é o que é melhor, também para mim. Mas isso tem de ser uma descoberta interior”.

Ele ficou “profundamente comovido” quando leu o famoso parágrafo 31 de Amoris Laetitia, no qual há a queixa de que demasiadas vezes a Igreja não consegue abrir espaço para as consciências dos fiéis, e que a tarefa dela é “formar consciências, não substituí-las”.

Isso significa entender que as pessoas existem dentro de restrições. Em Amoris Laetitia, disse o cardeal, Francisco “frequentemente volta ao que disse em Evangelii Gaudium, em que um pequeno passo em direção ao bem feito sob circunstâncias difíceis pode ser mais valioso do que uma vida sólida moral sob circunstâncias confortáveis”.

Falou que o a chave para entender o que “move” Francisco em Amoris Laetitia encontra-se no parágrafo 49, que reflete a experiência pastoral do papa entre famílias empobrecidas de Buenos Aires.

Francisco diz que a Igreja deve oferecer “compreensão, conforto e aceitação” a pessoas em situações difíceis, em vez de “impor de imediato um conjunto de regras que somente levam o povo a se sentir julgado e abandonado pela mesma Mãe chamada a mostrar-lhes a misericórdia de Deus”.

“Em teologia moral, ‘bonum possibile’ é um conceito importante que geralmente é negligenciado”, disse Schönborn, acrescentando: “Qual o bem possível que uma pessoa ou casal pode alcançar em circunstâncias difíceis?”.

O que Schönborn espera de Amoris Laetitia não são novas normas, mas o encorajamento para se discernir situações diferentes na aplicação dos princípios.
“Se consideramos a imensa maioria das situações, é compreensível que nem o Sínodo dos Bispos nem esta exortação possam fornecer um novo conjunto com regras gerais, canônicas por natureza, e aplicável a todos os casos”, disse.

Ao ler o Capítulo VIII, o cardeal-arcebispo sentiu-se aliviado.

“Temi seriamente que a tentativa de certos bispos, certos teólogos, certos grupos de pressão, levassem o Papa Francisco a tentar formular um novo dispositivo canônico aplicável a todas as situações, a todas as situações irregulares. É o que as igrejas ortodoxas fazem (...) onde, em geral, se tem canonicamente estabelecido que uma segunda ou terceira união são possíveis sob certas condições”

Uns, disse ele, queriam um dispositivo canônico parecido para a Igreja Católica.

“Fiquei tão aliviado e feliz que o Papa Francisco ficou claramente acima disso. Os dispositivos canônicos são válidos e não precisam de acréscimos”.

Mas isso não quer dizer, como alguns tentaram concluir, que nada é possível, ou que mudou.

“O que é possível é simplesmente um encorajamento renovado a se realizar um discernimento pessoal e pastoral responsável de todos os casos”, como pediu São João Paulo II à Igreja ao distinguir as diferentes situações dos divorciados e recasados. O parágrafo 298 de Amoris Laetitia lista seis casos desse tipo, lembra Schönborn.

A certa altura no Sínodo dos Bispos, Francisco descreveu como uma “armadilha” a questão da Comunhão para os fiéis divorciados e que voltaram a se casar, pois ela impedia que as pessoas olhassem para a situação concreta. Schönborn acrescentou ainda que Amoris Laetitia pede, antes de tudo, que cada caso seja examinado com as suas características próprias.

Mas antes que a questão da Comunhão possa ser abordada, é preciso haver uma análise de consciência (Amoris Laetitia sugere cinco perguntas para isso). “A questão da Comunhão pode vir depois disso”.
Pode haver casos em que o sacramento possa ser dado, disse ele, porém eles precisaram de discernimento – para o que Amoris dá orientações.

Na coletiva de imprensa, Schönborn citou o papa do século XII, Gregório Magno, de que a arte do acompanhamento pastoral é a arte do discernimento.

“É uma arte”, disse”, e “ela necessita de treinamento”. É uma arte que o cardeal-arcebispo ensinou a seus sacerdotes em Viena, em cursos especiais, e que o papa instou os jesuítas na Polônia a lecionar nos seminários.

Desenvolver esta arte é central para a sorte futura de Amoris Laetitia.

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