De Gregório Magno a Karol Wojtyla: o ''dever'' de falar contra o horror. Artigo de Alberto Melloni

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05 Setembro 2013

Francisco terá que demonstrar que tem uma leitura plena e global de uma série de crises que a diplomacia vê como episódios separados e que as comunidades cristãs, à luz da sua minoria, sabem, ao contrário, que são o destino uma da outra.

A análise é Alberto Melloni, historiador da Igreja, professor da Universidade de Modena-Reggio Emilia e diretor da Fundação João XXIII de Ciências Religiosas de Bolonha. O artigo foi publicado no jornal Corriere della Sera, 03-09-2013. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

O modo em que o Papa Francisco se fez porta-voz da tragédia da Síria e o gesto que ele anunciou para o próximo sábado têm um significado que seria redutivo classificar na sequência das "revoluções" bergoglianas. No Ângelus de domingo, de fato, há duas citações teologicamente comprometedoras, tanto para quem as fez, quanto para quem as ouviu.

O papa suplicou que se ponha o ouvido no "grito que sobe" da Terra: um movimento que, nas Escrituras, leva a Deus a voz de Israel em Mizraim (Egito). Essa referência ao Êxodo não se encontra nas muitas condenações papais da guerra que o Papa Francisco, no domingo, podia ecoar. Ele podia se referir ao "dever de falar", com o qual Wojtyla deplorou, não ouvido, a guerra em 2003; à fórmula de Pio XII em 1939, para quem "nada se perde com a paz"; ou à de Bento XV sobre o "inútil massacre" de 1917; podia conjugar, como Paulo VI, na ONU, em 1965, o "nunca mais guerra" com a teoria da guerra como consequência fatal do pecado.

Ao invés, ele não omitiu nada, mas escolheu como figura de referência o grito que é uma citação do Êxodo e, ao mesmo tempo, uma citação da mensagem com a qual João XXIII, em outubro de 1962, esconjurou a deflagração atômica nos tempos da crise de Cuba. Uma escolha que diz como Francisco não tem em mente uma ritual deploração, mas quer ir além.

E o além é indicado pela outra citação bíblica do Evangelho de Marcos, que desenha o gesto anunciado para o sábado, 7. Francisco convidou os cristãos ao jejum e à oração – e os líderes das grandes Igrejas terão que tomar uma posição. Mas ele também se dirigiu no mesmo título aos não cristãos (para os judeus, é o dia seguinte ao Rosh Hashaná, o Ano Novo) e aos ateus, convidados não a um pátio para excluídos, mas sim a uma praça que quer ser o ícone da unidade da família humana, em uma luta escatológica contra a guerra.

"Com o jejum e a oração", segundo o Evangelho de Marcos, Deus não se aplaca, mas se caça aquele demônio resistente até a insurgência messiânica e a santidade do Inerme. Propondo assim uma espécie de exorcismo do desumano que passa pela "lectio divina", Francisco traz à mente a pregação de Gregório Magno diante do cerco do lombardos de 593-594. Enquanto incumbe a catástrofe, Gregório abre a Escritura com o povo e lê o que antes não aparecia, porque "as palavras divinas crescem com quem as lê".

Aventurar-se nessa leitura é um ato corajoso. O mundo de hoje gosta de mensagens breves, no limite do vazio bem confeccionado que, por exemplo, a política italiana conhece.

Francisco terá que demonstrar que tem uma leitura plena e global de uma série de crises que a diplomacia vê como episódios separados e que as comunidades cristãs, à luz da sua minoria, sabem, ao contrário, que são o destino uma da outra. Aquilo que, desde 1989, ensanguenta o ex-Império Otomano, e os seus arredores, é um grande terremoto (do mesmo tipo daquele que teria esmagado a Europa sem o ecumenismo e sem o euro). Um terremoto multiplicado pela reabertura de cicatrizes confessionais internas ao Islã que, para se cicatrizarem, exigirão poucos séculos e que, enquanto isso, irão formar gerações inteiras à crueldade.

As comunidades cristãs ortodoxas, católicas, protestantes sabem, graças à sua disseminada irrelevância quantitativa, que, sem iniciativas sérias e audazes (das quais não se vê nenhum traço e que excedem a ONU), a Líbia vai se tornar como a Síria; a Síria, como o Iraque; o Iraque, como o Afeganistão; e assim por diante, em uma soma de violência das quais, no fim, como sempre, corre-se o risco de que Israel pague a conta, mesmo que tivesse que pagar a conta como vencedor.

Encontrar o fio político dessa leitura global não é trabalho do papa: mas se o papa encontrar o fio espiritual, pode ocorrer que alguém se dê conta de que o que liga as terras dos filhos de Abraão é um fio único. Único e ensanguentado.

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