Organizador espera que viagem de Francisco ao Chile desencadeie “revolução do afeto”

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18 Julho 2017

De acordo com um dos organizadores da viagem do Papa Francisco ao Chile e ao Peru em janeiro de 2018, esta não poderia vir num momento melhor, ao trazer esperança de uma “revolução do afeto” para uma sociedade chilena cada vez mais marcada por tensões nacionais e disputas transfronteiriças com os países vizinhos, situações que podem se tornar violentas.

A reportagem é de Inés San Martín, publicada por Crux, 15-07-2017. A tradução é de Isaque Gomes Correa.

Um padre chileno que está ajudando a organizar a viagem do Papa Francisco ao seu país e ao Peru, a ocorrer em janeiro próximo, naquela que será a sexta ida do pontífice à América Latina, diz esperar que a presença do pontífice aí desencadeie uma “revolução do afeto” em uma sociedade infelizmente dividida.

“Esperamos também que a visita do papa seja uma revolução do afeto, um abraço à alma ferida do Chile”, disse o Pe. Felipe Herrera Espaliat, encarregado de organizar os aspectos comunicacionais da visita.

“Precisamos ser lembrados de que o outro não é um inimigo, mesmo se pense de forma diferente”, contou Herrera ao Crux.

A viagem entre os dias 15 e 19 de janeiro ao Chile incluirá três escalas: Santiago, capital nacional; Temuco, ao sul; e então Iquique, ao norte. As duas últimas são escolhas social e politicamente carregadas.

Temuco é o epicentro de um protesto duradouro encabeçado pelo povo Mapuche. Alguns de seus membros foram radicalizados, chegando ao ponto de queimar igrejas e atacar caminhões de propriedade de empresas florestais.

Por outro lado, Iquique faz fronteira com a Bolívia, e os dois países possuem um longo conflito em torno do acesso ao mar. Mas, de acordo com Herrera, ela é também a “capital da religiosidade popular”, além de ser um ponto de chegada a de imigrantes no Chile, especialmente de pessoas vindas da Colômbia, do Peru, do Haiti e, desde o ano passado, da Venezuela.

O Crux conversou com Herrera enquanto ele esteve em Roma.

Eis a entrevista.

O senhor ficou surpreso com o anúncio da visita?

Até certo ponto, sim. Por um lado, dois anos atrás uma comissão havia sido formada para preparar uma viagem papal ao Chile, mas não deu certo. Depois, em fevereiro, os bispos vieram a Roma para a visita ad limina, e mais uma vez convidaram o papa a visitar o Chile, como fez a presidenta Michele Bachelet quando esteve de visita no Vaticano, quando o papa manifestou o desejo de vir.

No entanto, nada foi dito até junho, quando ouvimos que o papa estava vindo e que já havia até uma data no mês de janeiro. Não é o melhor mês para visitar o hemisfério sul!

E mais: ele vem logo após as eleições presidenciais, portanto teremos dois presidentes, a que está de saída e o que estará assumindo, o que irá gerar uma situação diversa, ainda que não necessariamente tensa.

Como os chilenos veem esta visita do papa?

Como outros países na América Latina e ao redor do mundo, o Chile, devido a um fenômeno social diverso, sofre de uma divisão profunda em sua coesão social. A perda de confiança nas instituições, incluídos a Igreja, o governo e empresas (...) são instituições vistas como não merecedoras de confiança.

Por isso, os cidadãos estão revoltados e demandam direitos, não querendo cumprir nenhum dos deveres correspondentes. Por outro lado, nós não vemos mais o próximo como nosso irmão e irmã.

O falecido cardeal chileno Raúl Silva Henríquez costumava falar da “alma” do Chile. Uma bela alma em um país fraternal. Esta alma está rompida e, como Igreja, vemos que há uma ferida profunda nela, e o papa pode ajudar em sua cura.

O papa é o representante de Cristo, e eu acho que ele poderia nos deixar com um jeito renovado de olhar para o outro como um irmão, inspirando-nos a criar um novo lar – um lar novamente baseado no espírito de fraternidade.

Nós também esperamos que a sua visita seja uma revolução do afeto, um abraço a essa alma ferida. Sentimos que o Chile precisa ser “apapachado” (quer dizer, abraçado, acariciado). Nós nos tornamos ásperos, devido ao atrito social constante, muitas vezes alimentado pelas mídias sociais. Isto tem criado um diálogo permanentemente agressivo, com os políticos constantemente atacando uns aos outros. Precisamos ser lembrados de que o outro não é um inimigo, mesmo se pense de forma diferente.

Creio que, se trabalharmos juntos, poderemos construir um país muito mais sadio, inspirado em valores como o amor, a fraternidade e a subserviência, e não na agressividade de ideias imponentes. E nisso o papa pode nos ajudar, e muito.

Como a alma chilena se rompeu?

Eu diria que tudo começou com esta crise de desconfiança nas instituições.

Mas, por exemplo, no caso da Igreja, isto não começou com o caso Karadima? [Referência a um caso notório de pedofilia clerical no Chile]

Esse caso fez a desconfiança na Igreja aumentar drasticamente. Mas, antes disso, a Igreja já tinha se distanciado do povo. Ela esteve demasiado focalizada em assuntos que não eram mais relevantes, sempre olhando para dentro, e não para fora. Nesse sentido, o papa é extremamente lúcido ao nos convidar a sair às periferias.

A Igreja no Chile sempre esteve muito presente nas periferias, como na Argentina, presente nas favelas.

Ela também se distanciou da “periferia” da classe média?

Exatamente. A classe média também se afastou, por estar tendo um acesso maior à universidade. Existe um nível mais elevado de racionalidade que, às vezes, afasta as pessoas do sentimento religioso. Não porque a fé não seja racional, mas porque estas pessoas possuem outros interesses.

Hoje, a crise das vocações está forte porque muitos padres vinham da classe média, e atualmente os filhos da classe média vão para a universidade. Não existe um incentivo nas famílias para que seus filhos se tornem padres ou religiosos, quando têm a possibilidade de cursar uma faculdade de engenharia ou direito.

Tal situação tem uma grande influência, junto com toda essa crise, produto dos escândalos de pedofilia e de uma hierarquia que não soube lidar com eles.

Há dois anos, o papa acusava os que foram contra a sua decisão de nomear Dom Juan de la Cruz Barros Madrid, religioso próximo a Karadima, para a Diocese de Osorno, de “tolice” e de permitir que um grupo de esquerdistas os guiassem pelo nariz.

Isso foi bem doloroso, e hoje essa diocese continua a lidar com um grande ressentimento. Continua existindo um grupo de aproximadamente 60 leigos que resistem ao bispo, mas, pelo menos, ele pode realizar suas tarefas, quando, no começo, não conseguir ir a lugar nenhum.

Mas há alguma verdade no que o papa disse? Cerca de 50 membros do Congresso, todos do partido de tendência à esquerda de Bachelet, enviaram uma carta ao papa, o que, em vários sentidos, acrescentou lenha à fogueira...

Eu acredito que isto é o que mais chateou o papa: que o poder civil tentasse influir no poder eclesial.

Falemos sobre as cidades que ele escolheu visitar. É compreensível que o papa esteja vá Santiago, capital do país. Mas por que irá a Temuco, ao sul?

Temuco é o centro não só de um conflito social, porque temos muitos, mas também é o centro de um dos maiores problemas envolvendo os povos originários. A região, conhecida como La Araucanía, é onde o maior número de irmãos Mapuche vivem.

Aí existe uma concentração de atividade terrorista e de resistência ao governo, dado que muitos querem um país plurinacional. Muitos destes Mapuche são manipulados por grupos da extrema esquerda, porém são uma minoria. Há também muitos que têm reivindicações e dívidas legítimas, históricas relativas às suas terras.

Mas há uma minoria que vem praticando atos de terrorismo, pondo abaixo mais de 20 igrejas católicas e algumas evangélicas.

A Igreja continua a ter uma forte presença na região, mas precisamos ter cuidado, porque não queremos ser vistos como assumindo um lado ou outro. Porque não são os Mapuche como povo que estão cometendo estes atos terroristas, mas grupos minoritários. Temos de reconhecer que os Mapuche foram historicamente relegados.

Existem também muitas vítimas inocentes, filhos e filhas de colonizadores alemães ou chilenos que investiram ou herdaram parte destas terras. Além disso, o governo tem dado terras específicas aos povos originários, e nem todas estão sendo trabalhadas.

Não podemos generalizar. Eu pessoalmente creio ser injusto falar dos Mapuche como terroristas, porque não são. Há uns que fizeram muita coisa errada, assim como existem empresários que já fizeram muita coisa que não deveriam ter feito.

Portanto a escala do papa em La Araucanía é parecida com aquela feita em Chiapas, quando esteve de viagem pelo México. É um ponto de conflito entre uma globalização que avança e pessoas que querem defender sua cultura. No meio disso tudo, existe uma violência incomum exacerbada por grupos políticos, muitos dos quais estrangeiros.

Esperamos que Francisco traga uma mensagem de paz à região.

Mas será que o papa consegue fazer algo, ao ver a derrubada de igrejas por Mapuche extremistas, que têm deixado cartazes nos locais das igrejas queimadas com o dizer: “A única igreja que ilumina é aquela em chamas”?

Eu acho que a mensagem do papa não estará voltada somente para os extremistas, mas ao povo em geral, que vem sofrendo. E aqui inclui os que compõem o povo Mapuche, e os que não o compõem. Ou seja, todo o povo chileno. Nesse sentido, acho que ele irá trazer uma mensagem mais geral, sem intervir na política.

Uma das coisas que o governo fez foi criar uma comissão regional para abordar o problema, e ela é coordenada pelo bispo local, Dom Hector Vargas. Esta comissão já submeteu um relatório com sugestões. Resta saber se serão implementadas ou não.

Em seguida tem a visita a Iquique, quase na fronteira com a Bolívia. Alguns dirão que esta visita tem a ver com a necessidade de um diálogo para resolver o conflito em curso sobre o acesso ao mar, o que a Bolívia não tem desde a Guerra do Pacífico, assunto comentado pelo papa quando esteve no México.

Este comentário do papa foi muito mal recebido no Chile. O governo o viu com bons olhos, porque o papa propôs um diálogo, mas a Bolívia e o Chile têm duas causas no tribunal de Haia relativos a este impasse. E eles têm um presidente que, sempre que deseja unir o país, o faz encontrando um inimigo comum. Historicamente este vem sendo o Chile.

Entretanto, Iquique têm dois motivos que vêm antes do problema com a Bolívia. Por um lado, é a capital da religiosidade popular. O Dia de Nossa Senhora de La Tirana, em 16 de julho, pode atrair 500.000 pessoas no meio do deserto. Por duas semanas, uma cidade inteira surge do nada, com milhares vindo da Bolívia também, para homenagear a Nossa Senhora de Carmen. Portanto é uma celebração unificadora.

Por outro lado, Iquique é um dos polos em que chegam os migrantes, especialmente vindos da Colômbia, do Peru, do Haiti e, desde o ano passado, da Venezuela.

Juntamente com a Argentina, o Chile recebe o maior número de migrantes. E este é um enorme desafio para os chilenos, porque não somos os melhores em acolher estas pessoas. Embora não temos uma atitude xenófoba como muitos países europeus, mesmo assim precisamos trabalhar no sentido de integrá-los. E isso, creio eu, é, para o papa, uma tentativa mais ampla de promover a integração latino-americana.

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