A visita do Papa a Chiapas é uma carícia de Deus aos indígenas

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11 Janeiro 2016

Dentro de pouco mais de um mês, monsenhor Felipe Arizmendi Esquivel será um dos privilegiados anfitriões do Papa no México. O bispo de San Cristóbal de las Casas (Chiapas) aguarda esperançoso a visita de Francisco, a qual qualifica como "carícia de Deus aos indígenas".

Uma visita a uma das periferias mexicanas majoritariamente indígenas é obrigação, porque "se alguém não faz uma opção pelos pobres, não entendeu Jesus", afirma o monsenhor Felipe Arizmendi Esquivel, em entrevista concedida a José Manuel Vidal e pubicada por Religión Digital, 02-01-2016. A tradução é de Janaína Cardoso.

Eis a entrevista.

O que sentiu quando soube pela primeira vez que o Papa Francisco ia ao México e a Chiapas?

Foi uma surpresa. Nunca imaginei que ele quisesse vir a San Cristóbal. Quando foi anunciado que viria ao México, mandamos à Conferência Episcopal nosso pedido de que nos visitasse, mas não tínhamos muitas esperanças de que nossa proposta fosse aceita. Quando se definiu que viria à nossa diocese, o vi como uma carícia de Deus para com os indígenas, como um sinal de que o Papa é coerente com seus discursos: quer estar nas periferias existenciais. Nos sentimos todos privilegiados.

Chiapas, Morelia, Ciudad Juárez, uma vez mais, o Papa busca as periferias geográficas e existenciais?

O Papa tem demonstrado isso nas visitas a outros países e em seus gestos diários para com os excluídos. Não tem ido nem à sua pátria. De nossa América Latina, escolheu Equador, Bolívia e Paraguai, que são os países mais pobres. Quando teve de ir aos Estados Unidos, quis passar por Cuba, pela transição que vive este país. Chiapas é uma das periferias do México, não somente por sua distância geográfica do Centro, senão pelos atrasos e pelas marginalizações que subsistem.

O que vai encontrar Francisco em sua diocese?

Uma diocese majoritariamente indígena, com 75% de sua população pertencente a povos originários: quase 500 mil tseltales; uns 400 mil tsotsiles; mais de 150 mil ch'oles; 55 mil tojolabales; 25 mil zoques; mais outros pequenos grupos originários de Guatemala, que se estabeleceram na fronteira sul: quekchíes, mames, kakchiqueles, quichés, etc.

Ficam pegadas do Padre Las Casas ou do bispo Samuel Ruiz?

Sendo uma diocese majoritariamente indígena, todos os bispos anteriores, junto com os sacerdotes e religiosas, sentimos a imperiosa necessidade de comprometer-nos em sua defesa, em sua promoção integral, em sua evangelização. É a prioridade do Evangelho e que nos esforçamos por viver na Igreja, aqui e em todos os lugares. Se alguém não faz uma opção pelos pobres, neste caso pelos indígenas, não entendeu a Jesus.

Continuam descartados os indígenas no México?

Os indígenas estão em um processo de mudança cultural, positivo e negativo. Positivo, porque assumem o bom do progresso geral do país, saem, estudam, procuram trabalho, não se casam tão jovens, usam o celular e os meios modernos de comunicação. Negativo, porque muitos perdem suas raízes e valores, contagiando-se do individualismo e do egoísmo do mundo atual; já não querem falar seu idioma, nem seguir os bons costumes de seus antecessores. Em várias partes do país, os indígenas são descartados; em outras, eles sabem e defendem seus direitos, e não permitem que outros decidam por eles; exigem ser tomados em conta. Em nossa diocese, são eles que conduzem o mais forte da evangelização. A maioria de catequistas e servidores das comunidades é indígena.

O problema dos diáconos foi solucionado? Poderia pedir ao Papa que os ordenasse sacerdotes, para melhor servir a seu povo?

Depois de frutuosos diálogos com Roma e com o episcopado mexicano, seguimos ordenando diáconos permanentes, depois de uma longa e cuidadosa formação. Nenhum deles, e são mais de 300, me pediu que o ordenasse sacerdote. Cada dia temos mais sacerdotes indígenas, e todos eles vivem o celibato como qualquer outro sacerdote de qualquer parte do mundo. Temos 42 seminaristas indígenas, mais outros 34 mestiços, e ninguém me propôs o desejo de ser sacerdote casado. Nunca pedirei ao Papa para ordenar sacerdotes casados, pois os sacerdotes celibatários servem muito bem ao povo, entregues de corpo e alma ao ministério.

É partidário do celibato opcional e de ordenar sacerdotes casados?

Eu nunca fui, sem desconhecer que houve na história passada da Igreja, e na realidade atual dos ortodoxos e dos anglicanos convertidos ao catolicismo, que continuam casados. Estou convencido da bondade do sacerdócio celibatário, antes de mais nada, por minha própria experiência: me sinto fecundo e muito realizado sendo celibatário. Além disso, essa afirmação de que nas culturas indígenas não se entende o celibato, e que a maturidade humana e social vem pelo matrimônio, é desconhecer a vida atual dos indígenas.

Cada dia há mais indígenas, homens e mulheres, que decidem não se casar, e são bem valorizados em sua comunidade. Antes se dizia que não confiavam aos celibatários cargos de importância; agora são eleitos para esses cargos também os celibatários. Os mesmos indígenas aceitam de todo coração os celibatários, desde que os amemos e respeitemos.

Que detalhes 'indígenas' está preparando para o Papa em San Cristóbal?

As leituras da Missa e quase todos os cantos serão em idiomas indígenas. Estão sendo preparados os ornamentos e a mitra para o Papa, com motivos indígenas. Farão as refeições com o Papa oito indígenas: um sacerdote, uma religiosa, um seminarista, uma jovem, um casal catequista e um diácono permanente com sua esposa.

Tem algum temor pela segurança do Papa em terras mexicanas?

Em nenhum lugar faltam desequilibrados, mas tenho confiança de que todos o cuidaremos bem.

A revolução tranquila do Papa Francisco é imparável e irreversível?

O Evangelho tem uma força incrível, e o que o Papa Francisco nos está recordando é somente o essencial do Evangelho: a misericórdia, o amor aos pobres, a simplicidade, o serviço, etc. Não faltam, sobretudo na Europa, pessoas que resistem à revolução do Papa, mas entre nós há uma grande aceitação, e esperamos que sua visita não seja um evento folclórico e anedótico, senão que nos confirme na fé e nos impulsione ao amor fraterno.

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