A Igreja em busca do seu Macron. Artigo de Anne Soupa

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08 Julho 2017

A instituição eclesial poderia se inspirar no método do presidente francês para revolucionar a sua estrutura?

A reflexão é da biblista e teóloga feminista francesa Anne Soupa, em artigo publicado na revista La Vie, n. 3.748, 29-06-2017. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

A revolução que o novo presidente promete dar à França é bastante intrigante, porque faz interrogar sobre a sua magnitude e sobre um possível contágio do “método Macron”. A Igreja, por exemplo, se beneficiaria destas inspirações essenciais: rejeição das divisões partidárias, superação das estruturas obsoletas a fim de libertar as potencialidades bloqueadas, presunção do bem sobre o mal, desejo de diálogo e rejeição da polêmica e, enfim, assunção do princípio da competência? Tudo isso com audácia e prudência juntas.

Mesmo antes da questão posta, constatamos, ao mesmo tempo, que a ética cristã está na origem desse método, e é estranho que isso surpreenda a muitos de nós, até porque ela está inscrita nos nossos genes, quer sejamos pessoas religiosas ou não. Um Jesus que inicia uma conversa com um estrangeiro, mulher ainda por cima, a Samaritana, ou que recorda que o sábado foi feito para o homem e não o contrário – o que as instituições muito antigas têm a arte de não querer entender –, que convida a fazer amigos com “o dinheiro desonesto” e que valoriza os talentos de cada um só pode ter gerado o referido método.

Além disso, Emmanuel Macron, “fils de jèze”, só pode ter sido alimentado por princípios de benevolência, de discernimento e de superação de si. Teilhard de Chardin, jesuíta, retirava, a partir dos fundamentos dos Exercícios de Santo Inácio, esta regra de ouro: “Tirer des créatures leur maximum d’énergie spirituelle (de puissance d’union)” [Tirar das criaturas o seu máximo de energia espiritual (de poder de união)”. E a nota 22 de Santo Inácio recorda: “Todo bom cristão deve estar mais pronto para interpretar positivamente, em vez de condenar uma opinião ou uma declaração obscura de outrem”.

Podemos deixar de ficar agradavelmente surpresos ao encontrar esses ressurgimentos em plena modernidade? Isso poderia sugerir que a Igreja não tem nada a aprender. Mas, além do fato de que a ética de Jesus deve ser retomada em cada geração, também é importante outra regra da qual a Igreja não escapa: os únicos tesouros que fazem viver são aqueles que aceitamos receber dos outros. A Igreja, em que cada membro é convidado a ser recebido pelo seu próximo, é convidada a isso novamente hoje, mas a partir de fora. Se quiser, ela pode viver esse convite como um chamado à conversão.

Gostamos de imaginar isso, sonhando um pouco... Olhemos para a questão a partir de apenas um dos seus aspectos: a liberação das energias bloqueadas. Como pode a Igreja, detentora das chaves da vida eterna, se libertar daquilo que não funciona mais, para que todos, instituição e comunidade, produzam mais bens espirituais, isto é, mais fé, mais esperança, mais caridade?

O que a obstaculiza, hoje, é a separação entre padres e leigos. Uma separação que não oferece mais aquele dinamismo missionário que trazia ontem. Essa separação, além disso, é amplamente denunciada, e isso é um sinal. O celibato dos padres é contestado “em pensamentos e ações”. E a concentração do poder sacramental sobre um número reduzidíssimo de padres impossibilitará em breve a sua missão de caridade ativa para com as pessoas.

Se considerarmos que os padres devem ser os profissionais exclusivos dos sacramentos, os sacramentos os escravizarão. Estamos realmente certos de que, hoje, o modo de vida dos padres os humaniza e libera a sua energia espiritual?

Fazemos a mesma pergunta sobre os leigos. Aquelas pessoas que, na vida civil, são sujeitos autônomos e responsáveis, encontram na Igreja um dispositivo que aumente a fé, a esperança e a caridade? De certo modo, sim. Frequentação dos sacramentos e apoio espiritual estão à disposição para fortalecer a alma e abri-la aos outros. Então, o que os bloqueia? Sem dúvida, uma concepção antiga e profundamente enraizada, que faz deles consumidores silenciosos, na melhor das hipóteses, suplentes. É isso que não está bem. É preciso fazer uma revolução.

A própria palavra “leigo” deveria desaparecer e ser substituída por “batizado”. O batizado deveria, finalmente, ser considerado e reconhecido como sujeito ativo investido de uma missão que dura toda a vida. Todos os ministérios, defendidos por essas colunas da Igreja que são os batizados, deveriam ser consequentemente renovados e diversificados de acordo com os vários carismas. Deveriam ser acessíveis tanto às mulheres quanto aos homens, porque o batismo é idêntico para as moças e para os rapazes.

Então, como não ver que a paridade homem-mulher é indispensável no governo da Igreja? Hoje, que energia espiritual pode liberar uma mulher, se ela é impedida de exercer uma responsabilidade com base nas suas competências? Essa recusa é ainda mais prejudicial porque a experiência espiritual dos batizados, homens e mulheres, já existe, mesmo que faltem as palavras para dizê-la e sejam necessários “ministros da escuta” para desdobrá-la. Porque os batizados “da base”, distintos dos profissionais da Igreja, são aquela “sociedade civil” da Igreja, da qual vem a experiência em campo e, portanto, as ideias novas. Faremos com que, finalmente, chegue o “tempo dos batizados”, que ele realmente se torne realidade e possa, assim, dar fruto?

A liberação das energias não pode ocorrer sem diálogo. A Igreja dispõe, para isso, de um instrumento precioso, obtido justamente a partir dos Evangelhos, o sensus fidei, aquele senso da fé que permite discernir o que é bom para a Igreja. Como escutá-lo melhor? Em que lugares, com que modalidades? Os sínodos diocesanos poderia, ter esse papel, desde que as questões mais controversas não sejam mais excluídas do debate.

Liberar as energias pressupõe, por fim, opor-se aos excessos de legalismo atualmente imperantes, máquinas que matam. A lei está bem, mas lei demais gela, trava. Quem é que diz isso hoje, quem o proclama? Onde está a autoridade moral que não se limita a construir barragens e cercas, mas leva novamente para pastos verdejantes? É preciso continuar a repetir: a fé confessada por um cristão não é fé na Igreja, mesmo que mística, nem fé em um Deus conceitual preso na rede dos metafísicos, dos filósofos e dos ateus, nem fé em um catálogo dogmático que, de geração em geração, substitui-se sub-repticiamente à mensagem original.

O que um cristão anuncia é a Boa Nova de Cristo ressuscitado, palavra de amor dirigida a todos a Boa Nova de Cristo que veio “hoje à casa de Zaqueu”. Anunciar isso é responsabilidade de cada um.

O método Macron na Igreja, em suma, seria a otimização de uma confissão de fé, pessoal e coletiva. Cada um, na Igreja, é chamado a assumir aquele “momento favorável” que Emmanuel Macron e os seus eleitores souberam captar. Podemos realizar isso hoje?

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