Trump e Francisco, dois métodos opostos para enfrentar o caos do planeta

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31 Mai 2017

Encerrada a turnê europeia do presidente estadunidense, o Vaticano também é capaz de fazer um balanço abrangente e meditado. Além da reaproximação diplomática de Trump, que, na base de Sigonella, disse-se honrado por ter encontrado o Papa Francisco e por ter rezado com ele pela paz, emerge com clareza o fosso entre a Santa Sé e os Estados Unidos em relação à visão geopolítica.

A reportagem é de Marco Politi, publicada por Il Fatto Quotidiano, 28-05-2017. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

É uma diversidade radical de atitudes, que não ficará limitada apenas às relações bilaterais, mas que – dada a posição internacional de Francisco – está destinada a exercer uma influência, especialmente sobre a opinião pública europeia.

Contrapõem-se dois horizontes políticos e culturais. A diplomacia vaticana não esconde o fato de que, ao contrário da Europa, onde populistas e soberanistas foram derrotados na Áustria, Holanda e França, em Washington, ao contrário, o populismo venceu sob o slogan do puro egoísmo nacional: America first.

O precipitado envolvimento da Otan na coalizão anti-Isis liderada pelos Estados Unidos, que ocorreu sem uma discussão pública sobre a estratégia a seguir, dá a entender que Trump pretende tomar iniciativas vistas em termos de esfera de influência, marcadas não só pela vontade de eliminar as centrais de terrorismo, mas também de colocar o Irã contra o muro (veja-se o discurso do presidente estadunidense na Arábia Saudita).

O que, por sua vez, não corresponde à estratégia da França e da Alemanha, e certamente está em contraste com a visão de cooperação internacional apoiada pela Santa Sé, razão pela qual Estados Unidos e Rússia, Turquia, Irã e Arábia Saudita devem agir conjuntamente e não concorrencialmente para eliminar o Califado e os seus aliados.

Sobre o envolvimento da Otan, é preciso acrescentar que ele deixa a porta aberta (de forma ambígua) aos desdobramentos mais confusos. Começou-se dizendo que o compromisso da Otan não vai se concretizar na participação em “combates”, depois, deixou-se vazar que poderia haver um compromisso de aviões de reconhecimento. Daí, é muito curto o passo para atividades militares mais diretas por parte dos países da Otan solicitados a serem voluntariosos.

Sobre a defesa do ambiente, há pouco a acrescentar. Trump tem em mente a revisão do acordo de Paris sobre o clima e é evidente que ele não pretende fazer grandes cortes nas emissões ainda em 2018, como previsto pelo documento de 2015. A Laudato si’, a encíclica verde de Francisco, não será fonte de inspiração para a nova administração estadunidense.

Desde o início do seu pontificado, com a viagem a Lampedusa, o Papa Bergoglio captou e proclamou o fenômeno das migrações como uma questão epocal. Ele disse isso em Lesbos, é a “maior catástrofe humanitária” depois da Segunda Guerra Mundial. Os Estados Unidos de Trump, para além do documento escrito em Taormina sobre a necessidade de uma política de “longo prazo”, não tem nenhuma intenção de enfrentar o problema em termos de um Plano Marshall internacional.

Uma única coisa lhe interessa, e ele a pregou no comunicado final do G7: o “direito soberano” dos Estados de controlar as suas fronteiras e de agir de acordo com os seus interesses e a segurança nacional. É uma visão estreita e repressiva do fenômeno, nos antípodas da posição de Francisco.

Resta, por fim, a política social. Não só Francisco, mas também João Paulo II e o próprio Bento XVI, na encíclica Caritas in veritate, expressaram com força, durante décadas, a necessidade de uma globalização de rosto humano e de uma superação da desigualdade em nome do “bem comum” nacional e internacional.

Os sinais provenientes dos Estados Unidos, onde a ideologia econômica da Goldman Sachs é a estrela-guia da presidência, são radicalmente opostos: 23 milhões de estadunidenses ficarão sem cobertura de saúde com a modificação do Obamacare. Os programas de assistência social vão sofrer cortes, em breve, de 274 bilhões de dólares, como anunciou Mick Mulvaney, responsável pelas questões de orçamento na Casa Branca.

Nos próximos dez anos, a administração Trump conta que vai tirar 192 bilhões dos programas de cupons de alimentos, 800 milhões da assistência à saúde Medicaid. Outros 21 bilhões, da assistência temporária para famílias carentes, com outros cortes no crédito fiscal para os filhos. Exatamente o oposto da superação das desigualdades sociais, à qual Francisco exorta no seu documento Evangelii gaudium dado a Trump.

Assim, Washington e o Vaticano tornam-se, hoje, simbolicamente, dois polos alternativos do modo de enfrentar o caos atual do planeta. Francisco propõe uma gestão multipolar das crises internacionais e uma política social que integre os excluídos e supere o egoísmo das castas dominantes.

Trump é percebido como o arauto do egoísmo nacional e de um liberalismo que, no fim das contas, premia, mais do que qualquer outro, aqueles que já têm patrimônios imensos.

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