'Depois do que passei, vou ter que viver na calçada?': moradores da cracolândia temem despejo

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26 Maio 2017

"Posso te contar? A minha mente está a milhão. Eu fui abandonada pelos meus pais ainda criança, cresci num orfanato, sempre fui tratada como um lixo e agora serei jogada na rua com a minha família", diz uma usuária de crack de 35 anos que vive em uma pensão na cracolândia, no centro de São Paulo.

Foto: Eduardo Ogata Fonte: Fotos Públicas

A reportagem é de Felipe Souza e publicada por BBC Brasil, 25-05-2017.

A pupila dilatada, a fala atropelada, as mãos trêmulas e um hálito de crack revelam que Vanessa (nome fictício) tinha fumado uma pedra havia pouco tempo. "Você não entende o que eu passo, mas eu digo que estou muito mal. Depois de tudo o que passei, será que vou ter que ir com a minhas filhas, marido e cachorros para a calçada?", questiona ela durante entrevista à BBC Brasil na quarta-feira.

A cracolândia ficou famosa por aglomerar centenas de viciados. Nas últimas décadas, diversas gestões de prefeitos e governadores tomaram diferentes ações para enfrentar o livre consumo e venda de drogas na região. Todas falharam.

Desta vez, o prefeito João Doria (PSDB) quer internar de forma compulsória os usuários de drogas do local e demolir todos os imóveis em dois quarteirões da cracolândia - uma medida questionada pelo Ministério Público paulista, que pediu detalhes sobre o processo de desapropriação dos imóveis.

Neste ano, a prefeitura anunciou que iniciaria o programa Redenção, para esvaziar a cracolândia e revitalizar a região. Dória afirmou que fará tudo isso de maneira humanitária, oferecendo "atendimento clínico e social necessário" aos dependentes químicos. O programa seria lançado na última quarta-feira, mas a gestão o suspendeu por tempo indeterminado.

Questionada, a prefeitura não detalhou o que será feito na área nem se as pessoas que moravam ou trabalhavam ali receberão algum tipo de auxílio. Apenas que pagará as indenizações necessárias "no prazo determinado".

A internação dos usuários à força foi negada pela Justiça paulista em decisão liminar (provisória) após pedido feito pela Defensoria Pública nesta quarta. Mas a possibilidade de despejo preocupa a família de Vanessa e de seus vizinhos.

A prefeitura diz que o motivo das interdições e demolições está nas "condições precárias de funcionamento e irregularidades nas edificações e/ou documentação". Questionada, porém, a administração municipal não mostrou ou mencionou algum laudo que comprovasse riscos de desabamento ou irregularidades. Desde o último domingo, nove estabelecimentos comerciais foram fechados e emparedados.

A iminência do despejo de Vanessa afeta também outras 30 famílias, que pagam R$ 500 por mês - ou R$ 25 por dia - para morar no mesmo prédio que ela. As famílias têm um espaço de cerca de 10 metros quadrados cada, mais banheiro e lavanderia coletivos. São dez quartos com camas de alvenaria no térreo e outras 20 no segundo andar, mais apertados.

Entrevistada pela BBC Brasil na véspera de seu aniversário, comemorado nesta quinta, Vanessa diz com a voz embargada que prefere esquecer a data. "Imagina se vou comemorar alguma coisa. Me dá só um motivo, por favor. Eu só quero que minhas filhas não passem por nada disso. Eu faço tudo por uma pedra de crack, mas elas vêm em primeiro lugar."

O marido de Vanessa diz ter largado a droga e conta que agora só bebe um pouco, fuma cigarro e maconha "porque ninguém é de ferro e precisa dar uma relaxada". O cozinheiro Gustavo (nome fictício), de 31 anos, conta que está em busca de um emprego, mas afirma que sua passagem pela cadeia por tráfico de drogas dificulta a recolocação.

"Fiquei preso de 2006 a 2008 por um crime forjado e desde então tento recomeçar minha vida. Mas você acha que eu consegui alguma chance depois que voltei para as ruas? Só portas fechadas. Isso revolta alguém que só quer uma chance, irmão", diz o cozinheiro, que não tem emprego registrado há dez anos.

Oportunidade

Fumaça, Cachaça e Maconha, os três cães do casal, dividem o espaço com ele e os filhos no quarto da pensão. Mas os animais passam a maior parte do tempo dentro de um carrinho de supermercado e não se separam dos donos por nada. Se o passeio é na rua, são carregados como bebês e, na hora do almoço, comem parte da comida dos donos e um pouco de ração.

"Eles são nossos grandes amigos. São muito felizes e bem cuidados. Como não podem se defender, o mínimo que fazemos é cuidar bem deles. Os nomes? Escolhemos os mais legais. Se até a Bruxa do 71 (personagem do seriado Chaves) pode dar o nome ao gato de Satanás, a gente também pode brincar", diz Gustavo em meio a risadas.
Vanessa não trabalha. Gustavo faz bicos como cozinheiro e servente de pedreiro quando algum amigo o indica. Quando nada aparece, pede esmolas em um cruzamento movimentado próximo ao shopping West Plaza - a 3,5 km da cracolândia.

"Eu só queria ter um lugar para poder cozinhar e vender marmitex na rua. Colocaria tudo numa caixa de isopor e sairia vendendo em canteiros de obras, motoboys, tudo quanto é trabalhador com fome. Eu faria um novo começo", planeja o rapaz.

Sublocação

A comerciante Valdete Sousa Emiliana, de 36 anos, é a dona da pensão onde o casal mora, na alameda Dino Bueno. Ela afirma que aluga o local, que funcionou como estacionamento até 2014, por R$ 4.200 por mês. Se as 30 famílias pagam R$ 500 cada, ela arrecada R$ 15 mil, mas diz que o lucro é muito menor porque paga funcionários e faz manutenção no local.

"Aqui é tudo arrumado. Tem cartão de ponto, o prédio tem seguro e tudo. A prefeitura quer nos tirar daqui sem dar nenhum motivo ou contrapartida. Eles precisam saber que nesta rua não tem só traficante e viciado. Tem muito garçom, faxineira e outros trabalhadores que veem aqui como o único lugar onde conseguem pagar aluguel", conta Emiliana.

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