"Estamos em uma crise epocal da esquerda." Entrevista com Gian Enrico Rusconi

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17 Maio 2017

“As coisas devem ser chamadas pelo nome, sem tentar desajeitadamente adoçar a pílula. O que aconteceu na Renânia do Norte-Vestfália não é um ‘acidente de percurso’ para o SPD. Estamos diante de uma verdadeira derrota eleitoral, cujo porte político vai além do pesado revés numérico. Porque os social-democratas foram derrotados em um Land que era desde sempre o seu reduto, onde o partido parecia ainda ter sólidos laços com os grupos sociais de referência, começando pela classe operária. Um Land que também era bem governado por uma liderança, Hannalore Kraft, que muitos, antes do surgimento da candidatura a chanceler de Martin Schulz, indicavam como a ‘anti-Merkel’. Estamos realmente diante de uma crise epocal de uma esquerda histórica que não consegue mais se sintonizar com as expectativas e, acima de tudo, com os medos da maioria da opinião pública.”

A afirmação é de um dos mais respeitados estudiosos do “planeta Alemanha”, Gian Enrico Rusconi, professor emérito de Ciências Políticas na Universidade de Turim.

A entrevista é publicada por L’Unità, 16-05-2017. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Segundo ele, "não se trata apenas de modernizar velhas ideias, talvez usando com mais sabedoria os novos instrumentos de comunicação. O socialismo democrático se formou sobre bases culturais, sociais, históricas, que hoje não parecem mais se sustentar diante dos desafios do Terceiro Milênio. Não servem retoques, é preciso um repensamento “epocal”. E não se deve ter medo de inserir no próprio vocabulário político e ideal termos como “segurança”, ou afirmar que reconhecer o outro por si só não significa renunciar à defesa de deveres a serem compartilhados em uma sociedade que não confunde a inclusão com a permissividade",

Eis a entrevista.

Professor Rusconi, como é possível ler politicamente, tanto em chave de eleições legislativas de outubro, quanto em chave europeia, a votação do domingo na Renânia do Norte-Vestfália, marcada pela pesada derrota do SPD?

Tratou-se de uma desfeita política, cujo porte vai além até do significativo dado numérico. Aqui, o SPD realmente acreditava que podia vencer e fazer dessa vitória o trampolim para o ataque à chancelaria. A esperança se transformou em um pesadelo. E seria injusto atribuir a sua responsabilidade à queda de popularidade e de capacidade atrativa do candidato do SPD à chancelaria, Martin Schulz. A magnitude negativa dessa votação é de onde ela vem: estamos falando de um Land, a Renânia do Norte-Vestfália, desde sempre social-democrata, onde quem competia era um partido que parecia sólido, enraizado no território, e onde havia uma liderança, Hannalore Kraft, que parecia ser o grande trunfo. A Kraft deve ser reconhecido um comportamento de grande correção e dignidade: ela logo renunciou a todos os cargos do partido, assumindo a responsabilidade pela derrota, e essa atitude não é tão usual nos políticos de hoje. Em suma, à frente do partido, havia uma liderança que não foi tocada por escândalos, tão ligada à sua própria realidade, ao seu Land, a ponto de renunciar a concorrer à chancelaria. E, apesar disso, o SPD sofreu um colapso.

E o que essa derrota significa, professor Rusconi?

Que a crise do socialismo democrático é muito séria, porque ela investe contra os próprios princípios, a cultura política da qual o socialismo democrático historicamente nasceu e que, por um longo tempo, no século XX, representou a sua força. E, se essa crise investe contra a força que parecia a mais sólida dentro da família do socialismo europeu, o SPD, precisamente, algo isso significará para a Europa progressiva. As forças socialistas e social-democráticas não conseguem convencer da justeza e da eficácia da sua linha. Não parecem conseguir estar em sintonia com os tempos e assumir temores que existem e que não podem ser demonizados.

A que se refere, particularmente?

Penso no tema da integração. Que não se identifica com a questão da imigração. Não se trata de correr atrás da direita radical no campo do “a culpa é do imigrante”, evocando muros, expulsões em massa ou fronteiras blindadas. Mas levantar, à esquerda, o tema da segurança, essa é uma passagem obrigatória, se não se quiser ser pisoteado pelos acontecimentos. A esquerda, em todas as suas formas, não pode se limitar a defender o princípio da integração, mas também deve reconhecer que, se parar aí, essa atitude “benevolente” é interpretada como fraqueza e, portanto, punida no momento do voto. E foi isso que aconteceu nas eleições de domingo. O discurso é muito, muito sério. Um princípio identitário forte da esquerda foi o cosmopolitismo. Agora, o cosmopolitismo não é mais suficiente. É preciso encontrar um ponto de equilíbrio entre princípios e políticas que deem respostas a um sentimento generalizado de insegurança. Nesse sentido, Angela Merkel foi uma grande mestra.

Por quê?

Porque demonstrou uma grande habilidade pragmática na gestão da acolhida dos migrantes. A chanceler defendeu o princípio, mesmo quando parecia que a extrema direita da AfD estava levando a melhor, mas, ao mesmo tempo, enrijeceu os critérios, colocou uma série de empecilhos e determinou que a integração traz consigo direitos, mas também deveres, cujo respeito é um imperativo do qual não podemos nos subtrair. A vitória de Macron na França e a provável afirmação de Merkel na Alemanha indicam que o populismo de direita pode ser derrotado, mas que quem fará isso não serão lideranças de esquerda. É triste, mas é assim.

A Grécia, depois a Espanha e, em seguida, a Áustria, a Holanda, depois a França e agora a votação no Land alemão “vermelho”: por toda a parte, as forças tradicionais do socialismo europeu recuam. São todos casos “nacionais” ou há algo de mais profundo e supranacional?

Diante de uma série de derrotas, que, em alguns casos, como no francês, assumiram as dimensões de uma crise, é francamente impossível falar de casos individuais, devidos a situações locais. Estamos diante da crise do paradigma social-democrático, ao qual se acompanhado a crise da forma-partido tradicional. E isso é ainda mais evidente na Alemanha, porque, se ainda há um partido tradicional, dando a esse adjetivo não um caráter não negativo, liquidatório, na família do socialismo europeu, pois bem, esse partido é justamente o SPD. Mas isso não é mais suficiente para se colocar ambições de governo.

E não se trata apenas de modernizar velhas ideias, talvez usando com mais sabedoria os novos instrumentos de comunicação. O socialismo democrático se formou sobre bases culturais, sociais, históricas, que hoje não parecem mais se sustentar diante dos desafios do Terceiro Milênio. Não servem retoques, é preciso um repensamento “epocal”. E não se deve ter medo de inserir no próprio vocabulário político e ideal termos como “segurança”, ou afirmar que reconhecer o outro por si só não significa renunciar à defesa de deveres a serem compartilhados em uma sociedade que não confunde a inclusão com a permissividade.

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