Nova biografia de Stalin investiga religiosidade e infância

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17 Mai 2017

Josef Stalin está muito bem servido de biografias, desde as clássicas, escritas por Leon Trotski, o maior entre os muitos inimigos do ditador soviético, e por Isaac Deutscher, o jornalista marxista que rompeu com o stalinismo em 1932 e escreveu a melhor biografia política do tirano, ainda em 1949, até as mais recentes, entre as quais é preciso destacar a do jornalista inglês Simon Sebag-Montefiore. Pode-se dizer que quase tudo já foi dito a respeito de Stalin, e o que não foi provavelmente será conhecido somente quando os arquivos da antiga União Soviética sobre o ditador, ainda inéditos, forem abertos aos pesquisadores – o que, em se tratando de Rússia, pode jamais acontecer. Mas eis que o historiador americano Stephen Kotkin, da Universidade de Princeton, decide publicar o que, uma vez concluída, pretende ser a biografia definitiva não apenas de Josef Stalin, mas do mundo de Stalin.

A reportagem é de Marcos Guterman, publicada por O Estado de S. Paulo, 14-05-2017.

A tarefa de contar “a história mundial a partir do gabinete de Stalin”, como anuncia Kotkin, obviamente não é trivial. O livro que chega agora ao Brasil, dividido em dois tomos, é apenas o primeiro dos três volumes que pretendem dar conta de toda a trajetória desse personagem que é um dos poucos indivíduos a quem se pode atribuir um papel decisivo na marcha dos acontecimentos — que em geral se realizam como consequência de uma conjunção de inúmeros fatores quase sempre alheios aos desejos dos grandes líderes. Da leitura dessa nova biografia, ainda que fique claro que Stalin é produto de seu meio e das circunstâncias, emerge um homem cujas decisões pessoais – fruto de um raro senso de oportunidade e de implacável determinação – foram a própria condição para que a história se realizasse tal como aconteceu.

A propósito do indivíduo biografado, Kotkin critica corretamente a historiografia que lhe atribui características distintivas especiais. É tentador ver em cada gesto ou ação do personagem um prenúncio do futuro ditador. Contudo, Stalin, como mostra o historiador americano, não é mais traiçoeiro ou autoritário do que vários de seus contemporâneos. Tampouco o autor aceita a tese, muito popular e que se aplica a quase todo ditador totalitário, segundo a qual Stalin teria se transformado num monstro tirânico porque teve uma infância traumática. O exame mais detido de seus primeiros anos de vida, como descrito no detalhado livro de Kotkin, mostra um cotidiano nada excepcional para a época.

Papel muito mais importante em sua formação foi o da religiosidade — Stalin foi um estudioso seminarista e era um devoto. Essa característica pode ser facilmente identificada em sua relação com o marxismo, que ele via quase como uma doutrina religiosa, o que ajuda a explicar seu empenho incansável para colocá-la em prática num país que, de acordo com essa mesma doutrina, ainda não estava pronto para a revolução comunista, pois não havia completado (ou nem sequer iniciado) sua etapa capitalista burguesa.


Capa do livro 'Stalin, Paradoxos do Poder 1878-1928', de Stephen Kotkin Foto: Livraria Saraiva.

O trunfo da obra de Kotkin — que, em alguns aspectos, é também seu principal problema — é a localização de Stalin no universo não apenas russo, mas europeu e asiático, entre o final do século 19 e as primeiras décadas do século 20. Basta lembrar que esse período envolveu o surgimento da Alemanha e dos Estados Unidos como potências econômicas, o embate feroz entre os grandes impérios e seu posterior colapso numa guerra mundial, a expansão territorial contínua da Rússia até o limite de suas forças e o avanço do Japão sobre a China e a Coreia, entre outros acontecimentos de dimensões épicas.

Kotkin faz desses imensos lances da história partes da vida de Stalin, como se a existência do futuro ditador soviético – chamado o tempo todo, durante a biografia, de “futuro Stalin” – tivesse sido moldada a partir desses eventos. Ou seja, Stalin é tratado, metodologicamente, sob o prisma da longa duração, como se ele fosse, sozinho, uma etapa dessa trajetória. Talvez seja um pouco demais.

Ao mesmo tempo, Stephen Kotkin atribui a Stalin a capacidade de entender, como poucos, esse cenário histórico, munido de um grande talento intelectual como organizador político e agitador – um perfil muito diferente do que aparece em grande parte das biografias mais populares de Stalin, que pintam o ditador como um sujeito de inteligência limitada, reduzindo-o a um déspota sem nenhum escrúpulo que galgou o poder e nele se consolidou exclusivamente por meio da violência.

Não se trata de vê-lo, a partir de agora, graças à biografia de Kotkin, como um tirano mais refinado, o que Stalin, o mais autêntico sucessor de Ivan, o Terrível, definitivamente não foi. Trata-se de reconhecer nele, sem qualquer condescendência, as qualidades políticas que seus ferozes adversários bolcheviques trataram de sistematicamente negar.

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