Coreia, dois anos depois: a Igreja não cresce com os grandes eventos

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12 Setembro 2016

Passou-se pouco mais de dois anos desde a primeira viagem do primeiro papa americano em terras asiáticas. Na época, a visita apostólica do Papa Francisco à Coreia do Sul (14-18 de agosto de 2014) foi contada em notícias e comentários de tons frequentemente entusiasmados. Havia aqueles que teorizavam uma "prioridade asiática" do pontificado bergogliano e já prenunciavam um surpreendente "efeito Bergoglio" até mesmo nos processos de crescimento da Igreja da Coreia e das outras comunidades católicas da Ásia.

A reportagem é de Gianni Valente, publicada no sítio Vatican Insider, 08-09-2016. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Passamos apenas dois anos desde aquela visita papal, os tons excitados abrem espaço para considerações mais realistas sobre o presente, sobre o futuro e também sobre o passado da catolicidade coreana.

As avaliações de observadores qualificados e de agentes de pastoral reunidas pelo Vatican Insider são diversas e, em alguns casos, discordantes, mas concordam em se distanciar dos estereótipos sobre os "efeitos milagrosos" atribuídos por alguns às visitas papais na vida das Igrejas locais: "A viagem coreana do Papa Francisco – observa o jesuíta Gabriel Byoung Jovem Je, diretor do Instituto de Cultura e Educação Internacional da Sogang University – acendeu uma pequena chama no coração da Igreja da Coreia. Mas essa semente ainda deve se tornar um verdadeiro fogo. E isso não depende do papa. Depende também de nós".

A visita do Papa Francisco, enquanto se realizava, despertou emoção e tocou os corações de muitas pessoas: "Mesmo antes de ele chegar – lembra Vincenzo Bordo, missionário às margens de Seul há quase 25 anos – alimentavam-se grandes expectativas. Dizia-se: ‘Agora ele vem, e tudo muda’. Ele veio, houve entusiasmo, mas depois foi embora, e até mesmo na Igreja pouco mudou. É claro, ele deixou uma marca que não pode ser ignorada. As suas palavras continuam sendo um ponto de comparação, também para a práxis eclesial. Mas as coisas não mudam por magia ou de modo mecânico".

O bispo Peter Kang U-il Kang, considerado por muitos como o filho espiritual do saudoso cardeal Stephen Kim (1922-2009), descreve dados e dinâmicas de uma realidade multiforme: "Em muitas dioceses, incluindo a minha, no tempo posterior à visita papal, houve um aumento das pessoas que se aproximaram da Igreja e do anúncio do Evangelho. Muitas pessoas não cristãs ficaram surpreendidas com a sua personalidade tão simples, e também houve um aumento dos catecúmenos que pediam o batismo, que, em muitas dioceses, foi igual a 50% em comparação com as médias anteriores. Dentro da Igreja, as suas palavras foram apreciadas por aqueles que sentem a urgência de uma renovação espiritual da vida eclesial. Enquanto que aqueles que não têm essa sensibilidade não conseguem sequer captar o núcleo da mensagem do Papa Francisco. E rapidamente se esquecem daquilo que ele disse".

Resistências e deslocamentos

Na opinião de setores eclesiais coreanos mais críticos, as solicitações do Papa Francisco não encontram ressonância adequada em setores influentes da Igreja local.

"O papa pede que todos façam parte de uma Igreja pobre e para os pobres – reitera o teólogo Joseph Kim, diretor do site de informação eclesial Catholicpress – mas, na realidade eclesial coreana, há quem não sinta nenhum interesse por essa mensagem. A Igreja aqui, em muitos casos, parece ser uma organização religiosa para ricos. Certas intervenções do papa não encontram um espaço adequado, especialmente quando ele assinala os comportamentos não evangélicos dos sacerdotes e bispos, ou denuncia o clericalismo."

Grupos eclesiais minoritários, mas invasivos, ainda envolvidos em tempo integral na polêmica anticomunista, legado do conflito com a Coreia do Norte, parecem suportar muito mal as considerações críticas dirigidas pelo Papa Francisco ao sistema de desenvolvimento global e à ideologia neoliberal.

"De acordo com esses setores – explica o padre Timothy Lee Eun-hyung, secretário do Comitê Episcopal para a Reconciliação do Povo Coreano – a Igreja não deve se ocupar com questões sociais. Cada intervenção de sinal social é atacada como politização da Igreja. E eles também interpretam muitas palavras do Papa Bergoglio com o mesmo preconceito."

Catolicismo como símbolo de status

Com delicadeza e sem golpes flagrantes, a visita do Papa Francisco pôs em discussão atitudes e reflexos condicionados da realidade eclesial coreana já registrados há muito tempo. Como a tendência a "programar" o crescimento percentual dos católicos com critérios de marketing empresarial. Ou o risco de perceber e viver o pertencimento à Igreja Católica como símbolo de status religioso das classes média e alta. Até o perigo de um modelo eclesial "empresarial" e uma imagem de Igreja concebida como lobby vigoroso, que coloca toda a confiança não no Senhor, mas na eficiência da sua organização estruturada.

A mesma obsessão com a construção de novas megaigrejas, fortalecida especialmente entre as comunidades cristãs evangélicas e pentecostais, também contagia em alguns casos as dioceses e setores católicos, polarizando a situação: "Para construir novas igrejas – ressalta Joseph Kim – são necessários os ricos, que podem fazer boas ofertas. Assim, as igrejas são construídas pelos ricos, e os pobres não se sentem na sua casa. Ao contrário, sentem-se excluídos ou julgados com base no censo e vão embora".

A mesma opinião é compartilhada por Lazzaro You Heung Sik, bispo de Daejeon, onde, desde dezembro passado, iniciou um caminho sinodal diocesano programado para três anos: "Os catecúmenos que pedem o batismo pertencem todos à classe média. Os pobres são poucos. Isso nos coloca perguntas".

Em um país já desenvolvido e moldado nos modelos da competição econômica, no ambientes cristãos também encontra espaço a mentalidade que vê no bem-estar econômico um sinal da predileção de Deus e, na pobreza, uma punição divina.

Comparações maquiadas

Os efeitos de longo prazo da visita do Papa Francisco na vivência do catolicismo coreano são medidos, há alguns anos, com as narrativas épicas sobre as mudanças descritas depois das viagens coreanas feitas em 1984 e 1989 por João Paulo II.

Durante os anos 1980, apenas na arquidiocese de Seul, triplicou o número dos batizados católicos, alcançado um número de 916 mil. Mas os analistas mais perspicazes evitam colocar essa progressão sensível em relação quase mecânica de causa e efeito com as viagens wojtylianas à Coreia.

"Esse crescimento – lembra o jesuíta Gabriel Byoung – ocorreu em um momento social e político muito particular. Era um tempo de mudança, com uma grande demanda de democracia e de justiça social, depois dos anos do governo militar. A geração dos anos 1980 era a do baby boom. Havia instabilidade, mas também muitas expectativas e muitas esperanças, com muitos jovens buscando o sentido da vida. A Igreja Católica ganhava estima e simpatia, porque era próxima do povo e apoiava as suas expectativas. E isso também levou muitos a se aproximarem, até pedir o batismo."

Agora, concordam todos, a conjuntura em que ocorreu a visita do Papa Francisco é completamente diferente. A sociedade coreana não parece mais estar cheia de vibrantes expectativas geracionais. A Igreja Católica continua gozando de uma estima generalizada, especialmente em comparação com a comunidade evangélicas e budistas, que tiveram renomados representantes envolvidos em escândalos e maus negócios.

Mas a aprovação à imagem pública eclesial não se torna, por si só, atratividade existencial ao anúncio evangélico. E o desenvolvimento econômico é acompanhado por processos de individualismo e secularização análogos aos registrados em outras sociedades avançadas.

Os "grandes eventos" e a vida cotidiana

"Quando o povo sofria, no tempo da repressão militar – recorda Vincenzo Bordo – a Igreja estava com o povo e sofria com o povo. Antes ainda, até meados dos anos 1960, havia fome, e a Igreja ajudava a todos. Naquelas décadas, também houve o aumento das conversões, que continuam até hoje. Mas agora a secularização é galopante. E, embora ainda haja um aumento numérico, não se percebe mais o impulso de florescimento que havia antigamente."

Além disso, parece cada vez mais ocioso o vício de salão clerical de atribuir às visitas papais efeitos admiráveis na vida das Igrejas locais visitadas.

"Na própria história da Igreja coreana – observa o bispo Kang – ficou claro desde o início que a Igreja não nasceu e não cresceu com as ideias dos eclesiásticos, com as estratégias planejadas ou com os grandes eventos. O que trouxe à Coreia o anúncio do Evangelho foram os pequenos grupos de leigos batizados, que se reuniam nas casas, rezavam e liam o Evangelho. Não havia missionários, não havia sacerdotes. Eles viviam confiados à graça, no tecido comum da vida cotidiana. E isso os conservou na fé mesmo durante as perseguições, enquanto continuavam se encontrando nas casas para rezar, ler o Evangelho e estudar o ensino da Igreja. Quando o Papa Francisco veio à Coreia, ele também sugeriu que podemos caminhar ainda hoje por esse caminho: viver o Evangelho na vida cotidiana, nas famílias, nas comunidades, nas paróquias. Assim, também pode se libertar uma força de atração que é obra de Deus, e não do homem."

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