A Vida Religiosa no século 21. Perspectivas de refundação

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12 Mai 2017

É preciso reconhecer “que a vida religiosa atual está morrendo”, constata Diarmuid O’ Murchu, psicólogo e religioso, no livro recém publicado e apresentado por Colleen Gibson, irmã de São José, diretora assistente do Ministério do Chestnut Hill College na Filadélfia, em resenha  do livro Religious Life in the 21st Century: The Prospect of Refounding, de Diarmuid O'Murchu, Orbis Books, 272 páginas, publicada por National Catholic Reporter, 10-05-2017. A tradução é de Luísa Flores Somavilla.

Segundo ele "nenhum herói vai salvar a vida religiosa. O futuro reside em comunidades corajosas e colaborativas".

Eis o artigo.

Durante décadas, o debate tem girado sobre como será o futuro da vida religiosa. A resposta, ao que parece, é que não se conhece o futuro.

O que é claro é que a realidade da vida religiosa já mudou e continuará mudando. Declínios dramáticos no número de membros, mudanças de normas culturais e de realidades sociais asseguram que a vida religiosa no século XXI deve evoluir para sobreviver. Esta evolução exige que o trabalho religioso esteja pronto para uma reestruturação quando chegar a hora.


Capa livro | Divulgação

Com esse sentimento de um futuro desconhecido, mas não necessariamente incerto, Diarmuid O'Murchu, psicólogo social e Missionário do Sagrado Coração, lança o marco de seu 25º livro, Religious Life in the 21st Century: The Prospect of Refounding.

A partir de linhas de pensamento advindas de seu primeiro livro, The Seed Must Die: Religious Life, Survival or Extinction, O'Murchu enfrenta a complexa realidade atual da vida religiosa. Resumindo passado, presente e futuro, ele leva reflexão e um desafio a todos os leitores, sejam religiosos ou não, ao considerar a necessidade de uma mudança de paradigma dentro da vida religiosa e da Igreja, e propor uma nova visão do engajamento radical, da autenticidade e da responsabilidade dos religiosos e do mundo no século XXI.

As raízes de uma nova compreensão da vida religiosa encontram-se em uma compreensão do paradigma que os religiosos têm seguido historicamente a à história, muitas vezes incompreendida e deturpada, da vida religiosa. Na primeira parte do livro, O'Murchu remonta às raízes da vida religiosa e sua natureza inerentemente profética. A vida religiosa evoluiu ao longo dos últimos dois milênios, com uma dependência constante da comunidade e do discernimento. Nessa época, a imagem dos religiosos como quem sai do mundo em busca da santidade individual desenvolveu-se sob o olhar do herói arquetípico.

Este paradigma, conforme O'Murchu, precisa mudar. Nenhum herói vai salvar a vida religiosa. O futuro reside em comunidades corajosas e colaborativas. Como inspiração, O'Murchu volta-se ao que ele chama de "as grandes fundadoras", explorando suas próprias histórias e recuperando uma história largamente subvertida da vida religiosa. Identificando suas principais motivações e qualidades de caráter, os religiosos hoje podem descobrir um caminho para o futuro.

Este caminho requer, em primeiro lugar, um reconhecimento de que a vida religiosa atual está morrendo. O'Murchu aponta para a natureza cíclica da vida religiosa, um padrão histórico de nascimento-morte-renascimento em um ciclo de 300 anos. Na metade do século XXI, a vida religiosa entrou em crise global, incluindo grupos que parecem estar florescendo no sul global hoje em dia.

Em segundo lugar, o paradigma da vida religiosa como uma fuga do mundo — que começou a mudar no Concílio Vaticano II — precisa mudar completamente para um reconhecimento comum e comprometimento com a busca do Reino de Deus. O'Murchu dá a este conceito o nome de "Companhia de Empoderamento". A vida religiosa no século XXI depende desta mudança, com os religiosos abraçando a natureza liminar de suas vocações, e reconhecendo seu papel social de encarnar os valores fundamentais da fé cristã e a reverberar estes valores no mundo.

Reverberar estes valores levará a vida religiosa adiante. Na maioria dos casos, afirma O'Murchu, isto significará uma mudança do ministério funcional e prático da Igreja institucional para um maior reconhecimento da necessidade de servir ao chamado profética da vida religiosa no mundo, lendo e respondendo aos sinais dos tempos como catalisadores culturais.

Esta mudança também requer uma conversa honesta e adulta dentro das ordens religiosas e congregações, investigando mais profundamente o chamado radical do Evangelho e como ele reformará a compreensão atual dos elementos constitutivos da vida religiosa, tais como os votos, a comunidade e o discernimento. A perspectiva de reestruturação e o futuro da vida religiosa dependem desse exame de consciência coletivo.

A visão de O'Murchu sobre religiosos como andróginos e sua alusão à reforma na intimidade sexual celibatária, na opinião desta crítica, advém da discussão mais ampla da sexualidade na vida religiosa, do exploração do erotismo divino e da sexualidade como algo para além da procriação. Muito mais pungente e desafiadora é a sua crítica da hipocrisia das congregações que afirmam estarem comprometidas à opção preferencial pelos pobres, mas também têm estilos de vida de classe média-alta que não atendem aos ideais da sustentabilidade ecológica e econômica.

O livro Religious Life in the 21st Century lida com temas difíceis de forma sincera e imparcial. Analisando as dúvidas centrais que prejudicam e eliminam o diálogo crítico dentro das congregações, O'Murchu chama os religiosos para algo mais. Citando o declínio acentuado da vida religiosa, ele aborda a dimensão pascal da sua reestruturação em que a morte será necessária.

Para se preparar para essa morte (e sua esperada ressurreição), os religiosos precisam responder aos sinais dos tempos com coragem, audácia e imaginação profética, renovando seu foco em Cristo e se reapropriando-se de seus carismas fundadores.

"Reestruturar não é fácil: nunca teve de ser", escreve O'Murchu no penúltimo capítulo, "e, no entanto, é uma possibilidade para todos nós, não importa o quão estagnados possamos nos sentir". O futuro da vida religiosa é um mistério sagrado, à espera de ser descoberto. A esperança da vida - para além da morte - é onde reside a fé no futuro. Colocar essa fé em ação e modelar essa fidelidade radical será o trabalho e o chamado da vida religiosa no século XXI.

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