França. Macron ou Mélenchon, o dilema da esquerda

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18 Abril 2017

As esquerdas francesas estão extraviadas. Falta menos de uma semana para o primeiro turno das eleições presidenciais e os eleitores progressistas não sabem a que candidato eleger entre as três ofertas presentes: a do socialista Benoît Hamon, a do líder da esquerda radical (França Insubmissa), Jean-Luc Mélenchon, ou a do novo ator do extremo-centro e do liberalismo social e ex-ministro de Finanças do presidente François Hollande, Emmanuel Macron.

A reportagem é de Eduardo Febbro, publicada por Página/12, 17-04-2017. A tradução é do Cepat.

Mais que uma eleição de adesão ideológica propriamente dita, um voto castigo ou um voto útil, as eleições se configuraram para que, conforme destaca François Miquet-Marty, diretor da consultora Viavoice, se convertam em “um dilema”. A primeira opção a favor do socialista Hamon está quase descartada. Sua distante posição nas pesquisas (entre 7 e 9%) dissuadem os órfãos socialistas que viram como ministros, deputados e dirigentes históricos abandonavam o navio para navegar rumo à presidência com Emmanuel Macron. A dúvida se concentra em dois candidatos: Mélenchon ou Macron. O primeiro está hoje em posição de força. Sua radicalidade suavizada, a eloquência de sua prosa política e a decomposição do Partido socialista (PS) o elevaram ao terceiro lugar das preferências de voto, atrás da candidata de extrema-direita Marine Le Pen (primeira com 25% de intenções) e de Emmanuel Macron. Segundo os últimos dados, Mélenchon ultrapassou o representante da direita, François Fillon. A terceira é a opção Macron. Este desenhador da política econômica de François Hollande aparece, agora, como a carta mais segura para se impor à direita e, no segundo turno, vencer Le Pen.

Os progressistas da França têm, na realidade, dois esboços como expectativa: uma esquerda “quimicamente pura” (Mélenchon), e um centro químico (Macron) criado há um ano, cuja plataforma é uma síntese com ingredientes do centro, da direita moderada e da social-democracia, ao melhor estilo europeu. O nível de indecisão é tal que, a bem poucos dias da votação, “a figura presidencial é impossível de encontrar”, segundo a expressão do Primeiro Secretário do PS, Jean-Christophe Cambadélis. Em quem votar? Se optam pelo socialista Benoît Hamon é praticamente um voto perdido. Pouco a pouco, Hamon foi se deslizando para a retaguarda das pesquisas, empurrado por sua vez pelo avanço de França Insubmissa e, sobretudo, pelo contínuo fluxo de deserções dentro do PS. O dissenso entre o liberalismo social e o socialismo fidedigno, entre a social-democracia reformista e de governo e a esquerda igualitária e partidária do Estado não se resolveu com um congresso que enfrentou as duas moções, mas, ao contrário, houve uma espantosa fuga de socialistas para o extremo-centro de Macron. Benoît Hamon foi crucificado pelos dirigentes de seu próprio partido.

Apoiar Jean-Luc Mélenchon é, para a esquerda, a carta mais genuína. O problema está em que sua orientação radical não lhe garante uma maioria presidencial. A realidade de sua dinâmica é igualmente uma fria. Nas eleições presidenciais de 2012, as pesquisas de opinião o situavam ao redor de 18% das intenções de voto. Ao final do primeiro turno, só obteve 11%. Eleger Emmanuel Macron significa um voto a favor da continuidade com as políticas do presidente François Hollande, que o próprio Macron implementou a partir de 2014, quando se produz a guinada liberal do mandato. No entanto, apesar de não contar com um partido, nem nunca ter participado de uma eleição, Macron abriu uma narrativa de mudança e de ruptura com o sistema, que seduz importantes porções do eleitorado. Sua localização no “extremo-centro”, sua aura juvenil e a energia positiva que se desprende dele desempenharam um papel decisivo em sua insólita ascensão.

Órfãos de um socialismo suicida, tentadas pela opção mais radical ou por um centro liberal moderado, aterrorizadas pelas raízes profundas da extrema-direita e a certeza de que sua candidata, Marine Le Pen, pode chegar ao segundo turno e mais, espantadas pela corrupção do candidato da direita de governo, François Fillon (Os Republicanos), as esquerdas da França oscilam entre o voto útil, Macron, ou o voto estratégico e de coração, Mélenchon. Em frente, possuem o espectro que regula tudo, Marine Le Pen, e um voto envolvido em um duplo sentido: eleger um candidato progressista para o segundo turno, do dia 07 de maio, e impedir que a direita passe para o segundo, onde Marine Le Pen poderia enfrentar e vencer com segurança.

O problema é que, hoje, tudo está coberto por nevoeiros. São 40% os eleitores que ainda não teriam decidido em quem votar e as últimas pesquisas lançam um retrato eleitoral desconcertante: os quatro candidatos fortes, Marine Le Pen, Emmanuel Macron, Jean-Luc Mélenchon, François Fillon, estão empatados. Suas respectivas porcentagens (entre 19 e 24%) não estão acima da margem de erro que são integradas nas pesquisas. Os franceses se converteram em um prodigioso diretor de teatro que joga à vontade com os atores. Por sua vez, a incerteza, a explosão do PS, as novas figuras como Macron, a influência recente de Jean-Luc Mélenchon, ou a decapitação anterior de vários políticos de carreira (François Hollande, Nicolas Sarkozy, Alain Juppé, Manuel Valls) são o testemunho de um final de ciclo. O semanário Le Nouvel Observateur escreve em um editorial: “França vive uma sessão de psicanálise coletiva muito mais apaixonante do que parece. Essa sessão está nos contando o fim de um mundo”. Logo mais, no próximo dia 7 de maio, se conhecerá a identidade da mudança, ou da continuidade.

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