Etiópia: entre as vítimas da fome que fogem do Sudão do Sul em guerra

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08 Março 2017

Há poucos dias, antes que alguém conseguisse matá-la, uma grande cobra matou cinco pessoas. No campo de refugiados etíope de Nguenyyiel, perto da fronteira com o Sudão do Sul, falta até mesmo água, imagine soro antiofídico, embora a clareira onde as tendas estão montadas pulula de serpentes cuja picada é mortal.

A reportagem é de Pietro Del Re, publicada no jornal La Repubblica, 07-03-2017. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Sim, mas de onde vêm os sudaneses do sul, há um mal ainda mais terrível e certamente mais mortífero: a fome. Nestes dias, as agências das Nações Unidas declararam que 100 mil pessoas estão morrendo de fome em um país ainda ensanguentado por uma guerra civil de fundo tribal e, agora, fustigado também pela falta de alimentos.

“No meu povoado, não chove há dois anos, e todas as cabras morreram. Depois delas, as crianças também começaram a morrer, depois os idosos. Nesse ponto, com a minha família, decidimos fugir para a Etiópia”, diz Thakdek Hem, um jovem de 20 anos da etnia Nuer, inimiga dos Donka, que compõem as ferozes milícias do governo. “É verdade, neste campo muitas vezes falta até água, e, se você fica doente, você morre, mas, pelo menos, é possível encontrar um pouco de comida.”

A Nguenyyiel, chegaram nas últimas semanas 30 mil refugiados sudaneses do sul, e, como a total carência de estruturas de saúde não os assusta, outros 50 mil devem chegar no próximo mês. De acordo com o Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR), a Etiópia está se tornando o país que acolhe o maior número de refugiados na África: já são 670 mil, dos quais mais da metade são sudaneses do sul, e o restante, somalis e eritreus.

Alguns fogem da guerra ou de ferozes regimes autoritários. Outros, da provocada por aquela que a ONU considera como a pior seca dos últimos 50 anos, que já dizimou o gado e que está começando a ceifar vidas humanas. Se, no Sudão do Sul, os desastres da seca são amplificados pelos combates, em outras regiões o são pela falta de infraestruturas ou, melhor, por uma pobreza crônica.

A emergência diz respeito ao Chifre da África, incluindo esta e outras regiões da Etiópia, mas também a Somália, a Eritreia, o Iêmen e o norte do Quênia. O campo de Nguenyyiel é o último dos oito preparados pelo ACNUR para ajudar aqueles que provêm do Sudão do Sul. Ele foi construído em novembro passado, no meio de uma floresta árida e longe de tudo, onde erguem-se muitas pedras enegrecidas como gigantescos dólmens.

“São esperados muito outros refugiados, mas, na tenda que serve de hospital, há apenas três leitos sem colchões, e, naquela para os partos, há apenas um”, diz Matteo Bottecchia, 32 anos e representante na Etiópia da ONG Cuamm Médicos com a África, de Pádua, que, na vizinha Gambela, está prestes a iniciar um projeto de apoio para as estruturas de saúde locais e outro para o fornecimento de materiais médicos e de formação de pessoal de saúde nos próprios campos de refugiados.

Quanto à Somália, a seca já matou dezenas de milhares de camelos, burros e cabras, e devastou milhares de hectares de plantações de café e de teff, o grão local. As suas outras vítimas são as crianças menores, muitas das quais já sofrem de desnutrição aguda. Nós as vimos no Saint Luke Catholic Hospital, de Wolisso, a três horas de carro de Addis Abeba e a três séculos da modernidade, na região rural de Oromia, onde, em 2016, os protestos pela independência contra o regime provocaram dezenas de vítimas.

Quando chegam ao hospital, esses pequenos não comem, não brincam, nem mesmo choram. Eles têm as pernas inchadas por causa da dermatite e a pele pende dos seus braços esquálidos. Alguns deles têm até dois anos, mas você lhes daria a metade.

“Até essa idade, eles foram alimentados exclusivamente com leite materno, por mães que estão, elas mesmas, desnutridas e muitas vezes exaustas por causa do trabalho nos campos ou talvez por causa da gestão de outros dez filhos”, explica a pediatra Marta Lusiani, 33 anos, também ela da ONG Cuamm, que fornece pessoal médico especializado para o Saint Luke, um hospital que, com 14.700 internações e 3.600 partos por ano, transborda de pacientes.

No departamento dirigido por Lusiani, 24 dos 65 leitos estão destinados às crianças desnutridas. E estes estão sempre todos ocupados. A pediatra diz ainda: “Muitas vezes, devemos alimentá-las com uma sonda, porque, no início, rejeitam todo tipo de alimento. São necessárias pelo menos duas semanas para entender se vão conseguir. Depois, com o primeiro sorriso, eu entendo que a criança deu a volta por cima. Infelizmente, não conseguimos salvar muitas delas. E aquilo que vemos aqui é apenas a ponta do iceberg”.

De acordo com a Unicef, são 10,2 milhões os etíopes que têm uma necessidade urgente de ajudas alimentares e, neste ano, poderiam se tornar 18 milhões, ou seja, um em cada cinco etíopes. Porém, no poder há 25 anos, o atual governo parece ter aprendido a enfrentar tanto de modo fragmentário quanto insuficiente a vulnerabilidade do seu país.

Tudo isso impediu até agora que se repita aquilo que aconteceu em 1984, quando, por causa de uma seca semelhante à atual, centenas de milhares de etíopes morreram de fome. Na época, diante das imagens daquela catástrofe humanitária, muitos se mobilizaram, como Bob Geldof, que organizou um show a fim de arrecadar fundos para aliviar a fome, criando um dos maiores eventos de rock da história.

Hoje, não existem fenômenos semelhantes, o flagelo que fere esta região da África é totalmente ignorado pelo planeta. Enquanto isso, para atrair capitais estrangeiros, o governo de Addis Abeba se orgulha de índices de crescimento recorde e lança megaprojetos industriais para modernizar o país. Ele não pode perder o desafio contra a seca, mesmo às custas de mendigar ajudas da China.

Essas ajudas serão suficientes? De acordo com a Save The Children, a resposta da comunidade internacional ainda está muito abaixo das necessidades das populações afetadas. Como demonstram as crianças de Wolisso e as de Nguenyyiel.

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