"Francisco vem de um continente não europeu, uma diferença preciosa para nós." Entrevista com Gerhard Ludwig Müller

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27 Fevereiro 2017

Nas salas do ex-Santo Ofício, quem nos acolhe é o atual prefeito da Doutrina da Fé, o cardeal alemão Gerhard Ludwig Müller. Ele desmente os clichês que o retratam como guardião “à direita” das aberturas “à esquerda” de Francisco. E, ao mesmo tempo, aceita falar – por ocasião do lançamento de seu livro Indagine sulla speranza (Ed. Cantagalli) – sobre os desafios da Igreja. Entre estes, o antigo problema da pedofilia no clero: “A Igreja, ao contrário de muitas outras instituições, realmente está trabalhando para a tolerância zero. O caminho está claro para todos: se um bispo fica sabendo, com certeza moral, da ocorrência de alguns casos de abuso contra menores na sua diocese, deve dizer às vítimas ou aos pais das vítimas que denunciem à autoridade competente o que aconteceu e, ao mesmo tempo, devem obrigar que o acusado se autodenuncie”.

A reportagem é de Paolo Rodari, publicada no jornal La Repubblica, 26-02-2017. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis a entrevista.

Os casos de abuso sexual de menores, infelizmente, não faltam, até mesmo na Itália.

A Itália não é diferente dos outros países, e, portanto, eu não compartilho a visão oferecida por aqueles que mostram um país onde o clero abusa, e os bispos encobrem. Não é assim, apesar de casos dolorosos terem ocorrido também aqui. Não nos esqueçamos de que, na Itália, assim como em outros países, há muitos bons sacerdotes – e eles são a maioria – que dedicam a sua vida pelo bem dos fiéis.

O senhor não acha que, se a Igreja sempre obrigasse a denunciar, muitos casos não teriam ocorrido?

Os sacerdotes são cidadãos como todos os outros e, nesse sentido, se cometem crimes, devem responder perante as autoridades civis e penais. Além disso, as autoridades religiosas devem realizar os seus processos canônicos que podem chegar como pena máxima à demissão do estado clerical. Os abusos sexuais de menores são delitos, crimes e, ao mesmo tempo, também pecados graves. E, quando um bispo ou um sacerdote fica sabendo desses abusos, deve dizer às vítimas que vão denunciar e também ao acusado que se apresente à polícia, porque esse é o único caminho para evitar que os casos se repitam. A Igreja, de todos os modos, não encobre nada. Em alguns casos, isso pode ter acontecido por ingenuidade, mas não sistematicamente. Quase todas as Conferências Episcopais escreveram diretrizes a esse respeito.

É claro, é preciso dizer que ordenar um padre com problemas desse tipo sempre pode ser possível, porque, por mais que nos empenhemos no discernimento, nem sempre é possível ler exatamente na consciência de um candidato se ele não se mostra sincero e disponível. São muitos os especialistas que também defendem que muitas vezes o predador se dá conta de sê-lo apenas no momento em que comete o crime. Isso para dizer que nem sempre é fácil evitar tanto para as autoridades civis quanto para as religiosas. Além disso, muitas vezes, enquanto a prescrição absolve aqueles que cometeram crimes dentro do próprio país, a Igreja é uma das poucas instituições que, ao contrário, não admite descontos sobre esses crimes. Mesmo depois de anos, é possível se chegar a sentenças duras.

Francisco tem opositores na Cúria Romana?

Todos os cardeais estudaram teologia, todos conhecem a doutrina do papado e do episcopado. Somos sacerdotes competentes que conhecem a missão do papa, a sua importância para todos. Vivemos uma colegialidade afetiva e efetiva com Francisco. Infelizmente, alguns meios de comunicação notam mais as legítimas diversidades de opinião e não a grande harmonia. O papa é o 266º sucessor de Pedro, e cada um, incluindo ele, tem uma história própria. Essa individualidade é a forma na qual cada um cumpre a sua missão. Francisco tem a particularidade de vir de um continente não europeu. Essa sua diferença é preciosa para nós.

Especialmente na internet, não faltam aqueles que contrapõem as suas intervenções sobre a doutrina àquilo que o papa diz...

São pequenas facções de direita e de esquerda que brigam entre si usando a mim e ao papa. São posições ideológicas que eu não compartilho em nada. Aliás, em pouco tempo, será lançado justamente um livro meu sobre o papa e sobre o papado... Todos servimos à obra do papa. Trabalhamos juntos para servir à sua missão.

O senhor acha que, sobre a comunhão aos divorciados em segunda união, Francisco pede um passo novo?

Temos a mensagem de Jesus e a Bíblia que dizem palavras claras sobre o fundamento do matrimônio na vontade salvífica de Deus. As condições sociológicas mudam, mas também é preciso levar em conta que existem diversas antropologias que não aceitam a nossa, fundada na Palavra de Deus. É preciso anunciar o Evangelho, sem traí-lo. Francisco quer fazer com que se sinta a proximidade do Bom Pastor ao povo de Deus com a pregação e o testemunho da vida cristã.

O que significa viver a misericórdia?

Deus não é um legislador frio, mas um Deus presente, próximo. Já no Antigo Testamento, Deus demonstrou a Sua proximidade para com o Seu povo libertando-o da escravidão e dando-lhe leite e mel. Jesus era misericordioso para com os necessitados, os doentes... Viver a misericórdia é viver o Evangelho na sua inteireza.

Existe o risco de que insistir no amor coloque em segundo plano o fato de que a verdade para os fiéis tem um nome, Jesus Cristo?

Não há contradição. Deus é o criador de todos os homens e ama a todos. Mas cada um tem uma identidade própria, que deve ser respeitada. Jesus não é colocado em segundo plano, ao contrário, insistindo no amor, é a própria língua de Jesus que é falada. Recentemente, Francisco se encontrou com os representantes de outras culturas. Ele lhes disse: “Embora não falemos a mesma língua, podemos nos entender porque falamos a língua do Espírito Santo, que é o amor”.

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