A utopia monástica na França

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25 Fevereiro 2017

Estar no mundo e ao mesmo tempo não estar... Essa aspiração que é um traço inerente do cristianismo é vivenciada de maneira especial na aventura do monaquismo. Danièle Hervieu-Léger estudando de forma profunda, por mais de um quarto de século, a evolução do cristianismo na sociedade francesa, focaliza principalmente o relacionamento, ao mesmo tempo conflitual e cooperativo, presente nas diversas comunidades de monges no mundo. O resultado é uma obra ambiciosa, fruto de longos anos de observação e que propõe uma releitura fascinante de dois séculos de história de vida monástica na França, desde que, obviamente, se aceite o ponto de vista da autora: não é nem um livro teológico, nem histórico, mas a análise de uma socióloga não crente.

A reportagem é de Isabelle de Gaulmyn, comentando o livro Le Temps des moines. Clôture et hospitalité, Danièle Hervieu-Léger, PUF, p.709, publicada La Croix, 16-02-2017. A tradução é de Luisa Rabolini.

A Revolução Francesa deixou os mosteiros esvaziados e o monaquismo, já em franca decadência desde o final de século XVIII, poderia até mesmo não ter sobrevivido. Em vez disso, o que ocorreu foi justamente o oposto, uma vez que a França ingressou em um movimento de renascimento forte, que, aliás, é uma dos traços característicos do país.

A época dos "fundadores", Dom Guéranger em Solesmes, Jean-Baptiste Muard em La Pierre-qui-Vire e Ernest André em Mesnil-Saint-Loup, é marcada por um desejo de restauração cristã diante de um mundo em que a Igreja é obrigada a renunciar ao hábito de ditar as leis. Os monges são, assim, a encarnação de uma sociedade perfeita que visa regenerar, com o seu testemunho, tanto o catolicismo como a sociedade. Uma visão romântica, portanto, mas que ainda continua a ser, apesar de tudo, um dos alicerces da vida monástica na França de hoje. O livro inclusive mostra até que ponto os monges desse início de século XXI são devedores daqueles grandes precursores: na intenção, por vezes inconsciente, de encarnar uma espécie de "pureza" cristã, frente a um mundo assolado pela violência, pelo relativismo, por todo tipo de desordem...

Na verdade, a inspiração utópica atravessa esses dois séculos de vida monástica. Expressa o desejo de propor uma concepção totalizante da vida cristã em um mundo que já não é mais organizado pela religião, explica a socióloga que se alinha ao pensamento de Max Weber e da teoria da dupla ética: a do simples fiel e a dos "virtuosos" que vivem plenamente os deveres cristãos.

Mas, ao longo do século XX, a vida monástica na França conheceu uma profunda renovação. Essa evolução passou pela inovação litúrgica, que foi elaborada nesses mosteiros e que serviu como inspiração para o Vaticano II. Também resultou em uma retomada do questionamento da relação com a autoridade, da passagem, escreve Danièle Hervieu-Léger, "do abade monarca ao irmão encarregado." A socióloga estuda profundamente o fracasso de dois laboratórios de vida monástica renovada dos anos 70: Boquem, na França e Maredsous, na Bélgica. Não ignora suas ambiguidades ligadas às personalidades de seus líderes (Bernard Besret, em especial) e às dificuldades da atmosfera política pós-1968. Reinseridas assim no cenário mais longo da história, essas duas experiências, assim como a de Taizé ou das comunidades monásticas de Jerusalém, adquirirem pleno significado.

A última parte deixa muitas questões em aberto. A autora, que não esconde sua proximidade intelectual com um catolicismo aberto, lista as fragilidades dos mosteiros franceses, a solidão de monges idosos vagando em imensos edifícios vazios, a falta de vocação e os questionamentos cruciais sobre a sustentabilidade do modelo. Sua indagação volta-se, em contraponto, para o dinamismo de mosteiros caracterizados por uma vontade de retornar ao projeto de restauração cristã do século XIX e de condenação da sociedade atual, como Le Barroux, Fontgombault e, em menor escala, Sept-Fons. A conclusão não é nada pessimista para aqueles. A utopia persiste, mas tem outro formato: passou-se do desejo de "morrer" de um mundo que é rejeitado, à experiência de uma "arte-de-viver " cristã (ou "estilo cristão"), na qual ainda se afirma toda a pertinência do modelo monástico em face às expectativas do mundo. Da promoção do desenvolvimento ecológico em defesa da natureza, ao acolhimento incondicional de pessoas de todos os tipos – quadros de estresse extremo, pessoas com grandes dificuldades econômicas ou psicológicas -, passando por uma ética de frugalidade, os monges continuam a atender às expectativas dos seus contemporâneos.

A linda meditação final, prolongando a emoção provocada pelo final dramático dos monges Tibhirine nos mosteiros franceses, mostra a intensa fecundidade dessa "arte de viver" quando o risco da hospitalidade é levado aos limite do paroxismo.

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